E o verbo se fez carne. Ou cargo
Que tal o RH deixar de lado os substantivos e adotar a ação para se definir?
Em um recente artigo no LinkedIn, Dave Ulrich traz um alerta, ou melhor, uma boa reflexão para o pessoal de RH: você sabe quem você é? Como você se define? Este é um convite urgente para que a área abandone aquela roupa surrada de burocrata e vista a capa de arquiteto existencial.
O que Ulrich apresenta é uma espécie de radiografia viva de uma área em plena metamorfose – ambulante, eu acrescentaria com as bênçãos de Raulzito. Um processo contínuo de transformação, às vezes dolorosa, mas necessária, em que a velha gestão de pessoas cede espaço para algo maior: a gestão do próprio destino organizacional. E tudo isso sob nossas lentes artísticas favoritas.
O olhar pela janela: o fim da narcisa corporativa
Por muito tempo, o RH foi aquele personagem melancólico que só conseguia se olhar no espelho. A métrica do sucesso? O sorriso interno. A pesquisa de clima. O cafezinho na copa.
Mas Ulrich nos empurra para uma cena de virada cinematográfica: a beleza interior não basta mais. O julgamento agora vem de fora, da rua, do mundo real. O que vai garantir, a partir de agora, um Oscar ou uma Palma de Ouro do Festival de Cannes corporativo?
A eficácia do RH passou a ser narrada por vozes que jamais ultrapassaram a recepção da empresa. E quem seria esse pessoal? O investidor, aquele que está muito interessado em saber se pode confiar seu dinheiro naquela empresa e naquela gente que trabalha nela. O cliente também faz parte daquele pessoal. É ele quem questiona se a experiência que tem com um determinado produto reflete, de fato, uma cultura forte.
Esse novo filme pode se tornar uma tragédia, no entanto. Para entender melhor: um RH que ainda concentra 90% de sua energia em questões internas é um narrador míope, obcecado pelo próprio umbigo. O novo roteiro exige que cada política interna (de liderança à cultura) seja escrita com a clara intenção de reverberar valor lá fora, no mundo que importa.
O RH vira o showrunner que precisa agradar não apenas o elenco, mas a audiência global. Isso significa liderar “de fora para dentro”, aceitando que a empresa é um organismo social cujo pulso é sentido no mercado, nas ruas, nas conversas de bar.
A crise de identidade: de adjetivo à missão pessoal
A mudança mais poética, e, talvez a mais dolorosa, é a troca do substantivo pelo verbo. Sabe aquela placa de identificação escrito “HR Business Partner”? Está gasta, carcomida, sem brilho. Quase caindo…
O que Ulrich exige do pessoal de RH é ação. Sim, câmeras, luzes e… ação!
O profissional dessa área não pode mais se definir pelo cargo (um substantivo frio, estático). A identidade agora se mistura no propósito: “Eu fomento a colaboração”, “Eu simplifico a complexidade”, “Eu conecto o talento ao ciclo de receita”. Sim: o verbo precisa de um sujeito. Aqui, precisa de um protagonista.
É uma jornada de autodescoberta radical: o RH precisa abandonar o pedestal confortável do “Eu sou” e abraçar a humildade dinâmica do “Eu faço”.
Essa é a verdadeira redenção da carreira: ser definido pela consequência, pelo impacto, e não pela descrição bonita no LinkedIn. Ou por aquelas letras bonitas, que mais atendem a egos inflados ávidos por status.
A busca por esperança: o produto mais humano do RH
Nesse cenário de suspense em que vivemos, como em um filme, assolado pelos conceitos VUCA e BANI e cheio de efeitos especiais da IA, o RH tem a missão mais existencial de todas: vender esperança.
Não aquela esperança vazia, do tipo “vai dar tudo certo”, com dois tapinhas nas costas. Mas esperança concreta, estruturada.
A capacidade humana (talento, liderança, organização) é o motor que move tudo. Mas e o combustível? Ah, o combustível é a crença. E a esperança se manifesta em dois atos essenciais:
- eficácia: a crença inabalável de que, se eu trabalhar e me dedicar de verdade, o resultado virá. É o fim da futilidade, o sentido no esforço diário.
- otimismo: a convicção de que o futuro, apesar de obscuro e nebuloso, é algo que podemos construir ativamente, e não apenas sofrer passivamente.
Aqui, o RH se transforma no guardião do sentido. Ele constrói a arquitetura emocional e prática que permite às pessoas acreditarem que suas ações importam, que a história terá um final que vale a pena ser vivido.
A sombra da IA: o instinto contra o algoritmo
Como insinuado acima, a Inteligência Artificial é a nova estrela de efeitos especiais. Ela é capaz de resolver equações complexas em milissegundos, de automatizar o inimaginável.
Devemos usá-la, sim. Acelerá-la, abraçá-la.
Mas… é aqui que Ulrich insere a cena de perigo. Sim, existe o risco real da anestesia cognitiva. A confiança cega na máquina, segundo estudos, derruba nossa habilidade de pensar por conta própria. O RH, portanto, precisa assumir seu papel como a última linha de defesa do instinto humano.
Assim, se a IA entrega a resposta, o humano deve fazer a pergunta certa.
Se a IA otimiza o processo, o humano deve garantir o propósito.
O futuro do RH não é sobre ter mais tecnologia, mas sobre ter mais coragem de se apoiar no julgamento, na ética, na intuição. Na arte delicada de lidar com o que não é codificável. E agir, sempre!
O desfecho
Ao final, o RH precisa se tornar o contador de histórias da empresa, aquele que garante que o enredo do sucesso seja, acima de tudo, profundamente, visceralmente humano. Porque máquinas podem calcular, mas só nós sabemos sonhar. E é disso que estamos falando.
