fora da curva

Mindfulness, S.A. (Sociedade Anônima… ou de Assassinos?)

Uma reflexão com humor sobre como a série “Assassino zen” pode ser o melhor (e mais perigoso) consultor que seu RH não pediu

Imagine um advogado talentoso, mas esgotado pela pressão do trabalho e da vida pessoal. Para salvar seu casamento e sua sanidade, ele aceita a sugestão da esposa e vai para um curso de mindfulness. O resultado? Ele não apenas encontra o equilíbrio, mas se torna um profissional mais do que eficiente, focado, capaz de criar ilhas de tempo para a filha Emily e, para além disso, transforma-se em… um assassino calculista que resolve seus problemas de forma definitiva. Mas sempre focado, com a mente em atenção plena, frise-se.

Essa é a base da série alemã “Assassino zen” (no Brasil ou “Achtsam morden”, em alemão, algo como “Assassinato com atenção plena”, em tradução livre), que está na Netflix. Sim, ela tem um toque de humor negro alemã que, por trás de uma sátira ácida, aborda como uma das tendências mais celebradas do mundo corporativo (o mindfulness) pode ser usada de formas mais “fora da caixinha”. Que os especialistas em atenção plena me perdoem, mas os trechos em flashback dos aprendizados de Björn Diemel (interpretado por Tom Schilling), o advogado, são dicas fantásticas para quem quer focar somente no que interessa. E por falar em foco…

…voltemos ao que interessa: a série funciona como uma alegoria poderosa e nos obriga a perguntar: estamos realmente promovendo o bem-estar para alguém sobreviver em um ambiente tóxico no trabalho ou criando pequenos “assassinos zen”, aquela pessoinha que, numa empresa, usa técnicas de atenção plena para combater o mesmo ambiente tóxico por meio de outras toxinas?

Incorporados ou integrados?

O tema saúde mental saiu debaixo do tapete corporativo durante e, especialmente, depois da pandemia de Covid-19. Muitas pessoas foram estimuladas por suas organizações a praticarem yoga, por exemplo, mediadas pela tela do computador. O objetivo era nobre: manter o corpo e a mente sãos. Com o retorno ao modelo presencial de trabalho, surgem duas questões importantes: como dar prosseguimento a essa preocupação com a saúde mental dos colaboradores e o que fazer com o tapete (não vale dizer “enrolar um corpo nele”, isso é clichê cinematográfico).

A primeira questão tem uma base, obviamente. Dados de consultorias globais, como a McKinsey e a Gallup, revelam que os índices de burnout, ansiedade e estresse dispararam a partir de 2020. Com o passar do tempo, vimos crescer investimentos em programas de bem-estar – mas será que ainda são pontuais? Paralelamente, brotaram aplicativos de meditação, sessões de terapia online e workshops de mindfulness – que foram devidamente incorporados (melhor, “integrados” para não gerar pensamentos maliciosos em relação ao termo “corpo”) aos pacotes de benefícios.

E é por isso (não pelo “corpo”) que sátira do “Assassino zen” funciona aqui: ela nos alerta para o risco da superficialidade que pode ser criada a partir desses temas. O protagonista da série não usa a atenção plena para se tornar mais empático ou consciente. Ele a transforma em uma ferramenta de otimização pessoal, um “life hack” para se desapegar emocionalmente das consequências de seus atos e executar tarefas desagradáveis com máxima eficiência. A pergunta que fica para o RH é: qual é a nossa verdadeira intenção?

Dados de consultorias globais, como a McKinsey e a Gallup, revelam que os índices de burnout, ansiedade e estresse dispararam a partir de 2020
É muita pressão: dados de consultorias globais, como a McKinsey e a Gallup, revelam que os índices de burnout, ansiedade e estresse dispararam a partir de 2020

Mindfulness com foco desfocado

Quando um programa de bem-estar é implementado sem uma mudança cultural genuína, ele corre o risco de se tornar um tipo de placebo corporativo. Oferece-se uma ferramenta para que o colaborador segure as pontas, seja mais resiliente, em vez de consertar a causa do problema. Leia-se sobrecarga de trabalho, uma liderança despreparada ou a falta de segurança psicológica.

