quem faz

Um festim de hipocrisia e agradecimentos vãos

Quando teremos, afinal, uma justa corporativa nas redes sociais, em especial na guilda que “linka em”?

Por Thaeobaldvs Paschoalvs

A época de vocês, caros amigos do século 21, é algo fenomenal. A começar pelo conceito de tempo que, quando temos tempo livre para pensar sobre ele, é tão vago e incerto quanto as poesias de um trovador depois de umas boas canecas de cerveja na pior taverna do reino lá de casa. Vejo que aqui vocês costumam se encontrar em redes imaginárias, que chamam de digital. Para nós, o point (depois me informaram que “point” é cringe) eram as guildas onde nos reuníamos para trocar experiências, apresentar currículos e falar um monte de coisas. Vocês vivem “linkados” (que não é cringe, mas acabaram de me informar que “cringe” já é cringe), como me disseram, em um grupo que “linka em”. Para mim, esse verbo “linkar” está mais para “pendurar” ou “prender”, e vem a minha mente a imagem dos pobres coitados que viviam esquecidos nas masmorras, pendurados por correntes.

Ah! Os elos que nos unem nesse manancial de posts! Acompanho, com interesse, alguns dos comentários mais comuns dessa masmorra corporativa da qual vocês fazem parte. Escritas com loas e mais loas a uma empresa da qual os autores se veem livres! Pessoas que, depois de muita labuta (e muitas vezes pouco reconhecimento), proclamam sua “libertação” com hinos de gratidão tão falsos quanto o sorriso das moças nos quadros da Idade Média (lembrando que a higiene oral daquela época era um conceito sem clareza). Por ter meu olhar treinado nas trevas da Idade Média, e em outros períodos da história, pergunto a partir dessa pantomima de agradecimentos: onde jaz a verdade?

Vamos pensar um pouco, aproveitando bem esse horário de almoço que você usa para verificar se há alguma vaga de emprego em outra empresa nessa rede que “linka em”. Depois de muito tempo servindo a seus “senhores” (ou “líderes”, como preferem chamar), tais trabalhadores virtuais anunciam, com pompa e circunstância, que um “ciclo” se encerrou. Eu diria que é um ciclo tão natural quanto a roda do suplício, capaz de extrair verdades que jamais pensaríamos existir nos tribunais do Santo Ofício. Após um breve balanço, a narrativa que se sobressai desse festival de autoengano, dessa cantilena nauseante contém:

1. “Sou grato(a) pelos anos de aprendizado.”

Aprendizado? Sim, muitos aprenderam a se curvar diante da vontade e das idiossincrasias de seus superiores. Aprenderam que engolir sapos maiores que seus salários era algo natural e sinônimo de sobrevivência. Aprenderam a sorrir enquanto eram fustigados pelos chicotes das metas inatingíveis. Nada melhor do que elas para os tirarem da zona de conforto, não?

2. “Levo comigo conexões valiosas.”

Tão valiosas, em alguns casos, como o material úmido que fertiliza os campos de um senhor feudal, para garantir o pagamento da corveia, da talha e das banalidades (depois usem essa tal IA para descobrir ou relembrar o que são – RH no Ponto também é cultura, mesmo que inútil). Não havia IR na época, os leões eram mais associados a alguns nobres, em especial aos ingleses e à casa dos Lannisters. Conexões criadas e forjadas no fogo da competição mesquinha entre colaboradores, na luta por um lugar ao sol (se a melhor mesa no escritório for perto da janela), numa incessante bajulação.

3. “Agradeço à liderança pela oportunidade.”

Ah! Essa síndrome de Estocolmo! Agradecem a seus algozes por lhes permitirem o privilégio de sustentar suas famílias com migalhas, de trocar sua força de trabalho por promessas vazias, de consumir suas vidas em prol de lucros alheios. Mas a cultura e os valores da organização se mantêm firmes e fortes nas abas de “Quem somos” dos sites e nos quadros na recepção…

Tomas de Torquemada (1420-1498) sabe se lá se está benzendo ou repreendendo os reis católicos Fernando II de Aragão e Isabel de Castela

E os colegas? Ah, a “equipe incrível”, o “time afinado”! Como se fossem instrumentos. Bem, de fato eram instrumentos usados para atividades nem sempre tão nobres em função de prazos apertados e um resultado financeiro mais que utópico… Times tão incríveis quanto a irmandade de flagelantes, que ficavam a vagar pela Europa com um chicote na mão e as costas à mostra – alvo predileto dessa turma. Sempre há um chicote quando falamos de trabalho? Equipe tão coesa quanto um bando de lobos famintos disputando um osso. Não quis usar “alcateia” para ser mais claro. Não há, nesses posts, nenhuma menção àquele indivíduo que puxava o tapete, ao fofoqueiro que espalhava veneno, ao incompetente que deixava o trabalho para os outros. Todos transformados em santos no altar da hipocrisia corporativa.

