g, de gumae

…and I’ve been working like a dog…

Como o trabalho, carreira e empresas aparecem nas músicas. Ou: já ouviu falar em People Analyrics?

A culpa é do querido Francisco Carlos! Quem mandou ele escrever sobre a trilha sonora da nossa carreira! O link do belo artigo está aqui, mas antes de partir para lá, que tal seguir a leitura por estas bandas? Literalmente falando…

Sempre procurei unir pontos que, num primeiro momento, não fazem sentido algum, não possuem qualquer relação entre si. No caso da música, por exemplo, temos um Sebastião que de alguma forma lembra outro. O primeiro é o Tim Maia e o segundo o rei de Portugal. E o que os une? A tal história do sebastianismo: muita gente ficou esperando o nobre português voltar da batalha e muitos fãs já ficaram esperando nosso ídolo chegar no show – o que nem sempre acontecia. E o que tem a ver esses sebastiões com o RH: logo depois da pandemia, muitos esperavam que o “antigo” normal voltaria nas empresas. No entanto, vimos a onda do trabalho remoto, depois o híbrido arregaçando as manguinhas e, agora, o presencial se fazendo… presente. Mas será que temos de volta o “sebastião corporativo” de antes? Dúvidas. A plateia hoje parece mais exigente e o show deve mudar um pouco…

Mas voltemos: qual é a música? Quem tem mais de uns 50 anos vai lembrar bem dessa pergunta, repetida à exaustão nos domingos por Sílvio Santos. Qual é a música que traz uma relação com o trabalho? Foi pensando nisso que um conceito brilhou em minha mente.

Não soa bem

Você já ouviu falar em People Analyrics? Que pena, mas não se preocupe. Esse termo estava escondido em minha cabeça há algum tempo, junto com outros tão estranhos como clown computing (falarei sobre este um dia). “Analyrics” e “analytics”, para um pobre mortal com inglês de um pobre mortal, soam muito semelhantes. E é nesse pequeno detalhe fonético que busco olhar a gestão de pessoas, o RH e o trabalho (e seu mundinho) por meio das músicas.

Se nossa vida (e nossa carreira, como bem lembrou Francis) tem uma trilha, vamos falar das paradas de sucesso corporativo.

Como o Francis já trouxe um perspicaz paralelo entre as trilhas e mudanças na indústria fonográfica com a evolução (será?) do mundo do trabalho, vou atentar para outras coisas que, espero, “soem como música” (sim, foi infame!).

Ice, ice, baby
Vanilla Ice, um pensador de Rodin moderno? Ao menos, o topete está em ordem.

Anos 80, período das ombreiras largas, dos cabelos desarrumados (Robert Smith, do The Cure, por exemplo) ou bem cortados (Vanilla Ice, por exemplo – sim, é ironia) e de muita novidade nas pistas. Já podemos lembrar da “fábrica” de sucessos. Isso mesmo: o mundo do trabalho tinha uma espécie de representante no mundo fonográfico, muito embora essa empresa quisesse ser uma antiempresa: a Factory Records!

Nascida em Manchester, considerada a primeira cidade industrial do mundo (lembram da Revolução Industrial?), a gravadora não mantinha contratos formais com os artistas, as decisões não eram “data-driven”, mas muito intuitivas… Imagine o fim: ela começou em 1978 e teve sua última “faixa do lado B” em 1992. Porém, nesses anos, a Factory acertou em lançar:

  • Joy Division: uma das bandas mais influentes do pós-punk. O álbum Unknown pleasures (FACT 10) é surreal.
  • New Order: formada após o fim do Joy Division, ela misturou pós-punk com música eletrônica e teve enorme sucesso.
  • Happy Mondays: misturavam rock alternativo com acid house.

Falando em carreira/trabalho e essas bandas: a chegada dos sintetizadores, samplers e gravadores digitais nos anos 80 mudou o “trabalho” do músico. No caso do New Order, uma preocupação pairou sobre a cabeça do baterista Stephen Morris. Assim como muitos atualmente, ele ficou com o receio de a tecnologia tirar suas baquetas (leia-se “emprego” ou posição no grupo). Como ele era um cara que não tinha medo de ler manuais de aparelhos eletrônicos (tinha muita paciência), decidiu aprender a operar os novos equipamentos. E, podemos, dizer que ele acabou se tornando peça-chave na transição da banda para o som eletrônico. Um sucesso deles? Blue monday é, ainda, uma das mais tocadas.

Bob Geldof
Nosso amigo Bob: ele escreveu I don’t like monday e foi um dos criadores do Live Aid. Se você tem menos de 40 anos, não sabe o que perdeu…
Segundou!

E por falar em (monday) segunda-feira, dia oficial de começo de semana de trabalho: ela pode ser “triste” ou “melancólica” (de Blue monday, do New Order) ou “feliz”/”alegre”, como no caso da banda Happy Mondays. Liderada pelo vocalista Shaun Ryder, ela ficou conhecida pela música Step on (You’re twisting my melon, man!”) e pelo integrante cuja missão e propósito era dançar hipnoticamente com duas maracas.

