REGISTRO DE PONTO 0105062026
NR-1 em vigor, jovens com novos critérios e o RH entre o regulador e a realidade: o que chegou na caixa da redação esta semana PEC 6×1, employer branding, IA no recrutamento e mais: os temas que passaram pelo filtro do rhnoponto de 1 a 5 de junho
No universo de Jornada nas Estrelas, a tripulação da Enterprise tinha uma missão clara: explorar galáxias desconhecidas, buscar novas civilizações e ir aonde nenhum homem jamais foi. Bonito, mas na prática a maior parte da jornada era reunião de briefing, relatório de bordo e lidar com o capitão Kirk exagerando na confiança. Spock, como de costume, observava tudo com uma sobrancelha levantada.
Esta nova seção funciona de forma parecida.
Toda semana, um volume de releases, artigos e pesquisas chega na caixa da redação do rhnoponto. Nem tudo o que chega vira conteúdo para o site: às vezes por não estar alinhado a assuntos de gestão de pessoas, às vezes por falta de tempo do editor e seu trainee para tocar os temas, às vezes por outras razões que até a razão desconhece.
Mas vamos sanar isso! Assim como o SBT tinha “A semana do presidente”, vamos inaugurar a semana do RH. Quer dizer, o que trata do RH que baixou na nossa caixa eletrônica. Não, não vale mensagem em WhatsApp; por isso, usem sempre o e-mail. Ok, não é moderno, mas ajuda.
E o cardápio possível de ser feito com os “ingredientes” da semana de 1 a 5 de junho foi: NR-1 finalmente com dentes; a PEC 6×1 saindo da Câmara com 472 votos; jovens reescrevendo o que esperam de uma empresa; employer branding querendo se medir de verdade; um programa de reinserção no Paraná; e um bloco de curtas que não mereciam ser ignoradas.
Ah! A IA no recrutamento apareceu em pelo menos três dos materiais que chegaram, e vai merecer matéria própria: 73% dos candidatos brasileiros já usam IA para adaptar currículos, enquanto 39% dos gestores globais afirmam não ter certeza se os currículos que recebem foram gerados por algoritmo.
Spock levantaria a sobrancelha de novo.

NR-1: O REGULADOR CHEGOU. A EMPRESA, NEM SEMPRE.
Desde 26 de maio, empresas que não gerenciam riscos psicossociais, como sobrecarga, metas fora da realidade, assédio, esgotamento, podem ser autuadas e multadas pela Inspeção do Trabalho. A norma estava prevista para 2025, foi adiada um ano por pressão do setor produtivo, e chegou de vez.
O dado de fundo: em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre o ano anterior, segundo o Ministério da Previdência Social.
Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S e PhD pela Unicamp, chegou na caixa com um argumento que vai na direção contrária à maioria dos releases sobre o tema: a norma chegou depois do problema. “A NR-1 cobra uma resposta que deveria existir antes dela. O adoecimento que vemos nos dados da Previdência tem raiz em decisões de gestão ou na ausência delas”. Santos aponta uma causa que aparece com consistência nos diagnósticos organizacionais e raramente é endereçada: a ambiguidade de papel. O profissional não sabe o que se espera dele, como será avaliado, onde termina sua responsabilidade. Sem essa clareza, o trabalho vira ansiedade crônica. O relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, dá sustentação ao argumento: apenas 44% dos gestores no mundo passaram por algum treinamento formal em liderança, e definir papéis com clareza pode reduzir pela metade o desengajamento ativo das equipes.
No campo regulatório, o advogado Thayan Fernando Ferreira, especialista em direito de saúde e membro da Comissão de Direito Médico da OAB-MG, é direto sobre as consequências: ausência de gestão dos riscos psicossociais pode gerar multas, autuações e peso crescente em disputas judiciais. A comprovação documental das condições de trabalho passa a contar nos processos.
Para ver o avesso da norma (uma empresa que construiu estrutura de bem-estar antes de qualquer obrigação legal), a Foundever fornece o exemplo. Dez anos de programa interno, bikes ergométricas nos corredores para reuniões em movimento, massoterapeutas visitando as estações de trabalho diariamente (formados, em parte, por profissionais com deficiência visual), política pet friendly, rodas de conversa sobre prevenção ao suicídio. O CEO realiza reuniões nas bikes. O modelo pode ser debatido. A existência de estrutura prévia, sem NR-1 empurrando, é o dado que importa.

