fora da curva

Eu estive lá: a Idade Média não era o que vocês pensam

Thæobaldvs Paschōalvs, cronista medieval e viajante do tempo e do espaço, faz uma breve pausa no século 21 para corrigir algumas distorções históricas. E uma ou duas corporativas

Permiti-me, neste mês em que se comemora o dia internacional da mulher, interromper brevemente minha pesquisa sobre as acusações de heresia no Languedoc para dirigir-me aos leitores desta estimada publicação. O motivo: a persistência, entre os modernos, de um equívoco histórico de proporções consideráveis.

Vocês, homens e mulheres do século 21, costumam imaginar a Idade Média como um período de trevas uniformes, em que as mulheres eram confinadas à domesticidade, à submissão e, eventualmente, a algum tipo de torreão. Compreendo. É uma narrativa conveniente. Tem castelos, tem drama, tem homens de armadura. O problema é que é, em grande parte, tem muita falsa.

Eu estive lá. Atravessei feiras, mercados, guildas e scriptorii de Colônia a Paris, de Salerno a Londres. E o que vi, com estes meus olhos medievais, foi consideravelmente mais complexo do que o enredo que chegou até vocês.

A casa era a empresa e quem a gerenciava?

Começo pelo fundamento: na Alta e Plena Idade Média, a distinção entre espaço de trabalho e espaço de vida simplesmente não existia. A casa era, simultaneamente, a fábrica, a loja, o laboratório e o centro de gestão. E quem dirigia esse complexo operacional era, na maioria esmagadora dos casos, a mulher.

A camponesa gerenciava o hortus, o jardim anexo à casa, com uma diversificação de portfólio que faria inveja a qualquer gestor moderno: ervas para medicina, legumes para subsistência, plantas tintoriais para o mercado de tecidos. Enquanto os campos abertos produziam cereais para o senhor feudal, o hortus produzia capital. Registros de feiras na Inglaterra do século 13 documentam que a renda gerada pela venda de laticínios femininos, queijos e manteiga produzidos com tecnologia exclusivamente feminina, era, frequentemente, o único dinheiro vivo que entrava na família camponesa. O único capital líquido. Em uma economia predominantemente de subsistência, isso não era detalhe. Era a diferença entre sobreviver ao inverno ou não.

E a cerveja? Até o século 14, a grande maioria dos produtores de cerveja na Europa Setentrional eram mulheres. Chamavam-se Brewsters ou Ale-wives. Dominavam os processos de fermentação sem lúpulo, que viria depois, vendiam o excedente em tavernas domésticas e geravam renda independente. A historiadora Judith M. Bennett documentou esse universo com precisão em sua obra Ale, Beer, and Brewsters in England: Women’s Work in a Changing World, 1300-1600 (Oxford Academic). O declínio das Brewsters não foi uma consequência natural da história. Foi uma consequência do capital. À medida que a produção de cerveja se industrializou e exigiu caldeirões maiores, as pequenas produtoras foram excluídas. É o mesmo mecanismo que, séculos depois, retiraria mulheres de outras profissões que elas haviam inventado. 

O que o Renascimento preferia que vocês esquecessem

Permito-me agora um pequeno escândalo historiográfico.

Nas cidades medievais, existia um estatuto jurídico chamado Femme Sole. Permitia à mulher casada agir como entidade comercial independente: ela podia processar e ser processada, tomar empréstimos, contratar aprendizes, firmar contratos, tudo sem a assinatura do marido. Era praticado em Londres, Paris e nas cidades da Liga Hanseática. Era, em linguagem moderna, uma espécie de CNPJ feminino embutido na legislação costumeira.

Do registro de Étienne Boileau para Paris, o célebre Livre des Métiers de 1268, extraio os números: de 100 guildas parisienses, 5 eram exclusivamente femininas, fiandeiras de seda, bordadeiras de fios de ouro. Mais de 80 aceitavam mulheres com plenos direitos de Mestras. Em Colônia, na Alemanha, a guilda da seda era governada inteiramente por mulheres. Elas ditavam as normas de qualidade, os preços e os salários.

Paro aqui para deixar isso assentar: mulheres ditavam salários e normas de qualidade em Colônia no século 13. Agora leio nos textos desta publicação que, no Brasil de 2025, apenas 35% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres, segundo dados da consultoria Diversitera, e que elas ainda ganham, em média, 19,4% a menos que os homens, conforme o 1º Relatório Nacional de Transparência Salarial de 2024. Se minha aritmética não falha, isso sugere que, em alguns indicadores específicos, o século 21 ainda não alcançou o século 13. Registro o fato sem julgamento. Apenas com alguma perplexidade.

