Os pets, o RH e uma família galega
Comédia da Netflix acerta ao expor contradições do mundo corporativo que gestores de recursos humanos precisam encarar
Confesso: li alguma coisa no Instagram e, como estava com minha lista de séries para assistir chegando ao fim, cedi à curiosidade e comecei a ver “Animal”. Não se trata de algo na linha de “como vivem os leões de chácara nas savanas africanas”. Porque leão de chácara é uma expressão antiga e não se refere a um animal, mas a um armário. Mentira: não um armário verdadeiro, mas uma espécie de pessoa que trabalha na área de segurança privada cujo volume corporal (leia-se músculos) podia ser medido em volume de um “armário” (que também é um termo antigo).
E sabe o que também é antigo e foi um dos aspectos que prenderam minha atenção foi aquela prática de avaliar o atendimento de uma loja por meio de cliques em carinhas felizes (de cor verde), mais ou menos (de cor amarela) e raivosas (vermelhas). Calma, explico, mas, antes, deixe-me dar o recado: ei, profissional de RH que está lendo isso enquanto procrastina aquele relatório de turnover, que tal matar a curiosidade sobre essa série espanhola que estreou em outubro e virou fenômeno silencioso?
“Animal” conta a história de Antón, um veterinário rural na aldeia galega fictícia de Topomorto, que enfrenta uma grave crise financeira quando seus clientes (agricultores tão quebrados quanto ele pela crise no campo) param de pagar pelos serviços. Quer dizer, pagar em dinheiro, pois sobram ovos e litros de leite para consumar o escambo. Sem opção, ele aceita trabalhar na Kawanda, uma loja de pets chique em Santiago de Compostela, administrada por sua sobrinha Uxía.
Parece simples, né? Mas é justamente nessa simplicidade que a série acerta o dedo na ferida de várias práticas corporativas são normalizadas e que muitos vendem como bons exemplos de gestão, e de gestão de pessoas.
A tirania das carinhas verdes
Antón logo descobre que, na Kawanda, o que importa não é o bem-estar dos animais, mas sim avaliações positivas. Após receber uma série de críticas/carinhas negativas/vermelhas/raivosas, ele é forçado a repensar completamente sua forma de atender.
Soa familiar? Claro que sim. Quantas empresas você conhece em que uma métrica de satisfação do cliente virou a única (ou a mais valiosa) métrica que importa? Em que um comentário negativo no Google Reviews pode custar o emprego de alguém? Em que profissionais técnicos, com anos de experiência, são obrigados a sorrir e concordar com absurdos porque “o cliente tem sempre razão”? Para ilustrar, uma cena digna de Dr. House. Nela, Antón, com seu sarcasmo afiado, solta: “Se o cliente inventa uma doença, eu sou obrigado a inventar um remédio”. Era para um doguinho que, segundo o tutor, sofria de dislexia…
Quantas vezes você já viu isso acontecer na sua empresa? Aquele vendedor que promete o impossível para fechar negócio? O atendente que oferece desconto não autorizado para evitar reclamação? O técnico que faz um procedimento desnecessário porque o cliente exigiu?
A série mostra, com humor ácido e certeiro, como alguns sistemas de avaliação transformaram profissionais em reféns da satisfação imediata. E o RH? Ele torna-se cúmplice disso ao criar políticas de bonificação atreladas exclusivamente a essas métricas?
“Somos uma família” (mas você é demissível)
A Kawanda é apresentada como um “espaço perfeito, colorido”, com música relaxante para fazer todos felizes, em especial os animais de estimação. Isso remete a pufes coloridos, mesinha de sinuca, fruta grátis na copa e um discurso lindo sobre “somos uma família aqui”, para você? Pois é, pode até dar certo quando a cultura sustenta e alinha, mas… Porém existem casos nos quais as luzes brilhantes e a estética impecável de muitas Kawandas da vida criam um “universo paralelo” de perfeição, em que a realidade dos profissionais que trabalham ali é bem diferente.
No final da temporada (talvez venha uma segunda), Uxía, a própria gerente da loja e apaixonada pelo negócio, é demitida após uma inspeção da matriz corporativa e um relatório negativo. Não importa seu engajamento, sua dedicação ou quantas horas extras você fez. Quando a decisão vem de cima, você é descartável. E a companhia, muitas vezes, sequer o ajuda a ir para uma “feira de adoção” depois… Como será seu dia seguinte?
No caso de Uxía, Antón a presenteia com uma caneca com a frase “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”, uma mensagem de incentivo verdadeiro e, ao mesmo tempo, uma crítica a um certo tipo de prática motivacional baseada em frases feitas e de estilo (típicas de canecas distribuídas como brindes corporativos). A diferença no caso dela, é que seu tio queria marcar o fim daquela jornada de alegria tão artificial quanto um cachorro falante (produzido por alguma IA).