Ah! E temos I don’t like mondays, da banda The Boomtown Rats. Ela foi lançada em 1979, tendo sido escrita por Bob Geldof e Johnnie Fingers. Bob foi um dos idealizadores, anos depois, do Live Aid, em julho de 1985. Se você não lembra ou “não é da sua geração”, assista ao filme Bohemian Rhapsody, sobre Freddie Mercury…

I don’t like monday não é o oposto de “sextou” (“thanks God, it’s friday?”) ou algo do tipo “droga, começou a semana e tenho de trabalhar”. A história, real, por trás da letra é triste: ela se refere a um “tiroteio” que acontecera na escola Grover Cleveland Elementary, em San Diego, cometido por Brenda Ann Spencer, de então 16 anos. Ao ser questionada por que cometera tal atrocidade, ela simplesmente respondeu: “I don’t like mondays. This livens up the day” (algo como “Eu não gosto de segundas-feiras. Isso anima o dia“). Geldof fez, com a letra, uma crítica à banalização da violência e à alienação social. Aliás, é “sir” Geldof, pois pelo seu trabalho com o Live Aid e mais alguns outros (voluntariado?), ele foi condecorado com o título de Cavaleiro do Império Britânico.

The Jam
The Jam e suas críticas sociais, como o desemprego na Inglaterra nos anos 80. Paul Weller, à esquerda, depois foi para o “conselho de estilo”
Jam malicioso

Em 2009, o CONARH utilizou o JAM, uma tecnologia de interação da IBM. A ideia era aproximar os cerca de 3 mil participantes, já antes do evento, por meio de debates e interações a partir dos temas propostos. Sim, Jam vinha das sessões de jazz nas quais vários músicos ficam criando em conjunto e de modo intuitivo e, no jargão, “amigável”.  Seis anos depois, o termo voltou ao CONARH: a empresa i9Ação realizou o Mega Game Jam. Os congressistas e visitantes que se inscreviam nele tinham de criar diversos jogos para ultrapassar desafios na vida corporativa. Não, não sei se havia algo como “retorne duas casas em sua carreira”. Poderia ter sido criado algum GTA… Gestão de Talentos e Avaliação. (Pensou que seria Gestão de Trabalho Ameaçadora ou o original Grand Theft Auto, não?)

Mas vamos falar de outro jam. Mais precisamente “The” Jam, uma das bandas mais emblemáticas do cenário britânico dos anos 70 e início dos 80. O grupo tinha Paul Weller no vocal (ou crooner, rs, até sair para formar o The Style Council) e trouxe letras “socialmente conscientes”, muitas abordando o cotidiano do trabalhador britânico em meio ao conservadorismo da era Thatcher. Um bom exemplo é A town called malice.

Ela é um retrato da desilusão e do declínio da classe trabalhadora na Grã-Bretanha no início dos anos 80. Apesar do tema “pesado”, ela é bem dançante, trazendo um contraste que, talvez, fosse para mostrar exatamente o que se passava na cidade natal de Weller (que a escreveu), Woking: ele a via como um lugar de frustração e pobreza, apesar da fachada suburbana de normalidade.

Dois outros exemplos: Man in the corner shop, que mostra o contraste entre o dono da loja, o operário e o patrão, e Smithers-Jones, que narra a história de um homem que dedicou sua vida ao escritório, apenas para ser dispensado friamente:

And someone says “The boss wants to see you alone”

The words are so quick – they hardly take a breath

“There’s no longer a position for you” – “Sorry Smithers-Jones”

(E alguém diz: “O chefe quer ver você a sós”

As palavras são tão rápidas — eles mal respiram

“Não há mais uma posição para você” — “Desculpe, Smithers-Jones”)

The Clash
The Clash: olhar sobre a carreira e a diversidade de ritmos, tudo misturado e com muita classe e atitude
Caçador de cabeças

Não, não havia pacote nessa demissão, nada de prolongar o plano de saúde. Ou de oferecer algum suporte tipo executive search. A música é de 1979. Mas se fosse em 1988, até que poderíamos dizer que já havia um Headhunter na parada, literalmente. Esse é o nome do principal single (música) da banda Front 242, que foi formada em 1981 em Aarschot, perto de Bruxelas (Bélgica) e considerada uma das principais expoentes do gênero EBM. E o que é isso? Não, não é Employee Body Mechanization (Mecanização do Corpo do Funcionário), mas Electronic Body Music, caracterizado por batidas pesadas, eletrônicas e repetitivas, vocais processados e letras com temas sociais, políticos e militares. Confira a letra:

I’m looking for this man

To sell him to other men

To sell him to other men

To make us rich and famous

(Estou procurando esse homem

Para vendê-lo a outros homens

Para vendê-lo a outros homens

Para que fiquemos ricos e famosos)

Ainda na terra da rainha, não podemos esquecer de Career opportunities, do The Clash:

Career opportunities, the ones that never knock

Every job they offer you is to keep you out the dock

Career opportunities, the ones that never knock

(Oportunidades de carreira, aquelas que nunca batem à porta

Todo emprego que eles te oferecem é para te manter fora do banco dos réus (ou da cadeia)

Oportunidades de carreira, aquelas que nunca batem à porta)

Formado em 1976, The Clash é punk! Sim, literalmente! E foi além disso: no álbum duplo London calling (1979), a banda quebrou as regras do punk e passou a incorporar com naturalidade elementos de reggae, ska, dub, funk e até rockabilly. Isso é que é diversidade e inclusão musicais!

Quer mais?

Como o texto está ficando longo e ainda tenho mais algumas tarefas (em especial domésticas), vou ficando por aqui. Não, não estou trabalhando como um cachorro, lembrando a famosa A hard day’s night (1964), dos Beatles. Quem me dera ser pet: ração, banho, petisco. Aceito projetos, frilas etc. Enquanto isso, vou preparando a parte brazuca desse People Analyrics. Vocês gostariam de receber? Olha, vai ter Magazine, Odair José, Herva Doce…

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Quer conteúdo assim para sua equipe? Pense na cena: o pessoal recebendo um texto assim para descontrair numa sexta-feira... Hum... vamos conversar?

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