O que 20 anos de CONARH ensinam…
…sobre a alma humana e a do próprio RH (1)
Aquela cena do clássico “2001: uma odisseia no espaço”, em que um macaco descobre que o osso pode ser uma ferramenta, veio logo à minha mente. Resolvi vasculhar baús, pastas e memórias para encontrar algo que trouxesse à tona um pouco do que vivi e aprendi em 25 edições do CONARH (a 26ª é a deste ano).
Não encontrei nenhum osso nessa jornada, mas sim muitas anotações, fitas k-7 (jovens, procurem o que isso significa com uma IA da vida), e um bom número de revistas que editei por anos (eram a publicação oficial da ABRH Brasil). Também tive conversas com um e com outro… e assim, foi possível ir montando um verdadeiro esqueleto.
Faltam partes? Sim, mas com o que consegui, dá para deixar o corpo em pé, como aqueles esqueletos expostos em laboratórios de biologia de filmes americanos com jovens colegiais alucinados. E o que essa forma me diz com aquele sorriso enigmático? Tentei entabular uma conversa imaginária, buscando algo que tenha transcendido o tempo, temas que tenham marcado presença no maior evento de gestão de pessoas de 2005 para cá.
De tantas indagações, até pensei que aquele esqueleto diria algo como: “Dave, essa conversa ainda faz sentido?”, lembrando o caso de HAL 9.000, o supercomputador do filme de Stanley Kubrick. Mas, na verdade, o HAL real foi mais cruel: “Dave, essa nossa conversa não faz mais sentido”… Ai daquele amontoado de ossos se me dirigisse tais palavras!
Faz e fez todo o sentido. E não para por aqui. Conversar com o passado é a melhor forma de compreender os caminhos e as bagagens que já foram úteis, mas que agora apenas pesam nessa nova e longa estrada da vida.
E veja como lembrar do passado é interessante: se você tem mais de 50 anos, a música “Estrada da vida”, da dupla sertaneja Milionário e José Rico, provavelmente veio à sua cabeça. Perceba o quanto a composição, do fim dos anos 1970, está associada a um estilo musical que hoje tem uma pegada diferente. E a tecnologia da época, o rádio AM, já é peça de museu, sem contar que as músicas eram pedidas por meio de telefonemas a partir dos “orelhões”, munidos de fichas telefônicas.
Nessas quatro décadas, tivemos mudanças culturais e tecnológicas, por exemplo. Mas a essência da letra de “Estrada da vida” permanece. E por quê? Porque é algo essencialmente humano. Assim, ao buscar uma linha do tempo dos temas mais frequentes do CONARH, tenho consciência e segurança de dizer ao amigo esquelético que sim, essa conversa com o passado vale muito a pena e faz todo o sentido. Para quem gosta de gente, acompanhar essa breve história, esses lampejos de memória e lembranças, será uma aventura que merece ser ampliada.
Por exemplo, uns sete anos antes, em 2005, as discussões sobre a “guerra por talentos” ainda estavam nas rodas de conversa e nos eventos. Digo sete anos, tendo como base a publicação do artigo da McKinsey em 1998, que em 2001 foi republicado com mais pesquisas, mas em formato de livro.
Ao meu lado, Thaeobaldvs Paschoalvs, um homem de meia-idade que viveu na Idade Média, com poderes de viajar no tempo, se animou com essa aventura e tomou o tema para uma breve comparação. “Vejo que, em 2005, vocês discutiam a ‘guerra por talentos’. Em 1450, isso seria como o ‘torneio dos melhores ferreiros’ para disputar quem forjaria a espada mais afiada do reino”, disse. “Em 2019, vocês falavam em ‘humanize’, o que na minha cabeça seria o mesmo que um bardo cantando uma canção sobre a importância de dar um ‘bom-dia’ para o cavaleiro antes da batalha. Fascinante!”.
E é isso. Uma jornada que começa com departamento pessoal e termina com inteligência artificial, mas que, no fundo, no fundo, sempre foi sobre pessoas. E a graça é que, por mais que a gente mude o nome, a sigla, a tecnologia, o desafio de entender o ser humano continua o mesmo.
Vamos, então, mergulhar nessa história. Nos próximos textos, vou desvendar como a gente saiu do “papel estratégico” para a “capacidade humana”, da “guerra por talentos” para o “paradoxo do trabalho remoto”, da “liderança pelo exemplo” para o “líder conector”, e do e-RH para os algoritmos inclusivos. E, claro, como fomos em busca de propósito e bem-estar, em uma jornada que nos levou do “cabeças, mentes e corações de obra” para o #humanize.
É a nossa história. A história de como o RH, com seus acertos, erros e, convenhamos, muita paciência, tentou humanizar o trabalho, mesmo quando a gente nem sabia que essa era a missão. E o mais intrigante de tudo? É que, depois de 20 anos, essa história continua sendo escrita.
“Espere: mas afinal, o que é o CONARH? Me parece uma espécie de ‘concílio dos sábios’ para discutir o destino das tribos modernas…”
É mais ou menos isso, Thaeo, mais ou menos isso e muito mais, meu amigo…
Daqui, vamos partir em uma viagem para o passado e entender como o RH se transformou, saindo do DP para se tornar o cérebro da empresa.
