a ponto

Quando a IA começa a mexer com a folha de pagamento

Três pontos do relatório Deloitte 2026 que todo profissional de RH precisa ter no radar. E por que “IA não vai substituir humanos” virou o maior slogan de marketing da década

(imagem produzida pelo Claude, mas não o Monet, com o Gemini. Pelo que o Claude me disse, esse robô está dando bye-bye para alguém)

Se você trabalha com gente, ou com qualquer eufemismo contemporâneo para isso (já tive contato com diversas denominações ao longo do tempo), chegou a hora de parar de fingir que IA é assunto exclusivo da TI.

O relatório TMT Predictions 2026, da Deloitte, publicado em novembro passado, traz dados que deveriam fazer qualquer profissional de RH perder pelo menos um ciclo de sono ou, no mínimo, repensar a estratégia de talentos para os próximos anos. Porque 2026 não é mais aquele futuro distante que a gente contemplava assistindo a “De volta para o futuro”. É este ano. Este mês. Esta segunda-feira. Até porque o futuro do filme de Marty McFly foi 2015…

A conversa sobre IA agêntica (aquela que não só responde perguntas, mas age, decide e executa tarefas de forma autônoma) deixou de ser um discurso de evento para se tornar realidade com cifras bilionárias e impacto concreto nas estruturas organizacionais. Vamos aos três pontos do relatório que devem transformar seu café da manhã em algo menos tranquilo.

1. O mercado de US$ 45 bilhões que vai reorganizar suas equipes, queira você ou não

A Deloitte estima que o mercado global de agentes de IA autônomos deve atingir US$ 8,5 bilhões já neste ano (2026) e saltar para US$ 35 bilhões até 2030. Com orquestração correta desses agentes (e “orquestração” aqui não é uma forma elegante de “fazer as coisas funcionarem direito”), esse número pode chegar a US$ 45 bilhões.

Traduzindo: não estamos falando de sistemas que automatizam tarefas repetitivas. Isso a gente já conhece desde que o Excel entrou em nossas vidas, embora na minha ainda existam (muitos) pontos, linhas e colunas a explorar. Estamos falando de agentes que tomam decisões, coordenam projetos, gerenciam fluxos complexos e, pasmem, começam a ocupar funções que até anteontem considerávamos “eminentemente humanas”.

Um estudo da KPMG de janeiro deste ano mostra que 64% das organizações já alteraram suas estratégias de contratação de cargos de entrada por causa da IA agêntica. É um belo salto se comparado aos 18% do trimestre anterior. E quando se fala em “alterar estratégias de contratação”, não é apenas mudar o texto da vaga no LinkedIn. É repensar completamente que competências essas pessoas precisam ter, porque agora trabalharão ao lado de sistemas inteligentes, ou sob supervisão deles, ou supervisionando-os. Ainda estamos descobrindo qual. Apenas torço para que nenhum HAL 9000, do filme de Kubrick, responda ao anúncio…

Nesse cenário, vale destacar, podem surgir movimentos, digamos, perversos nos quais alguns executivos poderão usar a IA como “bode expiatório” para cortes de pessoal, mesmo que a empresa não esteja realmente pronta para implementar essas tecnologias de forma eficaz. É o equivalente corporativo de terminar um relacionamento dizendo “não é você, sou eu”, só que nesse caso a frase vira “não é você, é a IA”, quando na verdade são decisões de corte de custos travestidas de transformação digital.

2. A transformação do SaaS vai explodir seus modelos de orçamento e headcount

O relatório da Deloitte projeta que em 2026 as aplicações SaaS (aqueles softwares na nuvem: LinkedIn, Salesforce, Workday) vão se tornar mais inteligentes, personalizadas e autônomas. Isso vai mudar completamente os modelos de precificação. Deles e do valor do desempenho do colaborador. Vejamos.

Até agora, SaaS funcionava assim: você paga X reais por mês por “assento”, ou seja, por colaborador que usa o sistema. Simples, previsível, fácil de colocar no orçamento. Com agentes de IA integrados, o modelo pode migrar para precificação por consumo e/ou por resultados. Você não paga mais pelo número de pessoas usando o sistema, mas pelo volume de tarefas executadas. E aqui entra uma pergunta filosoficamente perturbadora: se um agente de IA executa o trabalho de três analistas, você conta isso como um “assento” ou como três?