O tal “somos uma família” só vale enquanto você for lucrativo. Depois disso, você vira estatística. Ok, ok, o inverso também acontece. Se o funcionário já não vê mais como se desenvolver ou ser desafiado na empresa em que atua, ele pode sair de casa e caminhar pelas ruas do mercado corporativo em busca de uma nova família que o acolha e que cujo relacionamento seja infinito – enquanto durar (dá-lhe Vinícius de Moraes!).

Quando o lucro está acima de tudo (até da ética)
Após a saída de Uxía, entra uma nova gerente que deixa claro: ela reforça que animais doentes mantêm os clientes retornando. Seria o mesmo que criar problemas para vender soluções? Quando Antón é questionado se concorda com essa filosofia, ele não responde. Em vez disso, grita desesperadamente em uma ponte, como faz sempre que tenta aliviar a ansiedade.
A cena é devastadora. O grito representa a incapacidade de Antón de encontrar lugar em um sistema que despreza sua ética, mas também mostra resistência: ele ainda não desistiu. E quantos profissionais na sua empresa estão vivendo isso? Quantos estão gritando por dentro porque precisam do emprego, mas não conseguem mais se olhar no espelho?
Uma espectadora que trabalhou anos em lojas de pets comentou no IMDb: “Passei anos trabalhando em lojas (…)exatamente como a Kawanda. O maior problema é entre a preocupação genuína com os animais versus o todo-poderoso dólar. Eu me identifiquei completamente!”
O choque geracional que ninguém quer admitir
A série também é um retrato de transição geracional, mostrando a diferença entre um profissional tradicional e uma jovem chefe que o pressiona a se requalificar. Enquanto Uxía é alegre, positiva e ama trabalhar na Kawanda, Antón é pessimista e detesta o ambiente. Não é só diferença de idade. É diferença de valores. Em outras palavras…
…Antón valoriza a essência do trabalho, a relação direta com o resultado, a ética profissional. Uxía valoriza a experiência do cliente, a estética, as métricas de satisfação. Nenhum dos dois está completamente errado, mas o conflito é real e a série não romantiza isso. Antón representa o homem de meia-idade, uma espécie de “peixe fora d’água” forçado a adaptar-se, enquanto Uxía simboliza a geração jovem que reinventa tradições.
E o que o RH costuma fazer com esse conflito? Como você, caro RH, resolve isso em sua empresa?
O que RH pode aprender com uma comédia sobre veterinários
“Animal” é leve. São apenas nove episódios de cerca de 30 minutos cada, e é descrita como uma série que “sorri para o espectador, sem forçar viradas dramáticas”. Mas não se engane: a crítica está ali, afiada. Basta estar aberto para o riso e para o aprendizado. Por exemplo:
1. métricas não substituem bom senso
Quando você prioriza avaliações positivas e clientes satisfeitos acima do bem-estar real (seja de animais, seja de funcionários), as chances de criar um sistema doente são maiores
2. Cultura não é decoração
Pufes, frases motivacionais na parede e happy hours não criam cultura – são um reflexo da real, da que existe de fato. Essas práticas podem até criar um “universo paralelo” bonito, mas a realidade dos seus funcionários é outra. Aliás, das conversas que tenho tido com muitos arquitetos corporativos, os pufes, os escorregadores e mesas de sinuca estão minguando…
3. Discurso de “família” exige coerência
Parente a gente não escolhe. Ser um pai não necessariamente significa que o líder vai tratá-lo de uma forma diferente. Bem, na verdade, existem “pais” e “pais”, bem como “filhos” e “filhos”. O rei Édipo que o diga…
4. Escute os gritos silenciosos
Antón grita em uma ponte para aliviar a ansiedade. Quantos funcionários seus estão gritando por dentro? Seus indicadores de saúde mental estão captando isso?
5. Adaptação não pode significar aniquilação de identidade
A série faz rir sem abrir mão da reflexão sobre pertencimento, identidade e adaptação, mostrando um protagonista que tenta se reinventar sem perder a própria essência. Quando sua empresa exige adaptação, está pedindo evolução ou apagamento?

MAIS, MAIS E MAIS
Para assistir e refletir
“Animal” registrou 9,7 milhões de visualizações globais nos primeiros 17 dias e conquistou espaço no top 10 de 44 países. Não é à toa. A série foi chamada de “a melhor série espanhola de Netflix em 2025” por muitos críticos. Interessante sair das produções americanas e conhecer novos ares. Interessante também “estar” na Galícia!
A série não vai resolver os problemas de RH da sua empresa. Mas pode fazer você repensar se algumas das “soluções” que você implementa não são, na verdade, parte do problema.
E se você é daqueles que acham que série da Netflix não tem nada a ensinar sobre gestão de pessoas, bem… talvez você seja exatamente o tipo de gestor que Antón olharia com aquele sarcasmo matador e diria: “você inventou a doença, agora preciso inventar o remédio”.
Assista. Reflita. E talvez, na próxima reunião de cultura organizacional, você pense duas vezes antes de sugerir outra parede com frase motivacional.
Animal está disponível na Netflix desde 3 de outubro de 2025, com 9 episódios.

