O que algumas reflexões sobre IA acabam gerando…
Misture o jovem centauro Newton, um sátiro cheio de sabedoria, um mentor chamado Quíron, um filósofo de nome Hobbes e outro de Rousseau. Salpique um pouco de Jasão, acrescente uns hippies e coloque IA agosto e leve ao fogo no CONARH. O que é vai dar?
Creio que deve ter sido pelo fim dos anos 1970 e inicio dos 1980, no máximo, que um jovem centauro aparecia na TV brasileira para nossa diversão. Talvez tenha sido a primeira vez que pude ver um ser mítico como aquele, mas com nome de gente ligada à ciência pura: Newton. Creio que só vi outros anos depois, em reprises de “A nova aventura de Simbad”, filme de 1973, ou no bom e velho “Jasão e os argonautas”, de 1963 – na verdade, aparecem tantos seres estranhos neste que, acredito de pés juntos, que um ser meio homem e meio cavalo deve ter aparecido.
Mas voltemos ao nosso Newton, o pequeno centauro alegre, grande amigo de Hércules (o protagonista do programa que se chamava… “O poderoso Hércules”, por óbvio), e que tinha a mania de repetir suas falas. Sim, ele fazia isso. E pensei nele durante a palestra “IA: impacto na gestão de pessoas e nos resultados”, no primeiro dia do CONARH. Ou melhor, imaginei uma geração toda de Newtons!
Explico: em um dado momento da conversa, Mauricio Garcia comentou sobre a Geração Centauro que está por vir – se é que já não se encontra entre nós. São aqueles profissionais que terão a tecnologia, a bem dizer, como extensão do corpo. Não, não é sobre Steve Austin, o homem de US$ 6 milhões da série antiga de TV. Os Newtons desse novo alvorecer da vida humana serão os mais adaptados a lidar com a tecnologia como parte de si no seu trabalho. Metade razão, metade emoção. A pergunta é: com tanta mudança, quem será a metade razão e quem será a emoção?
Conjecturas à parte, a conversa me tirou desse ambiente de questionamentos com algumas observações de Anna Flavia Ribeiro. Talvez ainda entorpecido pelos devaneios mitológicos, lembro que ela falou sobre hippies, Woodstock, visão apocalíptica e definição de propriedade. Colocando meus neurônios para deixarem de lado as sinopses e focarem na produção de sinapses, vou tentar costurar tudo isso. Vamos lá.
O senso de comunidade e a relação com o conceito de propriedade dos hippies chama a atenção. Tudo é do grupo. A organização do evento, que se transformou alguns dias num imenso tobogã de lama (Woodstock), mostrou esse senso do construir algo para todos, na experimentação (será que estou inebriado com alguma substância daquela época e errei a análise?). Por isso, ela defende que sejamos todos hippies para experimentar (não as substâncias!), ou melhor, testar projetos e ideias em pequena escala, quando o tema é IA, para aprender logo com os erros e aprimorar para voos maiores.
Ecoando o Umberto
Há quem diga que os voos futuros da IA tendem a trazer alguns estragos. Eita visão apocalíptica! A tecnologia é meio, não um fim em si mesma e vai depender muito de quem as “promptei-as”. E ela tem ajudado muitos RHs, muitas empresas e muitos jovens como o Newton a entregarem trabalhos escolares em dia, nos quais a máxima “um fez e os outros só colocaram o nome” mudou para “ninguém fez e a IA colocou o nome de todos”. A visão do copo meio cheio em relação ao nosso futuro pode ser chamada como uma manifestação dos “integrados” (pelo amor de Deus, não são integralistas – isso é outra história que não convém aqui). Lembrei do livro de Umberto Eco (“Apocalípticos e integrados”, de 1964), no qual ele analisa dois grupos em relação à cultura de massa. Os primeiros vendo o copo meio vazio e vazando, os segundos com o copo meio cheio e com a esperança que vão trazer mais vinho…

Pai é quem cria?
Não sei se caminho no texto com a propriedade devida, vou pedir para Anna, em uma futura entrevista, avaliar. Mas preciso fechar essa parte com a questão da… propriedade. A IA é de quem? OpenAI? Ok, eles têm a marca, a patente, o projeto etc. etc. Mas é partir de qual base em que ela se “inspira”, aprende, tem alucinações? Sim, no legado humano, criado, difundido e recriado há anos e anos e mais anos. Queremos uma parte nesse latifúndio. A IA também é nossa. Temos de entender isso, até para nos envolvermos mais com ela, para aprender a lidar com esse novo ser que pode ser tanto um coreano simpático que ajuda uma garota que não enxerga bem (na série “Holo”) ou um colega de trabalho focado na missão, não importando ter de eliminar os humanos da nave para atingir os resultados. Diga “hello” para HAL 9.000. Assim, quando alguém diz “isso é meu”, temos de pensar muito a respeito.
Finalmente, sem ter citado antes, mas tão importante quanto, veio o relato de Thamires Souto, que mostrou que o relacionamento entre RH e TI pode ser muito bom e profícuo, deixando claro que é possível se aventurar no maravilhoso mundo veloz da tecnologia quando se em essa parceria. Ou um mentor, como ela se referiu ao colega de firma. Ufa!