JOVENS: CRESCIMENTO ANTES DE FLEXIBILIDADE
Duas pesquisas chegaram esta semana com dados sobre a nova geração de profissionais, e os resultados não são o que o mercado costuma repetir.
O CIEE encomendou ao Instituto Locomotiva um levantamento com 8.800 jovens de 14 a 24 anos. Oportunidade de crescimento na empresa ficou em primeiro lugar na decisão de onde trabalhar, com 54%. Boa remuneração e benefícios vieram em segundo, com 43%. Trabalho flexível ficou em quinto lugar. Para Rodrigo Dib, superintendente Institucional do CIEE, essa geração está mais atenta, não ao propósito da empresa em si, mas se seus próprios objetivos e propósitos de vida são compatíveis com a empresa em que vai trabalhar. A empresa que vende propósito como argumento de atração e ignora crescimento real vai sentir isso na rotatividade.
A Serasa Experian trouxe um segundo recorte, sobre candidatos a estágio: 58,3% cursam áreas de tecnologia, contra 45% no mesmo período de 2025. A preferência por formatos remoto ou híbrido aparece em 69,6% das respostas. Empresas que ainda operam programas de estágio com estrutura desenhada para outro perfil de candidato vão notar a diferença na inscrição.
PEC 6×1: APROVADA NA CÂMARA COM 472 VOTOS
Na quarta-feira, 27 de maio, a Câmara aprovou em primeiro turno a PEC que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais e exige duas folgas semanais, sendo uma preferencialmente aos domingos. Foram 472 votos a favor e 22 contrários. O texto ainda passa pelo Senado.
Diogo Montalvão, sócio do MSL Advogados e especialista em direito tributário e trabalhista, publicou artigo contra a aprovação. Seu argumento central: a escala 6×1 não existe como tal na legislação, o que existe é a jornada de 44 horas semanais, que a PEC reduz para 40. Fora das novas regras ficam trabalhadores com diploma de nível superior que ganham a partir de 2,5 vezes o teto do INSS, cerca de R$ 21,1 mil. “A medida não é universal como se vende”, afirma. Montalvão também aponta que convenções coletivas incompatíveis perdem validade automaticamente após 60 dias, retirando, na sua leitura, poder de negociação de sindicatos e empregadores.
EMPLOYER BRANDING: O MERCADO QUER SE MEDIR
A Trivium Consulting lançou, com apoio da ABRH Brasil, a pesquisa Marca Empregadora Brasil 2026. O levantamento, aberto até 10 de julho, mapeia como as empresas brasileiras estão estruturando estratégias de Employer Branding, do EVP à mensuração de resultados. Empresas que participarem de forma identificada recebem relatório comparativo com os dados consolidados. Leyla Nascimento, presidente da ABRH Brasil comenta que a iniciativa busca ampliar o debate sobre novas metodologias de gestão de pessoas e incentivar empresas a revisarem modelos tradicionais de atração, retenção e desenvolvimento. A proposta é que o levantamento se torne anual.

ETERNIT: PROGRAMA RECONSTRUIR
A Eternit inicia neste mês o Programa Reconstruir na unidade de Colombo, no Paraná: 12 pessoas privadas de liberdade, selecionadas pela cadeia pública local com base em critérios de conduta, atuarão em atividades de apoio à operação industrial. A parceria é com o DEPPEN-PR, em conformidade com a Lei de Execução Penal. Há capacitação técnica, treinamento de segurança do trabalho e remuneração conforme a legislação vigente. A empresa é signatária do Pacto Global da ONU e enquadra o programa no ODS 8. O superintendente industrial José Augusto Stier menciona que a baixa disponibilidade de mão de obra na região também pesou na decisão de estruturar a iniciativa, o que não diminui o mérito do programa, mas completa o retrato.
CURTAS
- Mais de um milhão de pequenos negócios foram formalizados no Brasil nos dois primeiros meses de 2026, crescimento de 3% sobre o mesmo período de 2025, segundo dados da Receita Federal compilados pelo Sebrae. MEIs, microempresas e EPPs representam 97,3% das novas empresas.
- A Omint Saúde chegou na caixa com o argumento de que seguro de vida em grupo é ferramenta de gestão de pessoas para pequenas empresas, especialmente num mercado que disputa talentos com organizações maiores. O produto é deles. Os dados de contexto são do mercado.
- Pesquisa da SalaryFits com a Serasa Experian, de 2025: 66% dos profissionais relatam aumento de estresse por questões financeiras. Entre eles, 37% têm dificuldade de concentração no trabalho e 33% registram queda de produtividade. Apresenteísmo não é só cansaço.
- A Serasa Experian abriu mais de 60 vagas para o programa de estágio 2026, com bolsa de R$ 2.150 e inscrições até 16 de junho. O dado que veio junto vale mais do que a vaga: 58,3% dos candidatos à base da empresa cursam áreas de tecnologia. Ano passado era 45%.

A VOZ DE THAEO
Thæobaldvs Paschōalvs emerge do arquivo de bordo com uma sobrancelha levantada, a outra está enterrada numa cópia do Domesday Book de 1086.
Registrei, nesta semana do calendário gregoriano, algo que os escribas do século 12 também conheciam bem: a norma chega sempre depois do problema. O rei Henrique II instituiu seus tribunais de common law alguns anos depois de a arbitrariedade feudal já ter produzido estragos suficientes para encher três catedrais de reclamações. A NR-1 de 2026 tem o mesmo tempero: o adoecimento já ocorreu, os dados da Previdência já estão nos registros, e agora vem o documento oficial para dizer que isso não deveria ter acontecido.
Quanto à redução da jornada de 44 para 40 horas semanais: no século 14, os servos ingleses sobreviventes da Peste Negra descobriram que a escassez de mão de obra lhes dava poder de negociação inédito. Pediram menos horas, mais terra e pagamento em moeda. Os lordes resistiram. O Parlamento aprovou o Statute of Laborers em 1351, tentando congelar salários e jornadas no nível pré-praga. Não funcionou.
A história registra que estruturas de trabalho mudam. A velocidade com que mudam é uma negociação, entre o regulador, o empregador e quem trabalha. O Senado brasileiro terá a palavra em breve.
Thæobaldvs Paschōalvs, cronista itinerante, 5 de junho de 2026
