Felicidade é uma cidade pequenina, como diz a canção?
Uma investigação pessoal e ligeiramente traumatizada sobre a felicidade, por Thæobaldvs Paschōalvs (no modo fiósofo)
Vou começar com uma confissão.
Tenho atravessado séculos. Tenho assistido a guerras, pestes, revoluções, o nascimento da imprensa, a morte de impérios, a invenção do PowerPoint e o surgimento de algo chamado doomscrolling, que, pelo que entendi, é exatamente o que Pascal descreveu no século 17, mas com tela de cristal líquido e algoritmo de recomendação. Nesse longo percurso de existência, uma única pergunta me perseguiu com a teimosia de um cobrador de dívidas medievais: “O que é ser feliz?”
Perguntei a filósofos. Ouvi músicos. Li poetas. Consultei imperadores. Tomei vinho com um diplomata carioca que se autodenominava “o branco mais preto do Brasil”. E posso afirmar, com a autoridade de quem viu tudo e não entendeu quase nada: a felicidade é o único tema no qual os seres humanos concordam que é importante e discordam absolutamente sobre tudo o mais.
Vamos ao relato.
I. Atenas, século IV a.C. O estagirita e a andorinha
Encontrei Aristóteles numa tarde ensolarada. Ele estava, como de hábito, caminhando e falando ao mesmo tempo, técnica pedagógica que os gregos chamavam de peripatética e que os modernos chamam de “reunião em pé”, quando querem parecer inovadores.
Sentei ao seu lado. Perguntei diretamente: “Aristóteles, meu querido, o que é a felicidade?”
Ele inspirou fundo. Sinal ruim. Quando um filósofo grego inspira fundo antes de responder, você sabe que vai estar lá por um bom tempo.
— A felicidade é a eudaimonia. Não é um estado. É uma atividade. É a alma em consonância com a virtude, exercida ao longo de uma vida inteira, com uma certa dose de bens exteriores, porque é difícil realizar ações nobres de mãos completamente vazias. E lembre-se: uma andorinha só não faz verão.
Observei o céu. Havia pelo menos umas quarenta andorinhas.
— E essas? — perguntei.
— Metáfora — disse ele, sem me olhar.
Anotei. Felicidade: atividade virtuosa, vida inteira, não confundir com alegria passageira, requer bens materiais mínimos, cuidado com a zoologia.
O problema com Aristóteles é que ele está certo. E quando um filósofo está certo, as consequências são sempre inconvenientes, porque implica que a felicidade dá trabalho. Não é um prêmio que cai do céu. É uma profissão. Uma carreira de tempo integral, sem décimo terceiro.
II. O jardim de Epicuro
Poucos dias depois, visitei Epicuro em seu jardim nos arredores de Atenas. O jardim era simples, quase austero, o que me surpreendeu: os rumores que circulavam na cidade o descreviam como um libertino de banquetes intermináveis.
Encontrei-o comendo pão com água.
— Isso é tudo?
— Para o sábio, isso rivaliza com os deuses — respondeu ele, tranquilamente.
— Tem certeza?
— Tenho. A felicidade é ataraxia, a ausência de perturbações mentais, e aponia, a ausência de dor corporal. Quem não se contenta com pouco não se contentará com nada. Destralhe os desejos, Thæobaldvs. A maioria deles é ilusória.
Olhei para o pão. Olhei para minha lista de desejos. A lista era consideravelmente maior que o pão.
— E o vinho? — perguntei.
Ele fez um gesto vago que poderia significar tanto “com moderação” quanto “não hoje”.
Epicuro me assombra até hoje porque ele é o único filósofo que, se vivesse no século 21, teria sucesso como coach de minimalismo e como guru de bem-estar mental e como crítico do consumismo e ninguém saberia exatamente em qual prateleira da livraria colocá-lo. Ele está em todas. E em nenhuma.
