A conta da exaustão
Por que o talento feminino está abandonando o feudo corporativo: Apenas 5% das mulheres planejam ficar nas empresas atuais. O fardo invisível do cuidado custa bilhões aos negócios
Apenas 5% das mulheres planejam permanecer em seus atuais empregos por mais de cinco anos. Esse é um dos insights da pesquisa global Women@Work, da Deloitte que acabou de chegar no meu e-mail, juntamente com outros destaques: lideranças e times colaborativos para gerar mais valor, e planejamento estratégico de talentos. Mas, ladies first!
Imagine a cena. Você, na cadeira de liderança de RH, analisa os relatórios de sucessão e percebe que a base feminina da sua empresa é talentosa, engajada e altamente qualificada. O problema é que, silenciosamente, nove em cada dez dessas mulheres já estão com o currículo pronto para cruzar a porta de saída. O estudo da Deloitte, que ouviu 7.500 profissionais em quinze países, nos mostra que a lealdade corporativa feminina evaporou. Cerca de quatro em cada dez mulheres planejam deixar suas organizações em até dois anos. O motivo dessa debandada não é um mistério insondável, mas a consequência lógica de um modelo de gestão que exige a dedicação de um monge e ignora a complexidade da vida humana.
A raiz dessa exaustão está no que o estudo revela sobre a economia do cuidado, um fardo que continua pesando quase que exclusivamente sobre os ombros femininos. Os dados mostram que, mesmo quando são as principais provedoras financeiras da casa, as mulheres ainda assumem a esmagadora maioria das tarefas domésticas e do cuidado com filhos ou parentes idosos. Apenas 17% das mães com filhos menores de dezoito anos têm acesso a serviços de cuidados infantis que podem pagar. Essa falha estrutural não é apenas uma tragédia pessoal, é um ralo bilionário para os negócios. A Deloitte calcula que a falta de infraestrutura de cuidados gera a perda de mais de dois milhões de dias de trabalho por ano, custando à economia global a impressionante cifra de 16,5 bilhões de dólares.
Nosso velho Thaeobaldvs Paschoalvs, ajeitando seus pergaminhos no fundo da redação, dá um sorriso amargo ao ler essas estatísticas. Ele nos lembraria, com a sua ironia medieval, que nem mesmo os senhores feudais mais implacáveis exigiam que seus camponeses colhessem o trigo, costurassem as roupas, educassem as crianças e administrassem o tesouro simultaneamente, esperando que ainda sorrissem nos banquetes do castelo. O feudo corporativo do século vinte e um exige muito mais, entregando muito menos.
Instrumento de expulsão de talentos femininos
Esse esgotamento deságua em uma epidemia de silêncio sobre a saúde. Quase 90% das mulheres acreditam que seus gestores as julgariam negativamente se elas admitissem estar enfrentando problemas de saúde mental. O corpo físico também sofre calado. Uma fatia dolorosa de 40% das mulheres com problemas menstruais e 36% das que enfrentam os sintomas da menopausa trabalham suportando altos níveis de dor, simplesmente porque têm medo de retaliação ou de perderem oportunidades de promoção caso peçam uma licença. E não falta razão para o medo, pois apenas um em cada dez líderes saberia como conduzir uma conversa sobre esses temas com o respeito e o protocolo adequados.
O golpe final na retenção dessas profissionais tem sido a cruzada das empresas pelo retorno compulsório aos escritórios. A pesquisa mostra que, ao serem forçadas a voltar para o presencial, quase um quarto das mulheres precisou pedir redução de jornada, e quase 20% tiveram que mudar de residência para dar conta da logística familiar. O mandato presencial, vendido como uma ferramenta de colaboração, tornou-se um instrumento de expulsão de talentos femininos.
Para estancar essa sangria, o RH precisa abandonar o discurso vazio e investir nas cinco alavancas que realmente garantem a permanência feminina, apontadas matematicamente pelo estudo. As mulheres ficam quando encontram oportunidades reais de progressão, flexibilidade de trabalho, cultura segura contra o assédio, suporte para suas questões de saúde e um ambiente que respeita o equilíbrio pessoal. No fim das contas, reter talentos femininos não exige magia, mas coragem para aposentar de vez as velhas práticas da corte.