No documento da Deloitte é citada uma pesquisa do Gartner que revela que metade dos líderes de RH já implementou IA generativa em suas funções. Não estamos mais na fase de “vamos pilotar”. Estamos na fase de “isso já está rolando e quem não subiu no trem vai ver a paisagem mudar pela janela”. E olha que usei a imagem de um trem, que é mais moderna do que “o bonde da história”.

Um dado da Salesforce complementa o quadro: líderes de RH planejam realocar um quarto de sua força de trabalho à medida que a adoção de IA agêntica deve crescer 327% até 2027. Um quarto. 25%. Isso não é ajuste fino. É reformulação estrutural.

Outra imagem da dupla Claude e Gemini. Senti uma certa ironia deles nessa imagem, mas me disseram que é importante
3. A grande recalibragem de habilidades já começou. E você está atrasado.

O Fórum Econômico Mundial projeta que 39% das competências essenciais dos trabalhadores vão mudar até 2030. Antes que você respire aliviado pensando “ah, 2030 ainda está longe”: estamos em 2026, o tempo passa rápido. O processo já está em curso e acelerando.

E aqui vai uma reviravolta interessante: as habilidades que mais crescem não são as puramente técnicas. Sim, IA e big data estão no topo, seguidos por cibersegurança e alfabetização tecnológica. Mas logo em seguida vêm pensamento criativo, resiliência e liderança. Exatamente aquelas soft skills que passamos décadas tratando como “nice to have” e que agora são o grande diferencial competitivo.

Por falar em habilidades em IA: uma pesquisa da PwC (Global AI Jobs Barometer 2025) traz um dado interessante. Ela mostra que trabalhadores com essas competências ganham até 56% a mais do que seus pares sem elas. Não é ajuste salarial marginal. É um gap estrutural que pode criar uma divisão de classes dentro das próprias organizações.

O Gartner adiciona mais pimenta nesse caldo: 80% da força de trabalho de engenharia sozinha precisará fazer upskilling até 2027 apenas para acompanhar a evolução da IA generativa. Se isso vale para engenheiros, pessoas teoricamente mais próximas da tecnologia, imagina para o resto da organização.

E aqui vem o detalhe mais irônico de todo o relatório, aquele que Thaeobaldvs Paschoalvs, nosso amigo e alterego cronista medieval de todos os tempos, adoraria comentar com sua tinta de pena de ganso: o Gartner prevê que, até 2026, 50% das organizações vão exigir avaliações de habilidades “livres de IA” por causa da atrofia do pensamento crítico causada pelo uso excessivo de GenAI. Para entender um pouco mais sobre isso, sugiro ler a entrevista que fiz com o professor Jason Wild. 

Ou seja, estamos criando uma geração de trabalhadores tão dependentes de IA para pensar que precisaremos criar testes para garantir que eles ainda conseguem raciocinar sem auxílio artificial! É como aquele episódio de Wall-E em que os humanos esquecem como andar. Só que na vida real, na vida como ela é (salve, Nelson Rodrigues!). E acontece agora.

O paradoxo escondido no slogan

E sobre a diferença de quem usa e de quem não usa IA, Cezar Taurion, Chief Strategy Officer da Mobili Partners, publicou recentemente no LinkedIn uma reflexão que deveria ser leitura obrigatória para todo profissional de RH. Segundo Taurion, a frase “A IA não vai substituir humanos, mas humanos usando IA vão” virou senso comum. E funcionou melhor como slogan de marketing do que como diagnóstico da realidade.

A frase resolve tensões culturais e empurra a adoção ao mesmo tempo. Não é à toa que consultorias, escolas de negócios e empresas repetiram isso em coro. Mas três anos depois de o ChatGPT dar o ar da graça, Taurion aponta que continuamos nessa espécie de transe. Pesquisas acadêmicas ainda discordam se a IA realmente aumenta produtividade ou apenas desloca carga cognitiva. E produtividade real envolve coordenação, contexto, política, ambiguidade e trade-offs. Quase nada disso aparece nos PPTs dos “casos de uso”.

A verdadeira competência, ele lembra, não está em saber promptar. Está em saber perguntar. E, cada vez mais, em saber discordar. Inclusive da própria IA. Você discorda de tudo isso?

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