Em 2050, o que vai distinguir um humano de uma máquina?
Pedro Ramos, CEO da Keeptalent Portugal, defende que a fusão entre inteligência humana e artificial é inevitável, mas calma: não perderemos nossa humanidade, pois ainda restará uma competência exclusivamente nossa
A inteligência artificial não nos persegue. Ela nos acompanha. Essa correção de perspectiva, proposta por Pedro Ramos, CEO da Keeptalent Portugal e presidente da Sociedade da Excelência Luso-Brasileira (SELB), revela um dos maiores equívocos que gestores e profissionais de RH cometem ao encarar a transformação tecnológica: confundir evolução com ameaça.
Para Ramos, o medo não está na máquina em si, mas na velocidade vertiginosa com que a tecnologia avança, um ritmo que o cérebro humano não consegue processar naturalmente. Mas é na metáfora do casamento que o executivo encontra a melhor tradução para o futuro das relações entre humanos e IA. Não se trata de coexistência pacífica ou de substituição. Trata-se de fusão. “Eu estou mais na base da fusão. Creio que esse casamento é claramente um ‘casamento com comunhão de bens’, cada um traz suas coisas e juntam tudo”, explica.
Como você, caro leitor, se imagina no altar do mundo corporativo (e de toda a vida, obviamente) trocando as alianças com uma IA? Será que o sentimento chamado amor estará presente, algo que nos torna essencialmente humanos? Ou será que até lá as máquinas terão essa capacidade? Uma coisa é certa, segundo Ramos: em um mundo em que a distinção entre inteligência natural e artificial está se dissolvendo, a generosidade será a única competência que a IA jamais conseguirá replicar. Porque ser generoso, segundo ele, exige leitura de sinais, contexto, vida e empatia. E essas, por enquanto, são características exclusivamente nossas.
O avanço da IA é frequentemente narrado como uma ameaça. Recentemente, em um debate do qual você participou, havia o termo “nos persegue” em relação a ela. Qual é o maior equívoco que os gestores de RH e os colaboradores cometem ao encarar a IA? O medo é da máquina ou da velocidade da transformação?
De fato, a IA é frequentemente vista como uma ameaça, o que é um grande equívoco. Quando dizemos que ela “nos persegue”, damos a ideia de que corre contra nós. Soaria melhor dizer que ela nos acompanha. Para mim, o medo está verdadeiramente na velocidade da transformação. Sabemos que a evolução natural leva milhares de anos para se consolidar – e ainda estamos no meio dela. Porém, o momento atual é muito mais acelerado em função da tecnologia, especialmente da inteligência artificial. E o cérebro humano não tem processado tudo isso no ritmo normal.
Vale lembrar que a inteligência artificial já existe há décadas e foi evoluindo até chegar, há meia dúzia de anos, ao mais próximo de “inteligência” com a IA generativa. Até então, era apenas uma compilação do que havia de melhor da inteligência humana. Essa evolução tão rápida nos últimos anos tem criado um certo medo nos humanos.
Em um futuro de intensa automação, qual é a competência humana que a IA jamais conseguirá replicar e que se tornará o principal ativo do profissional de RH?
A resposta é muito simples: generosidade. Jamais a IA vai conseguir ter essa capacidade. Por quê? Porque ser generoso implica uma leitura de sinais, de realidade, de contexto anterior, de vida, de background, de empatia – algo já difícil para a inteligência artificial. Portanto, generosidade é claramente a competência que a IA jamais vai conseguir roubar do profissional de RH.
Qual é a sua definição da “reunião das duas inteligências” (humana e artificial)? Como poderá ser o “casamento” entre elas e que “prole” teremos dessa união?
Sim, a ideia da reunião das duas inteligências pode supor a de um casamento. Mas, afinal, o que é um casamento? Há casamentos perfeitos, quase perfeitos, imperfeitos e por conveniência. Há também casamentos planejados e outros que acontecem por acaso.
Ao conversar com pessoas especializadas no tema da evolução – seja do homem para a máquina ou da tecnologia em geral –, é possível perceber várias convergências que vão ensejar vários tipos de casamentos ou reuniões. Ao fim, temos sempre a reunião como colaboração. Essa colaboração pode ser uma fusão, uma agregação ou complementaridade. É interessante lembrar que o ser humano inventou o guindaste para carregar um contêiner que ele sozinho é incapaz de mover. Isso mostra que a inteligência artificial pode casar-se com a inteligência humana para servir como uma extensão de um poder que o humano pode vir a ter. Eu estou mais na base da fusão. Creio que esse casamento é claramente um “casamento com comunhão de bens” – cada um traz suas coisas e juntam tudo. Mas veremos, obviamente, o que pode mudar com o tempo.
O relatório Technology Foresight 2025 da NTT DATA apresenta o conceito de “humanos aprimorados”, em que IA generativa, digital twins e robótica se somam às habilidades humanas, elevando produtividade e qualidade de decisões. Esse é o resultado daquele “casamento”?
Esse conceito de humanos aprimorados revela uma lógica passada, embora presente, da IA generativa. Ou seja, da IA que ainda é uma compilação do melhor da inteligência humana: ela aprendeu conosco, buscou o melhor e apresenta respostas que são o agregado desse melhor. Neste caso, de fato, podemos chamar de humanos aprimorados.