Por curiosidade, façamos algumas contraposições para refletir se a arte imita a vida. Assim, devemos:

  • gerenciar o estresse ou ignorá-lo? A atenção plena real ensina a acolher os sentimentos. A versão distorcida ensina a se dissociar deles para manter a produtividade.
  • resolver conflitos ou eliminá-los? O personagem Björn Diemel simplesmente remove os “obstáculos” (pessoas) de seu caminho. No mundo corporativo, isso se traduz em evitar conversas difíceis, ignorar feedbacks e isolar-se para não ser “contaminado” pela negatividade.
  • focar no presente ou se alienar do futuro? O foco no “aqui e agora” (termo que lembra um antigo programa de TV ancorado na maior parte em tragédias) pode ser mal interpretado como um convite para ignorar as consequências a longo prazo de um ambiente de trabalho insustentável.

O resultado é a criação de um colaborador que, apesar de ter uma carinha de santo, de calma e de mestre zen em campeonato de mindfulness, pode estar operando em um modo de sobrevivência altamente funcional, mas profundamente desumanizado. Mas calma…

… muita calma nessa hora e agora entra o RH

Isso: respire fundo. Sinta o ar entrando pelas narinas. O pessoal de RH parece estar mais atento a essas questões e tem ferramentas para exterminá-las (digo, “minimizá-las”, pois o outro verbo não parece ser apropriado – embora o seja). Quer um exemplo de como esses profissionais de recursos humanos podem construir um ambiente à prova dessas tentações ou mal usos da atenção plena? Basta ver que o debate sobre saúde mental estratégica e liderança humanizada, alguns dos temas principais do maior evento sobre gestão de pessoas e RH da América Latina. Pensou no CONARH? Acertou! Na programação deste ano temos debates sobre:

  • a conexão direta entre uma liderança humanizada e a saúde mental das equipes;
  • a construção de ambientes de trabalho com segurança psicológica real;
  • estratégias para ir além do discurso do bem-estar, implementando políticas efetivas de gestão de carga de trabalho, flexibilidade e desenvolvimento de líderes empáticos.

Isso mostra que a discussão amadureceu e pode amadurecer mais. A pauta deixou de ser apenas sobre “gerenciar o estresse” e passou a ser sobre “criar culturas que não adoeçam seus colaboradores”. E ambientes físicos de trabalho também (ainda mais no êxodo do home office só para o office): uma dica interessante é assistir às entrevistas que faço com o pessoal da Office Connection com o pessoal de arquitetura corporativa. O avanço da neuroarquitetura nos projetos é fantástica!

O pessoal de RH parece estar mais atento a essas questões e tem ferramentas para exterminá-las
O pessoal de RH parece estar mais atento a essas questões e tem ferramentas para exterminá-las

Chegando no ponto final, no bom sentido

“Assassino zen” nos faz rir (às vezes discretamente, às vezes não) e nos força a refletir sobre a qualidade e a profundidade das iniciativas de bem-estar. O objetivo final não pode ser a criação de funcionários que meditam para suportar o insuportável ou para tornar a vida de outrem assim. E se começássemos a pensar com mais frequência em usar o mindfulness e outras ferramentas como parte de uma estratégia maior? Isso: colocar em prática processos revisados, treinar líderes para serem mais empáticos e, acima de tudo, ouvir ativamente as pessoas?

Que as empresas sejam cada vez mais espaços de desenvolvimento e realização, não apenas arenas de alta performance. Afinal, o objetivo é ter colaboradores no ponto (ahá!) e colocá-los no ponto final de sua humanidade.

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