III. Roma. Sêneca, Marco Aurélio e os cavaleiros jedi do estoicismo
Roma me recebeu com o caos habitual. Sêneca estava em sua biblioteca, escrevendo cartas a um jovem chamado Lucílio com uma urgência que hoje chamaríamos de ansiedade de produtividade.
— Sêneca, você é feliz?
— Trabalho nisso — respondeu ele, sem levantar a cabeça. — A felicidade está na virtude e na razão. O mundo exterior é uma tempestade. A mente é uma fortaleza.
— Mas você é um dos homens mais ricos de Roma.
Ele pausou.
— A riqueza exterior não é um obstáculo à virtude. Apenas um teste.
— Conveniente.
Ele me olhou. Havia um ligeiro desconforto nos seus olhos que reconheço bem. É o olhar de quem foi pego numa pequena contradição e decide, com elegância, não expandir o assunto.
Mais tarde, cruzei com Marco Aurélio, no Palatino. Imperador. Filósofo. Homem completamente exausto.
— Cesar, o que é a felicidade?
— É aceitar o que não podemos mudar e mudar o que podemos. Dominar a si mesmo. Ignorar os caprichos do destino. Hoje tive de tomar três decisões sobre guerras nos confins do Império, arbitrar um conflito entre senadores e recusar uma petição de alguém que quer tornar seu cavalo cônsul. Outra vez.
— E está feliz?
— Estou sereno. Que é diferente. E, nas circunstâncias, consideravelmente mais realista.
Os estoicos têm essa característica: são os únicos filósofos que admitem que a felicidade pode ser muito difícil e que tudo bem. Isso os torna paradoxalmente consoladores. E paradoxalmente populares em aplicativos de meditação no século 21 — o que Sêneca acharia fascinante e Marco Aurélio simplesmente ignoraria.
IV. Paris, século 17. Pascal e o rei entediado
Cheguei a Paris numa tarde cinzenta. Blaise Pascal estava sentado, pensativo, olhando para nada com aquela intensidade de quem acabou de inventar a calculadora mecânica e ainda assim não se sente bem.
— Pascal, por que as pessoas não conseguem ficar quietas num quarto sozinhas?
Ele se animou instantaneamente. Era exatamente o assunto.
— Porque o ser humano é tão fraco e mortal que se sente miserável ao parar! Por isso buscamos o divertissement: o ruído, os jogos, as guerras, o agito. Tudo para nos desviar de pensar em nós mesmos. Até mesmo um rei, rodeado de luxo, será infeliz se for deixado sem distrações.
Pensei nos feeds de notícias, nos stories, nos reels, nas notificações intermitentes a que meu caro colega de redação, o Gumae, está sujeito…
— Pascal, você descreveu o smartphone trezentos anos antes de ele ser inventado.
Ele franziu a testa.
— O quê?
— Nada. Continue.
— O ponto é que essa caçada frenética por entretenimento não preenche o vazio. O único preenchimento verdadeiro e…
— … Deus!
— Exatamente.
— E se as pessoas não acreditam em Deus?
Ele abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.
— Então, estão em apuros consideráveis.
V. Frankfurt, século 19. Schopenhauer e o pêndulo ranzinza
Se Pascal era melancólico, Schopenhauer era a melancolia com juros compostos.
Encontrei-o num café. Ele estava sozinho. Era de se esperar, claro. O garçom havia tentado conversar e fora dispensado com um olhar que poderia gelar o Reno.
— Schopenhauer, é possível ser feliz?
— Não de forma duradoura. O querer humano nasce da necessidade. Da carência. Do sofrimento. Para cada desejo satisfeito, restam dez não realizados. A vida oscila entre o sofrimento e o tédio, como um pêndulo. A felicidade é puramente negativa: é a cessação momentânea de uma dor.
— Isso é deprimente.
— É preciso.
— E não há saída?
— A arte. A contemplação desinteressada. Ou a negação ascética dos desejos.
Pensei em Epicuro e seu pão.
— Epicuro diria algo parecido…
— Epicuro era um otimista disfarçado!