Porém, já se começa a discutir a mistura. Os humanoides já são misturas de homens com máquinas. No futuro, será uma única inteligência composta por esses dois chips: humano e artificial. Portanto, a reunião é uma fase prévia, de consolidação, mas caminhamos para um único ser que já não será humano, que terá essa inteligência dupla. Com isso, deixamos de falar sobre humanos aprimorados e passamos a falar de um ser completamente diferente, de outro nível, composto por uma inteligência dotada de uma parte humana e de uma parte artificial que funcionam como inteligência única.
Vivemos em um mundo em que há muito mais perguntas do que respostas. Como vemos esse desenvolvimento futuro? Não se sabe com precisão, mas estamos caminhando para algo muito superior a esse conceito de humanos aprimorados.
Como encarar a diversidade cognitiva nesse ambiente de evolução da inteligência artificial e seu “casamento” com a humana?
Essa é uma expressão que considero mágica: diversidade cognitiva. Cada vez mais o sucesso das equipes e organizações está no poder dessa diversidade, no poder de se pensar diferente. Já estão esgotados todos os processos de pensar igual e de reprodução de pensamento. As primeiras gerações da inteligência artificial eram reprodutoras de pensamento humano. Não havia construção nova. Quando falamos da nova geração, da quinta geração da IA – aquela que já não é generativa, mas criadora –, estamos falando de mais pensamento diverso. Essa reunião é um casamento que vai compor o melhor da inteligência humana com o novo e o melhor da inteligência artificial, exatamente nessa perspectiva de diversidade cognitiva.
Muitos especialistas apontam que o desafio agora é integrar machine learning às competências sociais e emocionais. Elas serão duradouras?
Vivemos essa integração atualmente e, por isso, mais do que nunca, temos de pensar nas competências sociais. Quando falamos em inteligência, não nos referimos apenas à artificial ou humana. Temos a inteligência que deriva do QI, mas também a inteligência emocional e a social. Existem vários domínios e dimensões da inteligência.
Na transição atual, os aspectos emocionais e sociais são componentes claramente e apenas dos humanos. Em um processo de integração das inteligências como extensão das capacidades humanas e, depois, de fusão dessas capacidades, sempre haverá características que são unicamente dos humanos – e esse é o poder dos humanos! Logo, será o poder das lideranças que gerem humanos. No futuro, teremos humanos que serão líderes de máquinas (robôs) que só têm inteligência artificial e de pessoas que, numa fase inicial, terão apenas inteligência humana. Essa capacidade de dosar, de gerenciar, de fazer o “drink” com duas inteligências para criar outra, vai caber a um ser humano líder, com sua capacidade emocional e relacional – aspectos que têm a ver com a inteligência social.
Se pudéssemos avançar para 2050, olhando retrospectivamente para 2025, você acredita que diremos “felizmente as máquinas nos libertaram” ou “infelizmente, as máquinas nos substituíram”? Ou a pergunta estará errada porque a distinção entre humano e máquina não fará mais sentido?
De fato, em 2050, quando olharmos para trás, não pensaremos “felizmente as máquinas nos libertaram” ou “infelizmente, as máquinas nos substituíram”. A pergunta proposta faz sentido agora, em 2025. Daqui a 25 anos não terá a menor razão, uma vez que já não existirá qualquer distinção entre humano e máquina. A questão do “felizmente” ou “infelizmente” é algo fatalista, e só humano pensa nessa perspectiva fatalista. Em 2050, o olhar para trás será mais para entender como as coisas eram de fato há 25 anos, com as discussões sobre natureza humana, biologia e afins. Daqui a 25 anos, talvez estaremos ainda num regime híbrido em que haverá vários registros, várias situações. As mudanças ainda não estarão consolidadas, porém caminhamos de fato para a não distinção entre humano e máquina.
Com o avanço da IA, que desafios ou temas chamam a atenção nesse momento?
Hoje vivemos numa era de enorme desafio. Por um lado, existe a necessidade de recorrer cada vez mais à inteligência artificial – sendo que grande parte dessa inteligência ainda é generativa, ou seja, ainda é o produto do melhor das inteligências humanas. Portanto, a consciência ainda não existe na inteligência artificial; ela está na inteligência humana. Mas caminhamos para uma fase em que essa transição levará à construção de algo absolutamente incontrolável, de uma inteligência que vai continuar a crescer, tornar-se autônoma, ter consciência. Há alguns aspectos críticos aqui, como a questão da ética e da consciência. Daqui a algum tempo, esse tema já não será importante porque haverá claramente uma fusão entre inteligência humana e artificial numa única inteligência construtiva e agregadora. E ninguém vai pensar onde começa uma e acaba a outra. Até lá, o papel das lideranças é fundamental. Negar a possibilidade dessa inteligência é impossível, assim como saber exatamente onde vamos chegar. Hoje vivemos em um mundo em que temos muito, muito mais perguntas do que respostas.
Qual é a pergunta que ninguém lhe fez sobre o futuro da IA e dos humanos?
A pergunta que ninguém me fez é: será que alguém tem ideia exatamente do que vai acontecer? A pergunta pode ser feita, mas acredito que ninguém tem a resposta.

MAIS, MAIS E MAIS
Aproveitando as reflexões propostas por Pedro Ramos, RH no Ponto quer saber qual colega de trabalho você, caro leitor ou leitora, deseja escolher para compartilhar os bons e maus momentos, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na sua organização. Em breve, colocaremos no ar nossa pesquisa.
