A diversidade e o diabo
Um padre, uma freira, uma psicóloga e um “faz tudo” saem para trabalhar. O que essa equipe tem de especial?
Sexta-feira. O sol se espreguiça no horizonte, mesmo que você não o veja. Sim, parece que ele vai descansar depois de uma semana de trabalho – como se ele fizesse algum movimento ao redor da Terra! É como aquela música do Roberto Carlos que diz que “estrelas mudam de lugar”. Elas não mudam, nós é que acompanhamos o movimento do nosso planeta. Estamos embarcados numa sequência de translação e rotação! E ainda tem gente que não faz nenhum esforço para mudar um centímetro de em sua atitude.
Por exemplo, aquele seu chefe que mais parece um demônio pelo modo como trata as pessoas e como deixa o ambiente de trabalho “quente” e com uma leve fragrância de enxofre. Ou será que esse odor vem do sistema central de ar-condicionado? Bora lá perguntar para o RH se é isso mesmo. E que tal ver com ele se as carteirinhas do plano de saúde já estão prontas e quando serão entregues. Ou procurar saber quem é que vai poder trabalhar de casa a partir de agora. E quantos dias de home office? A avaliação é por número de cliques no mouse, como pareceu ser em alguns lugares? Se a pessoa vai trabalhar mais de casa, ela poderá participar do Pet Day na empresa? E se ela tem um cágado, pode levar mesmo que a empresa seja modelo “agile”?
São em momentos como esses que vislumbrar a chegada do fim de semana é algo animador, mas sem antes mandar esse povo todo para um lugar bem longe. “Quero que você me aqueça nesse inverno, e que tudo mais (pausa dramática) vá pro inferno”, também cantava Roberto Carlos. Mas esse desejo era reprimido. Não dava para seguir o que o rei sugeria por uma única razão: já não estamos mais no inverno…
E falando nele, que tal assistir a uma série de TV bacana, que que não é apenas entretenimento, mas que, “nas entrelinhas”, oferece uma lente para o nosso próprio universo profissional? E, na redação do RH NO PONTO, a dica da vez é unânime: “Evil – contatos sobrenaturais”.
Será que você vai encontrar algum demônio parecido com colegas de trabalho? Só você poderá responder depois de acompanhar a jornada de uma equipe que tinha tudo para não funcionar, mas que, além de vencer alguns mistérios da vida, ainda nos mostra como a diversidade funciona.

Uma equipe improvável
Imagine um time de “consultores” contratado pela igreja católica para resolver os mais complexos mistérios, como uma possessão demoníaca ou até mesmo um suposto milagre. A premissa já atrai. Mas o que realmente brilha é a composição desse time:
- David Acosta, um seminarista (no fim da temporada já é padre), um homem de fé em meio a um mundo de dúvidas.
- Kristen Bouchard, uma psicóloga forense, uma mulher da ciência, que só confia no que pode ser comprovado.
- Ben Shakir, um especialista em tecnologia, filho de uma família muçulmana, pragmático que busca a lógica em tudo.
- E, depois, irmã Andrea, uma freira já idosa, mas que é a única capaz de enxergar os seres demoníacos.
Essa equipe, com suas crenças, origens e habilidades radicalmente diferentes, é o motor da série. Eles não se anulam. Pelo contrário, cada perspectiva adiciona uma nova camada de entendimento. A fé de David ilumina o que a ciência de Kristen não alcança. A lógica de Ben desmonta o que parece sobrenatural. A visão de Irmã Andrea completa o que todos os outros não podem ver. E nossa simpática irmã é um dos alívios cômicos da série.
Esse parece ser o time perfeito de DE&I em ação, em que a diversidade de pensamento não é apenas celebrada, mas é a única forma de solucionar os problemas. Cada um, com seu background e sua história, contribui para o sucesso da missão. Não é essa, afinal, a promessa da diversidade nas empresas?
O fardo e a utopia
A série, com sua mistura de humor ácido e terror, às vezes, nos leva a uma reflexão sobre o burnout derivado da DI&E (diversidade, inclusão e equidade – e não morte em inglês). Explicando: quantos profissionais de RH e outros gestores se sentem exaustos, como Sísifo empurrando a pedra morro acima, na tentativa de implementar a diversidade em culturas organizacionais que resistem à mudança? O esforço é titânico.
A morosidade da aceitação, a falta de apoio da liderança e a percepção de que a transformação cultural é um processo lento podem levar a uma exaustão silenciosa. A equipe de “Evil” vive algo similar: eles enfrentam forças que parecem indomáveis, resistentes à razão e à lógica. No entanto, eles persistem. Porque sabem que a solução não está em um único ponto de vista, mas na interseção de todos eles.

Essa ideia me leva a uma viagem no tempo. Nos anos 1960, em plena Guerra Fria, a ficção científica ousou sonhar com um futuro utópico. Aí nasceu “Star Trek: a série original”. Ela nos apresentou a tripulação da USS Enterprise, uma equipe multiétnica e multirracial que incluía um japonês, um russo, uma mulher negra em um papel de comando (Uhura) e um vulcano meio humano que representava a lógica. Gene Roddenberry, o criador, foi ousado ao colocar uma mulher negra no comando de uma nave, à frente de seu tempo, mostrando que o futuro não seria branco e dominado por homens. Aliás, a atriz que a interpreta (Nichelle Nichols) deu o primeiro beijo interracial na história da TV norte-americana, tendo como parceiro o capitão Kirk (interpretado por William Shatner) – isso foi no episódio “Os enteados de Platão”, que foi ao ar em 22 de novembro de 1968…

E qual seria mesmo a missão da Enterprise?
“Ir audaciosamente onde nenhum homem jamais esteve” era o mote da abertura da série. Mas será que essa audácia, essa terra inexplorada, não poderia ser uma empresa na qual a diversidade fosse plena e natural? Onde a diversidade não é uma meta a ser atingida, mas a essência do negócio? Talvez, a utopia de Star Trek não seja tão distante assim, mas requer que, como em “Evil”, tenhamos a coragem de misturar fé e razão, tecnologia e intuição, para enfrentar os desafios de nosso tempo.
Por isso, neste fim de semana, desligue-se do relógio. Mergulhe na tensão de “Evil”. E, entre um exorcismo e outro, reflita sobre como a diversidade, em sua forma mais caótica e imprevisível, é a ferramenta mais poderosa para construir um futuro, e uma empresa, em que a utopia não seja apenas um sonho, mas uma realidade.
E, para finalizar, como diria Spock: “vida longa e próspera”!
Onde assistir
Você pode encontrar a série "Evil" no canal da Paramount+ e Globoplay
