fora da curva

Dezoito candidatos

ou: como se preenche uma vaga que ninguém deveria querer

(Exécution de Marie-Antoinette d’Autriche, reine de France, le 16 octobre 1793, musée de la révolution française (Vizille). Je suis, moi, Thæobaldvs, dans le coin droit, derrière le jeune homme à la perruque extravagante)

Estou em Paris há algumas semanas, o que, para um homem que atravessou os séculos a pé, representa um intervalo razoável de observação. Tenho visto coisas. A cidade cheira a progresso e esgoto, em proporções que o visitante aprende rapidamente a não hierarquizar. Acho que vou naquela loja comprar um perfume.

Ontem, porém, deparei-me com um episódio que merece registro. Henri-Clément Sanson, último de uma dinastia que serve Paris desde 1688 (são sete gerações, uma guilhotina, e uma lista de clientes que inclui Luís XVI, Maria Antonieta, Robespierre e Danton, entre outros nomes que a posteridade tratou de imortalizar), recebeu pelo correio sua exoneração do cargo de Executor das Altas Obras da cidade.

O próprio homem narrou o momento com uma dignidade que, devo admitir, me surpreendeu. Permito-me citá-lo, pois a prosa é melhor que o resumo:

“Reconheci de imediato aquele envelope volumoso e aquele largo selo cujo aspecto sempre me fizera estremecer de pavor e dor; tomei tremendo a mensagem e, esperando encontrar nela uma daquelas ordens funestas às quais minha terrível incumbência me impunha o dever de obedecer, subi penosamente os degraus da escadaria do meu hotel. Chegado ao meu gabinete, rompi com desespero aquele dobro fatal que devia encerrar alguma missão de morte a cumprir; abri a carta — era a minha exoneração.”

Nota-se o vocabulário do homem: desespero ao abrir o envelope. Alívio ao descobrir o conteúdo. Numa profissão comum, seria o inverso. Mas a posição de Executor das Altas Obras não é, exatamente, uma profissão comum.

Para os não iniciados nos protocolos da função: o cargo existia desde o século 13, era remunerado com salário fixo acrescido de indenizações por execução, como aluguel de cavalos, carroças, cordas e demais insumos do ofício, e incluía moradia fornecida pela municipalidade. No auge do Terror, o cidadão-carrasco Sanson (o bisavô deste) era o funcionário mais bem pago da República, com 13.000 libras anuais. Havia, portanto, o que hoje se chamaria de pacote de benefícios.

As hard skills exigidas eram objetivas: precisão manual, pontualidade, resistência física e domínio técnico do equipamento, sendo que o próprio Charles-Henri Sanson contribuiu para o projeto da guilhotina, o que configura, na linguagem corrente, ownership sobre o processo. 

As soft skills eram mais sutis: discrição absoluta, equilíbrio emocional e a capacidade (documentada, não presumida) de pedir perdão ao condenado antes de executá-lo. Inteligência emocional, dir-se-ia hoje. Com aplicação imediata.

O processo de sucessão, por sua vez, dispensava etapas seletivas. A vaga era hereditária. O primeiro Sanson a ocupá-la, em 1675, entrou na profissão ao casar-se com a filha do carrasco de Rouen. E ele descobriu, tarde demais, qual era a ocupação do sogro. O que nos ensina que due diligence prévia ao casamento é uma prática com utilidade comprovada ao longo dos séculos.

Uma vez dentro, não havia saída. A infâmia social do cargo impedia qualquer reconversão. O networking era endogâmico por necessidade: os Sanson casavam com filhos de outros carrascos, fossores e profissões assemelhadas. O plano de carreira era vertical: um filho substituía pai, geração após geração, sem concurso, sem entrevista, sem teste de perfil comportamental.

Até 18 de março de 1847.

Henri-Clément Sanson, o último da linhagem, lavou as mãos solenemente, gesto que não escapou ao bom observador: Pilatos lavou as suas para se isentar de uma morte; Sanson lavou as suas para se purificar de todas as mortes que foi obrigado a cometer. Depois foi ao aposento da mãe entregar-lhe a carta. A velha senhora, que já mal se levantava da poltrona, leu o documento e disse ao filho, com a serenidade de quem aguarda essa notícia há décadas:

“Bendito seja este dia, meu filho. Vós sois o último de vossa raça. O céu só vos deu filhas, sempre o agradeci.”

A mãe sabia o que o filho ainda estava assimilando: que o encerramento de um ciclo pode ser, dependendo da jornada, a forma mais alta de misericórdia.

No dia seguinte, dezoito candidatos disputavam a vaga. Seus requerimentos, cobertos das mais altas recomendações ministeriais, circulavam pelas antecâmaras do poder.

Dezoito.

O próprio Sanson registrou, com uma economia de palavras que revela alguém que finalmente aprendeu a não desperdiçar energia: “Vê-se que não fui difícil de substituir.”

Permito-me uma observação, como homem que atravessou muitos séculos e viu muitas filas diante de muitas portas: não eram dezoito insensatos. Eram dezoito pessoas que enxergavam no cargo o que ele sempre foi: uma função pública com remuneração, moradia e estabilidade. Viam o cargo. Não viam o homem que acabara de lavar as mãos.

Isso não é peculiaridade do século 19. É a natureza das instituições: elas sobrevivem às pessoas que as habitam. O sistema não para. A guilhotina continua em pé. Alguém sempre assina embaixo.

O que me intriga, passados alguns séculos de observação, não é a fila dos dezoito. É a mãe na poltrona. É o filho que sobe as escadas tremendo, esperando uma ordem de morte, e encontra a própria liberdade dentro do envelope.

É o fato de que, quando o ciclo finalmente se encerrou, ninguém celebrou com fanfarra. Houve apenas um homem sozinho, uma bacia de água, e mãos que não precisavam mais de perdão.

Os dezoito candidatos, esses, não sabiam o que estavam pedindo.

Mas raramente sabem.

Devo confessar, a esta altura, que também me apresentei. Entreguei meu placet na antecâmara do Ministério da Justiça na manhã seguinte, devidamente redigido em latim eclesiástico, por princípio, com referências de dom abades e um cardeal que já não atende cartas. Minha experiência com o ofício é, afinal, considerável: acompanhei execuções em seis países, três séculos e dois regimes que prefiro não nomear. Tenho, como se diz hoje, fit cultural com o cargo.

Não fui chamado para entrevista.

O funcionário que recebeu minha candidatura leu a data de nascimento, olhou para mim, olhou novamente para o papel, e disse, com a delicadeza típica do serviço público francês, que o Ministério não estava, no momento, recrutando perfis com mais de quinhentos anos de experiência, pois isso “poderia criar um desequilíbrio na dinâmica da equipe”.

Agradeci e me retirei. Lá fora, a fila dos dezoito ainda aguardava.

Alguns tinham o olhar faminto de quem enxerga oportunidade onde há abismo. Outros pareciam simplesmente não ter lido o anúncio com atenção.

Desconfio que esse segundo grupo compõe a maioria dos processos seletivos em qualquer século.

Thæobaldvs Paschōalvs escreve desde o século 13, com intervalos. Ou desde antes, ninguém sabe ao certo. Esta crônica foi redigida em Paris, na tarde de 18 de março de 1847, com base nos livros Sept générations d’exécuteurs, 1688-1847 ; mémoires des Sanson, e na observação direta da fila.
Thaeo pede, encarecidamente, que coloquemos as primeiras págians desta obra. Para minguém pensar que tiramos tudo da nossa cabeça…

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