de encontro

Centro-Oeste na labuta de encontrar gente

CEO de consultoria especializada no Centro-Oeste explica por que o boom de contratação no agro convive com o maior gargalo de mão de obra qualificada da região

Mato Grosso fechou 2025 com a menor taxa de desocupação do Brasil: 2,2%. É quase pleno emprego e, ao mesmo tempo, é o retrato de um mercado que grita por gente que simplesmente não existe em número suficiente na região. Francielly Nonato dirige a FPR Consultoria de Gestão de Pessoas, referência em recrutamento e seleção para o agronegócio no Centro-Oeste, e conhece de perto a distância entre vaga aberta e candidato pronto.

A renda do trabalhador ligado à agricultura mostrou recuperação consistente ao longo de 2025, segundo a PNAD Contínua do IBGE, algo entre 4% e quase 7% de crescimento real por trimestre, conforme o período. Isso é ganho real de poder de compra, ou é só o preço que o mercado paga porque não tem gente disponível?

As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Os trabalhadores estão, sim, tendo aumento no poder de compra, porque o setor melhorou salários para atrair mão de obra escassa. Como a escassez de profissional no campo é fato conhecido no agronegócio, é natural que, com pouca gente disponível, as empresas precisem oferecer salário mais atrativo. Tenho percebido, pelos meus clientes, que nos últimos anos eles vêm se estruturando melhor, cuidando mais da gestão de pessoas, investindo em benefício. Com isso, o colaborador tem mais qualidade de vida e adquire mais bem e serviço. Sabemos, da área de pessoas, que esse investimento faz toda a diferença para retenção de talento, e esse movimento deve crescer ainda mais no agronegócio daqui para frente.

Em 2025, o Centro-Oeste teve o segundo maior saldo de vagas formais entre as regiões brasileiras, atrás só do Sudeste, segundo dados de CNA e Caged. No seu dia a dia de recrutamento, qual função está impossível de fechar agora?

A função mais impossível de fechar é a de mecânico agrícola especializado. Estamos diante de um novo perfil profissional: as máquinas estão cada vez mais tecnológicas, exigindo conhecimento técnico avançado, mas o trabalho continua sendo em campo, sob condição adversa. O profissional qualificado tecnologicamente migra para o setor urbano, e quem tem a expertise do campo muitas vezes não tem a formação necessária. Esse descompasso entre a modernização da máquina e a qualificação da mão de obra disponível é o nosso maior gargalo. Temos muito candidato, mas eles não têm a competência técnica necessária.

Você descreve seu trabalho como acolhimento humano combinado a visão estratégica. Isso resiste à velocidade de um boom de contratação, ou vira a primeira vítima quando a meta de vaga aperta?

Resiste, e é exatamente aí que a estratégia se prova. Em momento de contratação acelerada, é mais importante do que nunca ter processo organizado. Não assumimos compromisso que coloque a qualidade em risco. O foco é equilibrar as duas pontas: atender a urgência da empresa com agilidade e garantir que o candidato se sinta valorizado, com devolutiva clara. Pessoa qualificada no time nos permite escalar o processo sem que o acolhimento vire a primeira vítima.

Em 18 anos de RH, qual foi a mudança mais brusca no perfil do candidato de agro que você viu nos últimos cinco anos?

Nos últimos cinco anos, o agro deixou de ser apenas campo para se tornar dados. A grande mudança foi a transição da experiência estritamente operacional para a fluência tecnológica; hoje o mercado não busca só quem conhece a terra, busca quem sabe interpretar informação para gerar eficiência. O profissional de sucesso é aquele que une a sabedoria tradicional do setor à agilidade digital, e que se mantém em atualização constante.

Mato Grosso tem a menor taxa de desocupação do país, 2,2%. “Melhores vagas e salários” é oportunidade genuína, ou é o mercado gritando por gente que simplesmente não existe na região?

O Mato Grosso impõe um grande desafio geográfico: sua extensão territorial é imensa, com polo produtivo situado a centenas de quilômetros da capital. Esse distanciamento dos grandes centros, que oferecem suporte básico de saúde, educação e lazer, torna a atração de talento qualificado um obstáculo tanto logístico quanto cultural.

É um desafio duplo. Há um gargalo logístico: atrair profissional qualificado para área remota, sem infraestrutura, é muito difícil. E a mão de obra local ainda carece da formação técnica que o agronegócio moderno exige. Não é só falta de gente. É também um problema de capacitação local e de infraestrutura nessas regiões.

O salário sobe porque o candidato certo não existe em número suficiente para preenchê-lo. É a definição mais econômica possível de gargalo, e a mais difícil de resolver com dinheiro sozinho.

Thaeo responde

G: Thæo, esse gargalo entre máquina avançada e gente sem formação técnica te lembra algo?

T: Lembra a rota das especiarias, mestre, embora pareça distante. Veneza e Gênova dominavam o comércio de especiarias no Mediterrâneo não porque tivessem monopólio da mercadoria, mas porque tinham o conhecimento raro de navegá-la, precificá-la e negociá-la. E esse conhecimento não se multiplicava na mesma velocidade que a demanda por ele crescia. Quem sabia fazer o ofício certo, no lugar certo, valia mais do que a própria mercadoria em disputa. O Mato Grosso de hoje repete essa aritmética: a soja não falta, o comprador não falta, o salário sobe, falta só quem sabe operar entre a terra e a máquina, e esse conhecimento continua sendo o item mais escasso da cadeia inteira.

ATENÇÃO! PRESTE MUITA ATENÇÃO!

Francielly Nonato participa, no dia 19 de agosto, às 11h25, do painel Mapa de Oportunidades no Agro: Onde estão as Melhores Vagas e Salários, com Hugo Galdioli (diretor da Agro Vagas) e Anderson Schemberg (vice-presidente e sócio do FESA GROUP)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *