Vai ao CONARH Saúde? Prepare-se para abandonar os modismos
O que o evento precisa ensinar aos líderes que ainda enxugam gelo
Amanhã, dia 31 de março, a elite da gestão de pessoas se reúne em São Paulo para o CONARH Saúde. O desafio que os espera não é descobrir uma nova pílula mágica para a produtividade, mas decidir se o mundo corporativo continuará pagando caro para remediar mal ou se finalmente vai tratar a raiz do adoecimento. Para aquecer os motores desse debate inadiável, o RH no Ponto publicou uma entrevista brutalmente honesta em três partes com Luiz Edmundo Rosa, diretor de saúde e bem-estar da ABRH Brasil e coordenador do congresso.
O diagnóstico que ele nos entregou nas conversas é um soco no estômago da ineficiência gerencial. Descobrimos que apenas 15% das empresas brasileiras conseguem gerir seus custos de saúde com excelência, limitando os reajustes à casa da inflação. A esmagadora maioria amarga contas impagáveis simplesmente porque delega a segunda maior despesa da companhia para profissionais sem poder de influência. O desperdício é escandaloso. Luiz Edmundo revelou que 23,5% das consultas ocorrem nos prontos-socorros, custando até doze vezes mais para a organização, quando 95% desses casos poderiam ser resolvidos com uma triagem eficiente de telemedicina.
Mas a fatura mais alta não chega da rede hospitalar, ela chega do silêncio e da exaustão. O Brasil registrou assustadores 472 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, um salto de 67% em apenas doze meses. E a raiz dessa tragédia não reside apenas no volume de trabalho, mas na liderança tóxica e na insistência cega em modelos punitivos. O retorno compulsório ao modelo presencial, por exemplo, frequentemente ignora o colapso da mobilidade urbana. Obrigar um profissional a perder até cinco horas do seu dia esmagado no transporte público apenas para sentar diante de um computador no escritório é, nas palavras da nossa fonte, um retrocesso que destrói não apenas a mente, mas a capacidade de inovação das equipes.
Thaeobaldvs Paschoalvs, ajeitando seus pergaminhos aqui no canto da redação, dá um de seus sorrisos irônicos ao observar esses números. Ele diria que os senhores feudais modernos cometem a mesma tolice dos velhos reis medievais: constroem fossos imensos e caros para proteger as moedas do castelo, mas deixam os camponeses definharem de exaustão e peste na beira da estrada. Depois, assustam-se quando não há quem colha o trigo e tentam resolver o desastre distribuindo amuletos mágicos em vez de garantirem o descanso e o teto.
Esses amuletos modernos, aliás, atendem pelo nome de tecnologia. O uso de relógios inteligentes, que 63% das empresas planejam adotar segundo a Deloitte, e a inserção da Inteligência Artificial prometem revolucionar a autogestão do bem-estar. Contudo, a máquina não substitui a falta de confiança. Se a organização não respeitar a privacidade dos dados e não construir um ambiente de segurança psicológica, a tecnologia vira apenas uma ferramenta de vigilância corporativa. A Inteligência Artificial pode automatizar as triagens, mas a leitura genuína das emoções, dos ressentimentos e das dores da força de trabalho continua sendo um ofício teimosamente humano.
Se você vai ao CONARH Saúde amanhã, vá preparado para abandonar os modismos. A gestão da vida humana nas organizações deixou de ser uma pauta operacional do RH para se tornar a principal questão de sustentabilidade dos conselhos de administração.