Fiz uma anotação: Schopenhauer: o pêndulo, o sofrimento, o tédio, a arte como válvula. Não convidar para festas de aniversário.
VI. Nietzsche entra na conversa (sem ser convidado)
Como sempre acontece com Nietzsche, ele entrou sem bater. Sempre há algum ser humano capaz de citar alguma coisa sobre este filósofo em alguma conversa. Às vezes, o confundem com um tal de Belchior, músico, mas não é o caso de falar sobre canções agora.
— Ouvi falar em felicidade — disse ele, com os bigodes em posição de combate. — Estão perdendo tempo. A felicidade de rebanho, passiva, baseada no mero conforto, desprezível. Eu celebro o amor fati. O amor ao destino. Diga seu mais alto sim à vida, abrangendo a dor, a culpa, a mudança…
— Você discorda de Schopenhauer?
— Profundamente.
— Mas os dois concordam que o sofrimento é inerente à vida.
Houve uma pausa. Os dois se entreolharam com a hostilidade específica de pessoas que chegaram a conclusões parecidas por caminhos completamente opostos e, portanto, não se suportam.
— A diferença — disse Nietzsche, com cuidado — é que Schopenhauer quer escapar do sofrimento. Eu quero dançar com ele.
— Dancei com o sofrimento uma vez — disse eu. — Foi a Peste de 1347. Não recomendo.
Nenhum dos dois respondeu. Filósofos raramente têm boa resposta para a Peste.
VII. O intervalo musical. Vinicius, Tom e a tristeza que balança
Nesse ponto da minha investigação, decidi parar de falar com filósofos e ouvir músicos. Os filósofos explicam a felicidade. Os músicos a habitam; às vezes felizes, mais vezes tristes, e geralmente os dois ao mesmo tempo, o que é, em si, uma resposta filosófica mais honesta do que a maioria.
Encontrei Vinicius de Moraes, o capitão do mato, como ele mesmo se chamava, o branco mais preto do Brasil, na linha direta de Xangô, numa noite no Rio de Janeiro que cheirava a jasmim e cerveja gelada. Foi no Villarino? Não lembro.
— Vinicius, o que é a felicidade?
Ele acendeu um cigarro, olhou para o céu e disse:
— “É melhor ser alegre que ser triste / Alegria é a melhor coisa que existe / É assim como a luz no coração / Mas pra fazer um samba com beleza / É preciso um bocado de tristeza.”
Fiz uma pausa. Olhei para minhas anotações sobre Aristóteles, Epicuro, Pascal, Schopenhauer, Nietzsche.
— Vinicius, você acabou de sintetizar dois mil anos de filosofia em seis versos.
Ele baforou a fumaça com a modéstia específica de quem sabe exatamente o que acabou de fazer. Disse:
— O samba é isso. A tristeza tem sempre uma esperança / de um dia não ser mais triste não.
Anotei. E pela primeira vez em séculos, anotei sem ironia.
Porque Vinicius entendeu algo que Schopenhauer não quis ver e que Nietzsche expressou de forma dramática demais: a tristeza não é o oposto da felicidade. É o seu ingrediente. O samba não nega a dor. Ele a balança. Transforma. É Espinosa em forma de ritmo: a passagem de uma perfeição menor para uma maior, não pela eliminação do sofrimento, mas pela sua alquimia.
E Tom Jobim, o parceiro querido, confirmou pelo outro ângulo. Não com o samba, mas com a bossa nova, aquela onda que se ergue no mar, aquelas estrelas que esquecemos de contar. “Fundamental é mesmo o amor / É impossível ser feliz sozinho.”
Aristóteles concordaria. Epicuro concordaria com reservas. Schopenhauer ficaria em silêncio. O que, no caso dele, é o máximo de concordância possível.
VIII. A felicidade do pobre e a ilusão do carnaval
Mas há uma canção que me persegue mais que as outras. É do mesmo Vinicius, com música de Tom, e ela tem a crueldade gentil dos poetas honestos:
“A felicidade do pobre parece / A grande ilusão do carnaval / A gente trabalha o ano inteiro / Por um momento de sonho / Pra tudo se acabar na quarta-feira.”
