a ponto

Maioria no chão de fábrica, minoria no andar de cima

Quando os números mostram avanços reais e também revelam o que ainda falta

Marli, do Grupo MC (centro): a força das mulheres está na capacidade de gestão, no olhar atento aos processos, no cuidado com as pessoas e na visão estratégica de longo prazo

Há algo quase paradoxal acontecendo no mercado de trabalho brasileiro: nas empresas que se dispuseram a fazer as contas, as mulheres já são maioria. Mas maioria onde, exatamente? É aí que a matemática começa a contar uma história mais complicada, e mais honesta.

No Grupo MC Empreendimentos e Participações, empresa do agronegócio mato-grossense com mais de dois mil colaboradores e exportações para mais de 15 países, as mulheres representam 52,1% do quadro geral, conforme levantamento interno de fevereiro de 2026. No chão de fábrica especificamente, esse índice é de 51,05%, o que reforça que a presença feminina não se concentra apenas nas áreas administrativas. A empresa atua em oito segmentos, nos quais essa presença atravessa desde a operação até a diretoria estratégica.

A diretora Marli Becker resume bem a lógica que sustenta esses números. “A força das mulheres no Grupo MC não é apenas numérica. Ela está na capacidade de gestão, no olhar atento aos processos, no cuidado com as pessoas e na visão estratégica de longo prazo. Construímos um ambiente onde competência e dedicação são os critérios que realmente importam”, afirma.

Essa presença feminina está ligada ao próprio movimento de internacionalização da empresa. Ana Gabriele Becker, também diretora no grupo, acrescenta que os mercados externos exigem governança, organização e inovação constantes, e que as mulheres participam ativamente desse processo, desde a indústria até as decisões estratégicas, contribuindo para que o grupo continue competitivo e sustentável. 

Esse cenário do Grupo MC é animador. E é exatamente por ser animador que merece ser lido com cuidado. O índice de mulheres em posições de liderança estratégica no grupo ainda é de 0,86%, um número que a própria empresa reconhece como parte de um movimento em construção. Muitas organizações brasileiras estão nesse mesmo estágio: avançaram na base, mas o caminho até o topo ainda reserva obstáculos que os números do quadro geral não conseguem revelar.

Engenharia: 33,8% no ensino superior, 20% no mercado

Se o agro já tem história para contar, a engenharia ainda está escrevendo o primeiro capítulo com mais emoção do que desfecho. Segundo o Censo da Educação Superior do Inep/MEC de 2023, as mulheres representam 59,6% dos concluintes do ensino superior no Brasil. Um número impressionante, até você descobrir como ele se distribui.

Em educação, elas são 76,3% dos formandos. Em saúde e bem-estar, 72,9%. Mas em engenharia e áreas correlatas, a participação feminina cai para 33,8%. E no mercado de trabalho, a fotografia fica ainda mais desfocada: de acordo com o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), as mulheres são apenas cerca de 20% dos profissionais ativos registrados no sistema Confea/Crea.

Márcia Fontes, diretora de pessoas, cultura e transformação da Timenow, empresa de gestão de projetos de engenharia, coloca esse cenário em perspectiva histórica. Ela lembra que, há 100 anos, a presença feminina nas escolas de engenharia e no mercado de trabalho era quase nula, com apenas algumas pioneiras quebrando tabus e abrindo caminhos que, gradualmente, estão sendo pavimentados.

Na Timenow, essa agenda se traduziu em três pilares práticos: cultura e sensibilização contínua da liderança, uma política de diversidade formalizada e um argumento de negócio claro. Márcia resume o terceiro com objetividade. “Entendemos que a diversidade melhora a nossa entrega. Ela nos permite lidar com as mudanças de mercado com muito mais agilidade e inovação”, diz.

Diretores do comitê executivo, da Ardagh, Karina Ribeiro, Thiago Gnecco, Sibeli Xavier, Ana Laura Cezare, Ricardo Bonazzi, Vania Akabane e Jorge Bannitz
Diretores do comitê executivo, da Ardagh, Karina Ribeiro, Thiago Gnecco, Sibeli Xavier, Ana Laura Cezare, Ricardo Bonazzi, Vania Akabane e Jorge Bannitz
Quando 57% no comitê executivo vira notícia

Na Ardagh Metal Packaging, fabricante global de embalagens de alumínio para bebidas, quatro das sete posições do comitê executivo no Brasil são ocupadas por mulheres. Cinquenta e sete por cento do colegiado. E mais: três das quatro executivas foram desenvolvidas internamente ao longo dos anos.

O que torna esse número mais significativo é o setor em que ele acontece: a indústria de manufatura, historicamente dominada por homens tanto nas operações quanto nos comandos. A operação brasileira da Ardagh é, atualmente, a única dentro da estrutura global da companhia com maioria feminina em seu comitê executivo local.

Vania Akabane, diretora de RH e comunicação, explica que a composição do comitê foi se formando a partir de uma cultura que valoriza competência e diferentes perspectivas. “Mais do que atingir uma meta de gênero, esse é o movimento natural de um ambiente em que o desenvolvimento profissional é prioridade”, diz.

Jorge Bannitz, CEO da Ardagh no Brasil, reforça a dimensão estratégica da diversidade. “Contar com um comitê executivo que reflita a pluralidade da sociedade não é apenas uma questão de equidade, mas também de visão de negócio. A consolidação da maioria feminina no comitê, resultado exclusivo do mérito e da competência individual de cada profissional, enriquece a nossa capacidade de decisão e amplia a análise dos desafios sob múltiplas perspectivas”, destaca.

O que os números não dizem sozinhos

Os três exemplos citados são reais, verificáveis e, cada um a seu modo, animadores. Mas é exatamente por isso que precisam ser lidos com atenção. A presença feminina em 52% do quadro de uma empresa e em 57% de um comitê executivo são conquistas distintas, e não necessariamente conectadas.

O estudo “Mulheres na Liderança”, do Great Place To Work (GPTW), lançado em 2025 a partir da análise de rankings setoriais entre 2022 e 2025, oferece uma visão mais ampla: o setor de saúde lidera com 63% de participação feminina no quadro geral e 19% de mulheres na posição de CEO. O agronegócio registrou a menor representatividade no quadro geral (23%) e o menor percentual de CEOs mulheres (9%), mas foi o setor que mais avançou em alta liderança nos últimos três anos, saltando de 14% em 2022 para 24% em 2025.

Daniela Diniz, diretora de comunicação e relações institucionais do GPTW, resume o desafio estrutural que os números revelam. “Embora alguns setores apresentem crescimento na alta liderança, a baixa representatividade feminina no quadro geral ainda revela um desafio estrutural: é preciso ampliar o acesso e garantir a permanência desde a base para formar um pipeline consistente de lideranças”, diz.

A pergunta que fica, portanto, não é apenas “quantas mulheres estão aqui?”, mas: em qual andar do prédio elas estão? E quem controla o elevador?

No próximo texto desta série, vamos examinar o que acontece quando a presença feminina vai além dos números e esbarra em uma barreira muito mais difícil de medir: a cultura do silêncio.

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