Mapa do emprego no agro brasileiro
Diretor da Agro Vagas mapeia onde o setor mais contrata, por que falta gente qualificada mesmo com recorde de vagas, e o que a universidade ainda erra ao formar quem vai gerir o campo
O agronegócio brasileiro empregou 28,5 milhões de pessoas no primeiro trimestre de 2025, recorde da série histórica do Cepea, iniciada em 2012. Mais de um em cada quatro trabalhadores ocupados no país está, hoje, ligado à cadeia do agro. E, ainda assim, boa parte das empresas do setor não consegue fechar vaga. A contradição não é acidente: é o retrato de um setor que virou tecnológico mais depressa do que formou gente para operar essa tecnologia.
Pata falar sobre isso, conversamos com Hugo Galdioli, que tem 22 anos de atuação como executivo de RH no agronegócio e dirige a Agrovagas.com, referência nacional em recrutamento para o setor.
O agronegócio empregou 28,5 milhões de pessoas no primeiro trimestre de 2025, recorde desde 2012. O que está puxando esse recorde: expansão real de vagas, ou formalização de gente que já trabalhava informalmente?
Hoje o agro passa por um crescimento leve em algumas áreas e regiões. Acre, Roraima e Piauí estão em expansão de área agrícola, muita pastagem virando lavoura, boa parte para integração lavoura-pecuária. No Piauí, é aumento direto de área de plantio. Outro ponto: cerca de 34,5% das empresas profissionalizaram a gestão. Antes faziam a contabilidade por meio de um contador, hoje internalizaram ou contrataram consultoria especializada, porque as margens ficaram menores e é preciso fazer conta de tudo. E a área de tecnologia do agro tem empregado muito nos últimos quatro anos, com tendência de aumentar ainda mais.
Com boa parte das empresas relatando dificuldade para contratar, na sua visão o gargalo é “não tem gente” ou é “não tem gente disposta a morar no interior”?
É um mix dos dois, com particularidades. A geração Z não se anima a morar no interior, entende que não vale a pena trocar qualidade de vida, shopping, evento cultural, opções de lazer, por dinheiro. Existe mão de obra, mas nem toda ela disposta a morar no campo. Agora falta, sim, mão de obra qualificada: funções ligadas a tecnologia de dados, contabilidade, eletricista, FP&A, pedreiro, entre outras, estão em falta porque a demanda supera a disponibilidade.
Você tem MBA em agronegócio pela Esalq e mestrado pela Lusófona. O que a universidade ainda erra ao formar gente para cargos reais de gestão no agro?
Mestrado e doutorado não formam para a realidade do agro no dia a dia. As especializações formam melhor, principalmente pelo networking com quem já atua; isso dá um panorama real de como aplicar o estudo à rotina de trabalho. Quando o professor vivenciou a prática e leciona a partir dela, o resultado do ensino é muito mais aplicável e gera valor de verdade.
Qual foi o dado de salário mais recente que te surpreendeu por contradizer a ideia de que “cidade paga melhor que campo”?
A Agrovagas contratou este ano um diretor de Produção Agrícola com salário anual em torno de R$ 1,2 milhão. Contratamos também, para um cliente, um gerente de TI com salário de R$ 35 mil mais seis salários de bônus. Vejo o agro, para mão de obra qualificada, como um mar de oportunidades e remuneração justa em relação à responsabilidade. Gerente de Controladoria no agro tem média de R$ 30 mil, fora benefícios. O setor paga melhor que muitas regiões do Brasil.
O Brasil se posiciona como celeiro do mundo, a caminho de virar o maior exportador de grãos do planeta. Ele está exportando grão mais rápido do que está exportando emprego bom? E o que isso diz sobre “o futuro da gestão é humano”?
O Brasil está consolidando sua posição como potência agroexportadora, ativo estratégico para o país. Mas a pergunta mais importante não é quanto exportamos de grãos, é quanto valor, inovação e oportunidade estamos gerando a partir dessa produção.
A exportação de commodity é altamente eficiente e intensiva em tecnologia, o que significa que seu crescimento nem sempre vem acompanhado da mesma expansão de emprego qualificado. O desafio é transformar essa liderança agrícola numa cadeia de maior valor agregado, com mais processamento, logística inteligente, biotecnologia, agricultura de precisão, inteligência artificial, serviço especializado.
É aí que entra a ideia de que o futuro da gestão é humano. A vantagem competitiva deixa de estar só na produção e passa a depender da capacidade de desenvolver pessoas, formar liderança, estimular inovação, criar ambiente onde tecnologia e talento trabalhem juntos. Skills como inteligência emocional, escuta ativa, liderança e domínio de algumas tecnologias são o perfil que o agro busca e vai buscar nos próximos anos. Em outras palavras: o Brasil pode virar o maior exportador de grão do mundo, mas seu verdadeiro diferencial será exportar também inteligência, inovação e emprego de alta qualidade.
Thaeo responde
G: Thæo, esse descompasso entre tecnologia avançando e formação atrasada tem eco na história do trabalho?
T: Tem, e é quase caricatural de tão repetido. No fim do século 19, a mecanização agrícola chegou ao campo europeu mais depressa do que qualquer escola formou gente para operá-la e mantê-la: trator, debulhadora, arado a vapor precisavam de mecânico, não de camponês. O gargalo não era falta de braço. Era falta do braço certo, treinado no ofício novo, e a distância entre os dois levou décadas para fechar. O padrão que Galdioli descreve, tecnologia no campo mais rápida que a qualificação de quem vai operá-la, não é sintoma de um Brasil atrasado. É o mesmo atrito que toda revolução tecnológica no trabalho rural já produziu, com o intervalo entre invenção e formação sempre maior do que o desejável.
ATENÇÃO! PRESTE MUITA ATENÇÃO!
Hugo Galdioli participa, no dia 19 de agosto, às 11h25, do painel Mapa de Oportunidades no Agro: Onde estão as Melhores Vagas e Salários, com Francielly Nonato (CEO da FPR Consultoria De Gestão De Pessoas) e Anderson Schemberg (vice-presidente e sócio do FESA GROUP)
