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ABRH 60 anos: um futuro já no passado?

Do papel carbono aos algoritmos ou como a ABRH Brasil atravessou seis décadas de transformações

Na primeira parte desta celebração dos 60 anos da ABRH-Brasil, contamos como 99 profissionais se reuniram num instituto agronômico em 1965 para fundar a associação. Agora, vamos percorrer as décadas seguintes, quando o RH brasileiro deixou de ser apenas “departamento de pessoal” e se transformou em área estratégica. Preste atenção no parágrafo a seguir:

“Para o desenvolvimento de fatores como as qualificações dos colaboradores, o desenvolvimento dos funcionários, política salarial ajustada e cumprimento das obrigações legais, entre outros, é necessário um conjunto de informações que passam a ser válidas desde que elaboradas de forma sistêmica e com o auxílio do processamento eletrônico de dados, integrando-os num Sistema de Informações de Pessoal (SIP), com inúmeras vantagens – rapidez, precisão, eliminação de fontes múltiplas de informações.”           

Quem lê esse trecho pode imaginar que se trata de algum artigo recente sobre transformação digital no RH, certo? Errado. O texto foi publicado em 1976 (fazendo as contas, embora eu seja de humanas, isso dá quase 50 anos atrás) na revista RI – Recursos Humanos na Empresa, da então Associação Brasileira de Administração de Pessoal. O autor era Theunis Marinho, na época gerente de administração de pessoal da Bayer do Brasil e coordenador de um curso sobre sistemas de informação de pessoal ministrado na Apap. Theunis, anos depois, foi minha principal entrevista para uma matéria sobre os RHs “puro sangue” que chegaram à presidência. Um fato invejável!

Mas voltando à revista. Sim, já em 1976 falava-se em “processamento eletrônico de dados” aplicado ao RH. E isso nos diz muito sobre a ABRH e sobre a própria evolução da gestão de pessoas no Brasil: sempre houve, aqui, gente pensando o futuro da área, antecipando tendências, experimentando novos caminhos. Mesmo quando esses caminhos ainda eram nebulosos e a tecnologia, rudimentar.

Teorema de Theunis

A preocupação da ABRH com registrar, refletir e comunicar as transformações da área vem desde o início. Em 1966 (mais uma conta: apenas um ano após a fundação), a entidade lançou o Informativo ABAPe, com o objetivo de divulgar entrevistas, informações técnicas e conteúdo de caráter profissional. A publicação teve dez edições nessa primeira versão.

Em 1972, veio, então, a revista RI – Recursos Humanos na Empresa, que se tornaria um marco na documentação da evolução do RH brasileiro. Era ali que profissionais da área dividiam suas experiências, discutiam metodologias, debatiam os rumos da profissão. E era ali, também, que ficava claro como a área se transformava rapidamente.

No artigo de Marinho sobre sistemas de informação, por exemplo, ele argumentava que as áreas de relações industriais vinham se empenhando no desenvolvimento de novas técnicas para responder a circunstâncias como: desenvolvimento industrial acelerado, encarecimento de mão de obra (principalmente a especializada), efeitos de leis e regulamentos, exigência dos empregados em relação aos trabalhos oferecidos pelas empresas, e rápidas modificações dos conhecimentos profissionais.

Soa familiar? Pois é. Mude “desenvolvimento industrial acelerado” por “transformação digital” e você tem praticamente o mesmo diagnóstico que faríamos hoje, seis décadas depois. A velocidade mudou. A essência dos desafios, nem tanto.

Essas publicações foram o embrião da revista Melhor – Gestão de Pessoas, da qual este escriba fez parte por duas décadas, boa parte delas como editor. A Melhor nasceu como Ser Humano nos anos 1990 e foi um dos primeiros veículos a abordar, de forma consistente, a necessidade de atuação estratégica por parte do RH, quando muita gente ainda achava que isso era conversa para boi dormir.

Conjunto da obra: 21 anos atrás (e uns 21 quilos a menos), Luiz Carlos Campos, Thaís Gebrim e este escriba na entrega do Prêmio Ser Humano …
O prêmio que virou referência

Em 1993, a ABRH-Brasil instituiu o Prêmio Ser Humano Oswaldo Checchia, que se consolidou como instrumento de valorização das melhores iniciativas dedicadas ao desenvolvimento das pessoas dentro e fora das organizações. O nome homenageia Oswaldo Checchia, um dos fundadores da ABRH Brasil e grande articulador do reconhecimento da área como estratégica nas organizações.

O prêmio não é apenas uma celebração. É um termômetro das transformações do RH brasileiro. Ao longo das décadas, as categorias premiadas foram se adaptando às novas realidades da gestão de pessoas: da qualidade de vida ao trabalho remoto, da diversidade e inclusão aos programas de saúde mental, da liderança feminina às iniciativas de ESG. O Prêmio Ser Humano conta, à sua maneira, a história do que foi importante ou do que deveria ter sido importante no RH brasileiro a cada momento. Durante o CONARH/Congresso Mundial de RH em 2004, este missivista que vos escreve ganhou esse prêmio das mãos do então presidente da ABRH Luiz Carlos Cerreia Campos pos e da jornalista Thaís Gebrim. Prêmio Ser Humano pelo conjunto da minha obra (na época, havia uma categoria para imprensa). Confesso que na volta do Rio de Janeiro para São Paulo, durante o voo, pensei que se algo ruim acontecesse, ao menos esse tipo de reconhecimento já havia sido concedido a mim, rs…

Da Conap ao CONARH: a evolução de um evento

Mas se há algo que sintetiza a trajetória da ABRH Brasil, esse algo é o CONARH. Nascido como Conap (Convenção Nacional de Administradores de Pessoal) em 1965, o evento foi crescendo, se transformando e ganhando relevância até se tornar o maior congresso de gestão de pessoas da América Latina e segundo do mundo.