Aristóteles diria que falta virtude estrutural. Epicuro diria que o problema é querer demais. Schopenhauer diria que ele tinha razão o tempo todo.
Mas Vinicius não está fazendo filosofia. Está fazendo diagnóstico social. E o diagnóstico é mais perturbador porque não oferece solução, mas apenas observação, com aquela tristeza que balança, com aquela esperança de um dia não ser mais triste. A felicidade como gota de orvalho numa pétala de flor: brilha, oscila, cai.
Pascal chamaria isso de divertissement. Mas o divertissement de Pascal é a fuga voluntária do tédio existencial dos ricos. O carnaval de Vinicius é o único intervalo possível numa vida de trabalho pesado. São fugas de naturezas completamente diferentes. E confundi-las seria a mais colonial das análises filosóficas.
IX. Voltaire encerra o debate (porque sempre era Voltaire que encerrava)
Faltava consultar uma última autoridade. Encontrei Voltaire em Genebra, numa tarde em que ele estava, como de costume, zombando de alguém. De forma geral, o alvo era Jean-Jacques Rousseau, mas desta vez, era de si mesmo.
— Voltaire, depois de tudo isso, o que é a felicidade?
Ele me olhou com aquele sorriso que é simultaneamente o mais inteligente e o mais cansado que já vi num rosto humano.
— Cada um põe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. As discussões sobre o supremo bem são tão bombásticas quanto debater o supremo azul ou o supremo ensopado. Não existem delícias ou tormentos que durem a vida inteira. A vida é caótica e indecifrável. A regra mais sábia é a mais simples.
— Isso é relativismo?
— É pragmatismo com humor. O que é infinitamente superior.
Anotei. Releio até hoje.
X. Conclusão. O que aprendi, o que não aprendi e o samba que ficou
Depois de séculos de investigação, tenho o seguinte inventário:
- Aristóteles diz que a felicidade é trabalho. Uma vida inteira de virtude. Sem atalhos.
- Epicuro diz que a felicidade é subtração. Desejos menores, paz maior.
- Os estoicos dizem que a felicidade é resistência. A mente como fortaleza contra o caos.
- Pascal diz que a felicidade que buscamos é fuga, e a que precisamos é presença.
- Schopenhauer diz que a felicidade duradoura é ilusão, e a arte é o melhor consolo.
- Espinosa diz que a felicidade é a virtude, não o prêmio dela.
- Nietzsche diz que a felicidade é o sim dionisíaco à vida inteira, dor incluída.
- Voltaire diz que a felicidade é pessoal, impermanente, e que levá-la a sério demais é o primeiro passo para perdê-la.
- Vinicius diz que a felicidade precisa de tristeza, assim como o samba precisa de dor para ter beleza.
- Tom Jobim diz que a felicidade é amor, e que é impossível ser feliz sozinho.
E eu, Thæobaldvs Paschōalvs, cronista de todos os séculos e de nenhum em particular, após haver consultado os maiores pensadores da humanidade e bebido com pelo menos metade deles, o que acho?
Eu digo o seguinte:
A felicidade talvez seja exatamente o que está acontecendo enquanto você procura por ela. É a conversa no jardim com Epicuro. É o passeio peripatético com Aristóteles. É a tristeza que balança no samba de Vinicius. É aquela onda que se ergueu no mar que Tom viu e que eu também vi, naquela noite em Ipanema, muitos anos depois de ter começado essa investigação.
Fundamental é mesmo o amor.
E se os dois mil anos de filosofia que precedem essa frase não chegaram à mesma conclusão com a mesma elegância, então talvez Voltaire tenha razão: as discussões acadêmicas sobre o supremo bem são, no fim das contas, menos precisas do que um bom samba.
“A vida não é brincadeira, amigo. A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, disse Vinicius, em 1966. E ninguém antes ou depois disse melhor.
Saravá!