O chefe, então, ascende a um patamar quase divino. De déspota cruel a mentor iluminado, de tirano mesquinho a guia sábio, ele sempre é lembrado. Onde está aquele que espremia seus subordinados até a última gota de sangue, suor e lágrimas? Cadê o Torquemada corporativo que assombrava os corredores e que, por sorte, nunca ouvia alguém dizer “O boss tá chegando”? Aquele que roubava ideias e as apresentava como as dele? Aquele que punia qualquer sinal de insubordinação com a ira de um deus vingativo de uma religião de um povo desconhecido para qual tudo valia para amedrontar os mortais? Banidos dessa narrativa, esses leviatãs corporativos se transformam em anjos no purgatório da guilda que “linka em”.

E o motivo da partida? Jamais será a exaustão, o Burnout, a injustiça, o salário vil de poucas moedas, o ambiente tóxico, a demissão disfarçada de “reestruturação”. Não, nunca será isso. O ciclo se encerra porque… bem, porque tinha de se encerrar. Como o tempo que escoa, como a esperança que morre, como a roda que gira. Ah! A roda da Fortuna que nos traz os altos e baixos… Dizem que ela gosta dos jovens e intrépidos. Seria isso um aceno para as novas gerações?

E temos a Revolução Industrial para trazer neste texto! Vejo ecos de sua brutalidade neste mundo mais virtual do que real. Aquela exigência de dedicação implacável, a mesma desumanização sutil, a mesma máquina moendo vidas em nome do progresso. As fábricas com seus teares infernais e seus capatazes sádicos encontraram um lar no vale siliciano, com seus algoritmos oniscientes e seus líderes “inspiradores”. Também quero uma garagem para chamar de minha!

E o que dizer da fantasia da “família corporativa”? Essa falácia grotesca que transforma o local de trabalho em um lar. Que pecado comparar uma família a uma equipe de trabalho. Podemos falar dos abusos sexuais que acontecem em algumas famílias e transpô-los para as empresas? Não responda! (Me informaram que isso se chama assédio sexual…). Essa empresa/família em que a exploração se disfarça de cuidado, a competição se veste de companheirismo, e a demissão é apenas um “até logo”, mas um logo longo (o chamado “loló”). Como se os senhores feudais ou donos do meio de produção (me informaram que isso é muito marxista e que estamos em uma época de polarização), digo, donos de teares se preocupassem com o bem-estar dos funcionários ou vassalos além do mínimo necessário para mantê-los produtivos.

Compreendo a estratégia desses textos elogiosos, é claro. Ninguém queima pontes (mesmo que estas sejam feitas de ilusões, a não ser as pontes de madeira para impedir a entrada dos visigodos no reino). O fosso que circunda o castelo é fundo e possui jacarés – e a tal ponte (no caso, a levadiça) se faz necessária! Ninguém revela a amargura, mesmo que esta seja a única verdade. Pois temos de ser fortes e resilientes! É a etiqueta corporativa deste mundo digital: finja ser feliz, pois a felicidade é uma obrigação de todos (e “ai” daquele que não a encontrar). Sorria mesmo que sua alma grite em agonia silenciosa. “A vingança é um prato que se come frio”, você pode pensar. Mas seu vale-refeição é suficiente para comprá-lo?

Mas calma, pois nem tudo são trevas e amargura. Não é sempre o vale de choro e de ranger de dentes! Ouso sonhar com um dia em que a verdade vai aparecer no jardim da falsidade com mais frequência e força. Sonho sobre o dia em que os trabalhadores virtuais vão, finalmente, se libertar das correntes da hipocrisia e narrar suas experiências com a crueza de um cronista medieval sobre a Guerra dos Cem Anos. Afinal de contas, o feedback não deve ser de mão dupla, como nas justas que ocorriam nos períodos de festas e festivais? Um cavaleiro cavalgando em direção a outro, com sua lança na mão… O propósito universal corporativo não inclui transparência?

Alguns dão as caras, provocam espantos, mas depois somem, reforçando que a vida digital é muitas um espelho distorcido da realidade, um teatro de sombras em que a mentira reina e a honestidade é vista como as pústulas da peste.

Resta-me, como um observador da loucura humana, enrolar meu pergaminho digital, celebrar os ciclos imaginários e fingir que acredito em cada palavra de tais mensagens. É o jogo. E todos somos mestres na arte da dissimulação ou aprendizes dela – seja para escrever tais peças ou para lê-las. Que os deuses nos perdoem por nossa hipocrisia. E que nos concedam a graça de rir da nossa própria desgraça.

Thaeobaldvs Paschoalvs, illustrissimi et sapientissimi senior humanis opibus caput, optimum in omnibus (omnino realiter), callidus et incredulus, pura ratione et pura passione, desinit hic, é colunista bissexto e observador mordaz que nada tem a ver com o outro autor do site. A semelhança fenotípica é uma prova poderosa da nossa ancestralidade comum e do fato de que a variação genética humana, embora diversa, é distribuída globalmente através de milênios de migração e fluxo gênico.

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