Dando nome aos bois. Ou centauros
Curiosa toda essa amarração. O jovem Newton, o centauro amigo, é da geração Baby Boomer, uma vez que devia ter uns 10 anos no seriado, que foi lançado em 1963 nos EUA e no Canadá. Mas continuemos nessa espécie. Os centauros, dizem quem os conheceram, eram brutos, bravios e outros atributos similares. Talvez ainda existam alguns. Veja na sua empresa se logo no inicio da jornada de trabalho um coleguinha substitui o tradicional “Bom dia” por um coice. Esse é o centauro raiz, metade idiota e metade besta.
São pessoas assim que mostram que o estado de natureza do homem está muito mais para o que pensava o filósofo inglês Thomas Hobbes do que o que imaginava o genebrino Jean-Jacques Rousseau. Só para entender: estado natural ou estado de natureza era uma forma de mostrar como era a vida do homem antes da sociedade. Para Hobbes, era um caos, tanto que ele afirmou que nesse cenário “o homem é o lobo do homem˜. Para o outro filósofo, a vida era uma maravilha, tanto que ele traduz esse homem em estado natural como “bom selvagem”.
A coisa muda de figura, segundo Rousseau, quando um indivíduo resolve cercar uma área e dizer “Isso é meu”. Ele explica bem essa passagem em um livro que trata da origem e fundamentos da desigualdade entre os homens. Com a ideia de propriedade, o homem passa a cobiçar mais para si e a vida vira um inferno.
Será que ao definir que a IA é só de uma ou outra empresa, sem nos apoderarmos dela, fazermos bom uso, tendo a clareza de que a alimentamos, podemos cair em um novo estado de natureza, no estilo hobbesiano? Sem essa participação ativa e ética, podemos sim transformar a vida em um inferno de Dante. Imagine aqueles centauros meio idiotas e meio bestas à frente desse movimento?

Correndo por fora na curva
Bem, na verdade, havia um centauro que era quatro patas fora da curva: Quíron. Gentil, extremamente inteligente e justo, acabou sendo mentor de personagens como Hércules e Aquiles, por exemplo. Mentor e não coach, pois coach vem de diligência e os cavalos não as conduzem (infame essa).
Olha a importância de ter alguém que nos ajude a crescer! O mentor de Thamires é um Quiron! É a prova de que a união entre o humano e o não humano pode sim dar muito certo.
Embora fosse imortal, Quíron acabou virando literalmente estrelinha. Sem querer foi atingido por uma lança (Hércules foi quem cometeu a ação culposa). Sofrendo com a ferida, regou a Zeus que o livrasse daquele martírio. E assim fez o deus dos deuses gregos. E o bom centauro ficou conhecido como o ˜curador ferido”, e esse é um conceito bem interessante se pensarmos no CONARH.
Em psicologia, o terapeuta (curador) precisa entender e tratar suas feridas para ter uma melhor compreensão da dor do outro ou ao menos não se deixar envolver por ela. É talvez, um grande exercício de empatia que ajuda a resolver conflitos e tornar um ambiente menos doentio, no caso das empresas.
Ou seja, Quíron é o líder que desenvolve outros líderes, que é vulnerável, que também sente dores e procura “curar” alguém, desenvolvendo uma forte competência empática!
Calma! Tem mais um pouco
E é esse o tema que Antonella Satyro nos traz em sua palestra “Grandes líderes curam. Pessoas também curam”. Esse quíron corporativo, que foi surgindo aos poucos, em meio a uma trama de ligações aparentemente esquisitas, a referências um tanto malucas, mas que nos fazem pensar. E por falar nessa espécie de “ligue os pontos”, não podemos deixar de lado os sátiros, pegando como gancho o sobrenome de Antonella (que espero me perdoar por isso).
Na mitologia grega, os sátiros eram seres da natureza, travessos, animados e adoravam uma boa diversão – para resumir. Muito ligados ao deus Dionísio (Baco, na mitologia romana), não escondiam um certo lado selvagem que possuíam. Eram metade humano e metade bode. Nos filmes de Percy Jackson, é o amigo e protetor fiel do herói. O próprio deus do vinho tinha um sátiro como mentor, chamado Sileno.
Ele era uma espécie de Quíron, mas metade bode. Era o mais velho de todos e extremamente sábio.
Em algumas histórias, Sileno é capturado pelo rei Midas (louco para ter essa fonte de sabedoria ao seu lado), em outras, o velho sátiro perde-se numa floresta e é acolhido pelo rei. Assim que Dionísio o reencontra, resolve conceder, como sinal de gratidão, um desejo ao monarca. E o que o abençoado pede? Que tudo o que ele tocasse virasse ouro.
Bem essa história você deve conhecer, mas é muito educativo para termos uma medida da nossa ambição, da sabedoria que deve nos acompanhar e, trazendo mais um ponto deste pequeno texto, de quão importante é termos consciência do que é nosso, do que ajudamos a produzir e de como usamos tudo isso. Sim, estou falando dessa tal IA, esse ser não humano que vai nos complementar cada vez mais.