A medicina era delas. Até que deixou de ser

Trato agora de um capítulo que me é particularmente próximo, pois passei algum tempo em Salerno na companhia dos médicos e médicas daquela escola notável. Sim, médicas. Trótula de Salerno, magistra reconhecida do século 11, escreveu os textos de ginecologia que serviram como manuais padrão por 400 anos. O título De passionibus mulierum circulou por toda a Europa como referência clínica. Nos conventos, mulheres produziam manuscritos com conhecimentos de química para preparação de pigmentos, de caligrafia e de botânica. Hildegarda de Bingen não era apenas uma mística: era gestora de uma oficina de produção de livros e pesquisadora sistemática de plantas e física natural.

A historiadora Monica Green liderou o resgate acadêmico dessa atuação técnica feminina. E por que foi necessário resgatar? Porque o Renascimento, que vocês aprenderam a admirar como o alvorecer da razão, foi, para as mulheres, um dos períodos mais regressivos da história europeia. O processo de perseguição às chamadas bruxas foi, em parte, um mecanismo de eliminação da concorrência feminina não universitária no campo da medicina e da farmácia. Elas foram expulsas de profissões que haviam construído. Isso tem um nome. Não é feitiçaria. É política.

A peste negra e a única vez em que a catástrofe produziu equidade

Não é frequente que eu cite uma epidemia como momento de avanço. Mas os dados são os dados.

Antes de 1348, havia excedente populacional e os salários femininos em tarefas braçais eram cerca de 50% menores que os masculinos. Pós-peste negra, a morte em massa gerou um vácuo de mão de obra sem precedente. O resultado foi um experimento involuntário de equidade salarial: em algumas regiões da Inglaterra, a paridade entre homens e mulheres foi quase atingida no final do século 14. Mulheres foram contratadas para trabalhos pesados na construção civil e na agricultura com pagamentos inéditos.

Não recomendo este método como política de RH. Mas o episódio revela algo que os dados modernos confirmam: a desigualdade salarial não é uma lei natural. É uma construção. Que pode ser desfeita, idealmente, sem a necessidade de uma pandemia de proporções bíblicas.

Os números citados em matérias deste veículo não físico de conteúdosão, a esse respeito, reveladores: o estudo do FMI em 34 países europeus mostra que organizações com maior diversidade de gênero em cargos de liderança registram aumento de 8 a 13 pontos percentuais na rentabilidade dos ativos. Em Colônia, no século 13, elas governavam a guilda da seda. No século 21, aumentam o ROA em dois dígitos. A questão, como sempre, não é capacidade. É acesso.

O grande retrocesso, ou o que o Renascimento tem a ver com isso?

Devo, por honestidade intelectual, encerrar com o capítulo mais incômodo.

O advento da Idade Moderna, séculos 16 e 17, trouxe aquilo que os historiadores chamariam de paradoxo do Renascimento. A redescoberta do Direito Romano substituiu as leis costumeiras medievais, que eram mais flexíveis, por códigos que enfatizavam a submissão feminina. As guildas, à medida que se tornaram mais ricas e politicamente influentes, criaram regras proibindo viúvas de continuarem os negócios dos maridos, um direito que era garantido na Idade Média. A domesticação da mulher não foi um estado original da história, mas sim uma invenção moderna.

Leio, nos textos desta publicação, que a pesquisa Myths of Women in Leadership, da Hogan Assessments, mostra que as diferenças entre homens e mulheres praticamente desaparecem no nível executivo. Que o problema não está na capacidade: está no caminho até o topo. Que o viés está em quem avalia e promove, não em quem é avaliado. Que recuar, muitas vezes, é uma decisão estratégica diante de ambientes com critérios de avanço pouco claros, não falta de aspiração.

Tudo isso eu poderia ter escrito no século 13. Porque já era assim. E, ao que parece, continua sendo.

Uma nota final, de cronista para gestores

Não sou ingênuo. Sei que a Idade Média tinha seus próprios horrores, sua própria violência, suas próprias hierarquias brutais. Não estou propondo que vocês adotem o feudalismo como modelo de gestão. Ou o Tribunal de Santo Ofício como banca de quem deve ou não ficar na empresa – ou ser desligado (termo este que, na Inquisição, era conjugado na frase “desligado da vida na Terra”). Tenho clareza de que o presente, com todos os seus problemas, oferece possibilidades que o meu século não imaginava.

O que estou dizendo é mais simples: a ideia de que a exclusão das mulheres do trabalho qualificado, da liderança e da autonomia econômica não foi uma condição natural, orgânica, inevitável da ordem humana. Ela foi construída, deliberada e, em momentos específicos, desfeita.

Em Colônia, no século 13, elas governavam a guilda da seda sem que ninguém precisasse fazer um comunicado interno sobre diversidade e inclusão.

O progresso, como eu sei melhor do que ninguém, não é linear. Mas também não é opcional.

Nota da redação: Thæobaldvs Paschōalvs (Thaeo) é um cronista medieval que, por razões que a física quântica ainda não conseguiu explicar adequadamente, acessa com certa regularidade os arquivos do RH no Ponto. Talvez seja o problema de a senha 1234 para tudo. Os editores não se responsabilizam por seu vocabulário, por suas referências anacrônicas nem por seu humor (quando houver, há divergências).

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