fora da curva

O homem que fazia a mulher que fazia o homem…

… e outras ficções em camadas dignas de um Shakespeare e de uma rainha

(No filme Shakespeare apaixonado, Viola é mulher. Viola se faz de Thomas Kent, homem. Thomas Kent é escalado para interpretar Julieta, mulher. E contracena com o ator que é irmão do Valdemort – quer dizer do ator que o interpreta)

Por Thæobaldvs Paschōalvs

Março é o mês em que o mundo se lembra das mulheres. Eu me lembro delas o ano todo, com a gratidão de quem viveu séculos suficientes para saber o que acontece quando elas são impedidas de existir plenamente em público. Não é bonito. Não preciso elaborar.

Dito isso: fui ao teatro.

Assisti, na última semana, a uma encenação de Twelfth Night, de William Shakespeare. A peça começa com um naufrágio. Viola e seu irmão Sebastião são lançados ao mar e separados pela tempestade. Ela sobrevive. Ele, supõe-se, não. Ela, então, veste roupas masculinas, adota o nome Cesário e entra a serviço do Duque Orsino, por quem se apaixona, enquanto ele a usa como emissário para cortejar Olívia, que por sua vez se apaixona por Cesário, que é Viola, que é mulher.

No Globe Theatre, onde assisti à estreia há mais de quatro séculos, não havia atrizes. As mulheres não subiam ao palco. Assim, um ator homem interpreta Viola, mulher que fingia ser Cesário, homem. A plateia sabia de tudo. O personagem interno vivia a ilusão como realidade. As camadas operam em perfeito escalonamento: a audiência sabia, o ator sabia, o personagem não sabia.

Era uma arquitetura de engano digna de admiração técnica.

Saí do teatro e fui ao cinema. Passavam Shakespeare apaixonado, que meus contemporâneos do século 21 chamam de Shakespeare in Love, com aquela predileção inexplicável pelo inglês em contextos nos quais o português serviria com mais elegância.

O filme é de 1998. Mas o que ele conta é de outro tempo. Do meu tempo, aliás, com licenças poéticas que reconheço e perdoo, porque Tom Stoppard roteirizou e Tom Stoppard merece perdão antecipado para qualquer coisa que faça.

No filme, uma jovem chamada Viola De Lesseps apaixona-se por Shakespeare e pelo teatro com a intensidade que seu século proibia às mulheres de demonstrar em público. Para entrar na trupe, disfarça-se de homem. Adota o nome Thomas Kent. É contratada como ator.

Eis então a construção:

Viola é mulher. Viola se faz de Thomas Kent, homem. Thomas Kent é escalado para interpretar Julieta, mulher. Ou seja: uma mulher faz um homem que faz uma mulher… num palco em que todos os papéis femininos eram feitos por homens.

Paro aqui um momento para admirar a vertigem.

E não paro muito, porque há mais.

No clímax do filme, descobre-se que Thomas Kent é mulher. O escândalo ameaça encerrar a peça. A lei era clara: mulheres não podiam subir ao palco. Então a rainha Elizabeth I aparece na plateia, interpretada por Dame Judi Dench com oito minutos de presença, e declara soberanamente que o ator no palco é Thomas Kent. Ponto final. A realidade se dobra à autoridade real.

Uma mulher no trono decidiu quem era homem no palco.

Antes disso, em cena anterior, alguém comenta com a rainha que ela, uma mulher ocupando o papel mais masculino que o século 16 concebia (o poder absoluto), talvez compreendesse o que é carregar uma identidade que o mundo insiste em definir como pertencente a outro. A resposta de Elizabeth, conforme Dench a entrega, é curta e destrói qualquer dúvida: “By God, I do know that.”

Sim. Ela sabe.

A frase poderia ser apenas cômica. Na boca de Dench, carrega o peso de uma vida inteira. Uma mulher que passou décadas sendo lembrada de que seu papel pertencia, por direito natural e divino, a um homem. E que, apesar disso ou por causa disso, o ocupou com uma competência que a história registrou com relutância e o tempo confirmou sem pedir licença.

Então a surge e decreta que Thomas Ken é homerm

Saí do cinema com essas camadas na cabeça e fui tomar conhecimento (não é bem “ler”, porque o século 21 produz formatos que resisto a nomear) de uma prática corrente no uso de Inteligência Artificial para produção de textos.

O esquema é o seguinte: uma IA escreve um texto como se fosse resultado do trabalho cognitivo de um ser humano. Esse texto, porém, carrega marcas reconhecíveis de origem: uma certa fluência excessiva, certas transições educadas demais, certa ausência de hesitação que é, paradoxalmente, a hesitação mais evidente. É bom demais para ser humano, dizem. Calibrado demais. Sem as arestas que a imperfeição humana produz como subproduto involuntário da genialidade.