A história do evento se confunde com a história da própria ABRH. Foi durante a 1ª Conap, em Campinas, que a associação foi fundada. A partir de 1966, na segunda edição no Rio de Janeiro, a Abape passou a ser sua promotora oficial. Durante 30 anos, o evento teve caráter itinerante e bienal, rodando o Brasil: Campinas, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Blumenau, Salvador, Recife, Porto Alegre, Brasília, São Paulo, Foz do Iguaçu, Fortaleza. Em 1995, tornou-se anual e se estabeleceu em São Paulo.

As mudanças de nome acompanharam as transformações da área e da própria entidade. Em 1973, a Conap ganhou novo status e passou a se chamar Congresso Nacional de Administração de Pessoal. Em 1981, a Abape mudou seu nome para Associação Brasileira de Recursos Humanos. Em 1983, seguindo a reboque, o evento passou a se chamar Congresso Nacional de Administração de Recursos Humanos, originando a sigla CONARH, que pegaria de vez.

Em 2001, acompanhando as tendências mundiais (e a necessidade de superar a frieza tecnocrática da expressão “recursos humanos”), o nome mudou mais uma vez para Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas. Mas a sigla CONARH foi mantida, porque já havia se consolidado como marca respeitada dentro e fora do Brasil.

A transição democrática e o novo RH

José Antonio Maranho, que coordenou a organização da primeira Conap e depois foi eleito presidente da Abape em 1969, testemunhou de perto as transformações radicais da área. Para ele, as mudanças no papel do RH encontram explicação direta no cenário político do país.

“Antigamente, o administrador de pessoal era subordinado ao contador da empresa e agia com mão de ferro. Tinha uma atuação cartorial, discriminatória e ditatorial. Hoje, o principal executivo de RH está próximo da alta cúpula. Sua área passou a ter mais importância junto à empresa, que, por sua vez, começou a dar mais valor a esse segmento”, afirmava Maranho.

A fundação do Conap e da Abape se deu em plena ascensão do governo militar. Muitos profissionais se desenvolveram nesse período definindo práticas de RH sem ouvir – ou sem poder ouvir – o “outro lado”. No final da década de 1970, com o regime militar perdendo força, as mudanças políticas rumo à democracia começaram a se refletir no papel do RH.

“As greves do ABC paulista foram fundamentais nesse movimento”, contava Maranho. “As empresas começaram a perceber que havia um outro lado que precisava ser ouvido e, claro, RH passou a ser visto como um instrumento para tomadas de decisão acertadas.”

Foi uma virada de chave. O RH deixava de ser apenas o braço disciplinador da empresa (aquele que aplicava punições, controlava o ponto, garantia que as normas fossem seguidas) para se tornar uma área de mediação, de escuta, de construção de pontes entre diferentes interesses. Não que tenha sido uma transformação rápida ou linear. Mas a direção estava dada.

O que mudou e o que permanece

Hoje, 60 anos após aquele encontro no Instituto Agronômico de Campinas, o RH brasileiro é quase irreconhecível se comparado ao departamento de pessoal da era de Gerubal Paschoal. Temos people analytics, inteligência artificial aplicada ao recrutamento, metodologias ágeis de gestão, diversidade e inclusão como bandeiras estratégicas, saúde mental na agenda corporativa. O vocabulário mudou, as ferramentas se sofisticaram, os desafios se tornaram mais complexos.

E, no entanto, algo permanece. A essência do trabalho continua sendo a mesma: cuidar das pessoas que fazem as organizações funcionarem. Criar ambientes onde elas possam se desenvolver, contribuir, prosperar. Mediar conflitos, construir pontes, equilibrar interesses por vezes antagônicos. Ser, ao mesmo tempo, estratégico e humano. O que nunca foi tarefa simples, aliás.

A ABRH Brasil atravessou essas seis décadas como protagonista dessa história. Formou gerações de profissionais. Criou espaços de reflexão e debate. Antecipou tendências. Registrou transformações. Premiou inovações. E, principalmente, manteve viva a ideia de que gestão de pessoas não é apenas uma função operacional, mas sim um elemento central para o desenvolvimento das organizações e do próprio país.

Gerubal Paschoal, aquele personagem da TV Record que batia ponto com régua e esquadro, foi definitivamente aposentado. Mas o espírito daqueles 99 profissionais que se reuniram em Campinas em 1965 – o espírito de acreditar que era possível profissionalizar a área, elevar seus padrões, transformar sua importância – esse espírito segue vivo.

E seguirá, imagino, pelos próximos 60 anos. Porque enquanto houver organizações, haverá pessoas. E enquanto houver pessoas, haverá necessidade de quem saiba cuidar delas com competência, estratégia e, por que não dizer, humanidade.

Que venham as próximas décadas. Com ou sem streaming da TV Record. Com ou sem Gerubal Paschoal. Mas sempre com a certeza de que a gestão de pessoas seguirá sendo, como sempre foi, essencial para construir o Brasil que queremos.

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