a ponto

O trabalhador por inteiro

Como questões ligadas ao sono e à alimentação podem afetar a saúde mental e se transformarem em pauta obrigatória das empresas

Durante décadas, a gestão de saúde no ambiente corporativo se limitou a medir o que era visível e mensurável: ruído, calor, agentes químicos, risco de acidente. O trabalhador era protegido de joelhos para baixo. O que acontecia dentro da cabeça, no estômago mal alimentado às 13h de uma segunda-feira ou nas madrugadas insones antes da entrega de uma meta, ficava de fora da conta.

Esse tempo acabou. E não por generosidade das empresas, mas por força de lei, de dados e de um conjunto de evidências que se tornaram impossíveis de ignorar.

A lei que chegou para ficar

A nova redação da NR-01 representa a mais profunda reforma da legislação de Segurança e Saúde no Trabalho desde 1978. O que antes era documento de gaveta ganhou vida e dentes. A norma introduz o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e institui o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Para a advogada e especialista em Direito do Trabalho Vanessa Lopes Baroncelli dos Santos, o documento mudou de natureza: “A norma agora exige que o compliance seja orgânico, focado na identificação antecipada e no controle ininterrupto de perigos. Não basta mais possuir um laudo guardado em uma pasta; requer-se a prova da gestão ativa.”

A mudança mais sensível está na ampliação do espectro de risco. Além dos perigos físicos tradicionais, a NR-01 impõe às empresas o dever de identificar e controlar riscos psicossociais: carga mental excessiva, gestão por pressão, assédio moral e ameaças veladas de demissão. Burnout deixa de ser fatalidade individual e passa a ser interpretado como falha de gestão. Vale refletir sobre isso. E muito.

A vigência plena com caráter punitivo vem em maio agora, mas Vanessa alerta que esperar o prazo é estratégia temerária. Até porque estamos às vésperas daquele mês. O Judiciário já utiliza a ausência de mapeamento de riscos psicossociais como presunção de culpa em casos de depressão e ansiedade ocupacional.

Dormir também é trabalho

Enquanto a NR-01 institucionaliza a saúde mental como responsabilidade das empresas, os números sobre sono revelam a dimensão do problema que as organizações herdam do descuido cotidiano. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 45% da população mundial apresenta algum tipo de distúrbio do sono. Adultos precisam, em média, entre sete e nove horas de descanso por noite para manter equilíbrio físico e mental.

O médico infectologista Luiz Escada chama de “performance invisível” o conjunto de hábitos que acontecem fora dos momentos de maior esforço e que influenciam diretamente o desempenho durante o dia. “Uma noite bem dormida está associada à melhora da capacidade cognitiva, da tomada de decisões, da criatividade e da disposição física. Por outro lado, noites mal dormidas podem gerar fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e redução da produtividade”, explica.

A conta é simples e cara: um colaborador privado de sono regular não apresenta apenas queda de rendimento. Ele está mais exposto a erros, mais propenso a conflitos e mais próximo do adoecimento que a NR-01 agora exige que as empresas previnam.

O que se come também importa

Outro ponto desse mosaico vem da alimentação. Pesquisa global realizada pela Sodexo em seis países, com mais de 5 mil pessoas, sendo mais de 800 no Brasil, mapeou uma mudança relevante: 78% dos trabalhadores brasileiros consideram alimentos ultraprocessados um risco à saúde, percentual acima da média global de 71%.

Para 47% dos respondentes no Brasil, alimentação saudável está diretamente ligada a produtos frescos; 33% associam o conceito a alimentos sustentáveis. A origem do que se come e o impacto ambiental da produção entram na equação. Cinthia Lira, diretora de marketing da Sodexo Brasil, traduz o que os dados pedem das empresas: “Precisamos sempre buscar entender e atender as necessidades de nossos consumidores ao longo de toda a jornada de trabalho”, aponta.

A pesquisa também identifica diferenças geracionais que importam para a gestão de benefícios. Jovens de 18 a 34 anos associam saúde a ingredientes frescos e sazonais. A faixa dos 35 a 44 anos prioriza opções com baixo teor de sódio e sem aditivos. Já os profissionais de 45 a 54 anos valorizam pratos com gostinho de comida caseira, buscando conforto e tradição à mesa.

O custo de não fazer nada

Sono ruim, alimentação precária e estresse psicossocial não são três problemas separados. São três vetores do mesmo fenômeno: o adoecimento do trabalhador que a empresa agora tem obrigação legal de prevenir. Transtornos mentais e comportamentais já figuram entre as principais causas de afastamentos previdenciários. O INSS ampliou o número de ações regressivas contra empregadores que descumprem normas de gestão de riscos.

A NR-01 não inventou o problema. Ela apenas tornou impossível ignorá-lo.

Cuidar do trabalhador inteiro, do que dorme ao que come e ao que sente, deixou de ser pauta de departamento de bem-estar e virou questão de sobrevivência corporativa. Quem entender isso antes de maio de 2026 sai na frente. Quem não entender, paga a conta no Judiciário.

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