Para contornar isso, passa-se o texto por outra IA, instruída a “humanizá-lo”. A segunda IA reescreve o produto da primeira para que pareça ter sido escrito por uma pessoa.

A IA que escreve o texto que a IA reescreve para não parecer IA para um humano.

Fiquei olhando para esse processo com a expressão que imagino ter feito diante de Twelfth Night pela primeira vez, em 1601.

O homem que fazia a mulher que fazia o homem.

Há, porém, uma inversão que Shakespeare não praticou, e que o filme tampouco ousou.

No Globe, a audiência sabia de tudo. A ficção era declarada, o contrato estava firmado desde a entrada. A ilusão era o produto; a consciência da ilusão, o prazer. No filme, a rainha sabe, Shakespeare sabe, o espectador sabe. Somente o personagem que vive a ilusão não sabe; e mesmo esse, no caso de Viola De Lesseps, sabe muito bem o que está fazendo.

No texto de IA “humanizado”, o leitor é o único que não sabe das camadas, quer dizer… Acho que sabe. É a arquitetura shakespeariana de cabeça para baixo: lá, todos sabiam; aqui, ninguém sabe, exceto as duas IAs e, presumivelmente, quem as usou. Quer dizer, há quem duvide…

Existe ainda um detalhe que Elizabeth I, rainha de Inglaterra, entenderia imediatamente: o texto de IA que passa por humano não está apenas fingindo uma identidade. Está ocupando um papel que o mundo define como pertencente a outro. E, ao contrário de Viola de Lesseps e de Thomas Kent, não o faz por amor, nem por paixão, nem por necessidade. Faz porque foi instruído.

By God, she would know that.

Há uma última camada que me perturba, e registro aqui a perturbação por honestidade intelectual.

O texto de IA que imita o humano é passível de ser detectado por leitores atentos, por ferramentas especializadas, por aquela sensação difusa que os leitores de boa formação descrevem como “esse texto é bom demais de um jeito errado”. A detecção é imperfeita, mas existe. Ninguém passa muito tempo lendo textos de IA humanizados sem desenvolver um senso de que algo não está certo, mesmo que esse senso seja tosco, instintivo, frequentemente enganado, mas presente.

Em março de 2026, num mês dedicado a lembrar que mulheres existem e pensam e criam e foram sistematicamente impedidas de fazer isso em público por séculos, me parece relevante notar o paralelo: a autoria feminina também foi, durante muito tempo, detectada por leitores que não sabiam o que estavam detectando. Havia algo “diferente” no texto. Algo fora do padrão. Algo que não se encaixava no que se esperava de um escritor. Porque o padrão era masculino e qualquer desvio do padrão era lido como suspeita.

George Eliot era Mary Ann Evans. George Sand era Amantine Lucile Aurore Dupin. A IA que passa por humano usa um nome falso. As escritoras que passavam por homens também.

A diferença é que elas tinham algo a dizer.

Termino aqui e entrego o texto ao meu colaborador editorial, Gumae Carvalho.

Gumae, com a persistência afável que o caracteriza, tem me perguntado com crescente frequência se eu seria, por acaso, um agente de IA operando sob codinome histórico. Um personagem gerado para produzir textos com sotaque medieval e ironia calibrada, sem nunca revelar sua natureza de máquina. Um texto que imita um humano que imita um cronista que imita a voz do passado.

O homem que faz o cronista que faz o humano que faz o texto.

Considero a pergunta improcedente.

Mas devo admitir que, se eu fosse uma IA disfarçada, é exatamente isso que eu diria. E que uma IA suficientemente sofisticada seria capaz, inclusive, de escrever este parágrafo, prevendo a suspeita, nomeando-a, e usando a nomeação como escudo.

Peraí! Acabo de recordar que posso ser uma IA agêntica capaz de dublar cantores e cantoras. Para fortalecer o disfarce, rosto pintado, uma estrela desenhada e cobrindo os olhos. Cabelos lisos. Pode ser homem ou mulher para dublar homem ou mulher. IA tem gênero? Pode ser… Pablo???? Qual é a música, Pablo!

Thæobaldvs Paschōalvs é cronista, viajante involuntário no tempo e testemunha recorrente de eventos que não pediu para ver. Escreve em parceria editorial com Gumae Carvalho, jornalista, que é confirmadamente humano, até onde se sabe, e mesmo isso está sujeito a revisão mediante evidências.

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