Alexa, traz todo mundo de volta!
Decisão do CEO da Amazon joga mais lenha na fogueira das discussões sobre quais são os modelos ideais de trabalho: 100% remoto, 100% presencial ou híbrido
“Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Andy Jassy encontrou-se em sua cama metamorfoseado num CEO monstruoso.” Calma, essa abertura de texto à moda do livro A Metamorfose, escrito por Franz Kafka, é mais apropriada na voz de alguns funcionários da Amazon logo depois de receberem o aviso de que deveriam voltar ao trabalho no escritório cinco dias por semana.
Talvez, até, possamos dizer que, “certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Andy Jassy, o CEO da Amazon, resolveu dar um comando: ‘Alexa, traz todo mundo de volta para o escritório!’”.
Seja como for, talvez possamos colocar Andy nos grupos abaixo:
1. dos 83% dos 1.300 CEOs ouvidos pela KPMG que acreditam que até 2027 haverá um retorno total aos escritórios, e/ou…
2. … dos 4% apenas dos CEOs dos EUA que estão priorizando trazer os trabalhadores de volta em tempo integral, de acordo com uma pesquisa recente do Conference Board.
UPS e JPMorgan Chase também são exemplos, lá de fora, de empresas que estão chamando de volta para o office sweet office seus funcionários.
Andy acertou no chamado? Embora ao que parece isso vai ser para valer em 2025 (veja mais abaixo, bem abaixo, o texto Fala, Andy!)
A questão é: desde a pandemia, como tem sido lidar com o trabalho remoto? No fim deste texto há um apanhado de algumas pesquisas, que parecem mostrar que a flexibilidade entre casa e escritório parece que veio para ficar (veja mais em Rastreie seu pedido, digo, as pesquisas). E aqueles que devem voltar 100% presencialmente tendem a sair…
Antes, porém, e aproveitando a Amazon, qual é a devolutiva (brincando com a devolução de produtos, sacou?) dos funcionários em relação àquela decisão? Vários deles utilizaram um canal interno no Slack para manifestar seu descontentamento, de acordo com uma matéria da Business Insider. Há também o relato de um engenheiro de desenvolvimento de sistemas da Amazon que, diante da chamada, colocou no LinkedIn que estava aberto para trabalhar naquela rede social profissional. Ele preferiria voltar a estudar do que enfrentar um escritório cinco dias por semana.
Ou seja, há sinais claros de descontentamento. Um relatório da Katz Graduate School of Business da Universidade de Pittsburgh, dos autores Yuye Ding e Mark Ma, mostra que esse regresso não trouxe mudanças significativas no desempenho financeiro ou nos valores da empresa após as ordens de retornar ao escritório. Havia uma perspectiva de que a cultura e os valores também seriam reforçados com isso. Na verdade, o que os dois descobriram sugere que esses pedidos de volta impactaram negativamente a satisfação das pessoas. Para o estudo, eles avaliaram empresas do S&P 500.
E por que esse interesse tão grande de ter os colaboradores tão perto e por tanto tempo no escritório? Segundo os autores acima, os gerentes que enviam esse “chamamento” o fazem para “reafirmar seu controle sobre os funcionários e culpar os funcionários como bode expiatório pelo mau desempenho da empresa”.
Maldade?
Vale lembrar que em janeiro deste ano o Gartner divulgou uma pesquisa que mostrava que o pessoal de alto desempenho, as mulheres e a geração Millennial eram os grupos mais propensos a deixar o emprego caso fossem obrigados a voltar para o escritório da firma. Os colaboradores de alto desempenho viam nesse “convite” uma espécie de desconfiança sobre o desempenho deles de casa. Mesmo que já tivessem demonstrado que eram de alto desempenho…
É, o híbrido ainda tem força e vantagens. E alguns obstáculos.
Nos EUA, por exemplo, 65% das empresas já oferecem flexibilidade no local de trabalho, de acordo com um relatório do Flex Index, da plataforma de trabalho híbrido Scoop, divulgado no início deste ano (dado relativo a 2023). Isso representa um aumento de 14 pontos percentuais em relação ao índice verificado em 2022. Entre as organizações com menos de 500 funcionários, apenas 12% agora exigem trabalho em tempo integral no escritório.
Ainda segundo o relatório, o arranjo de trabalho flexível que mais cresce é o híbrido estruturado, que descreve empresas com expectativas específicas para o trabalho no escritório, como um número mínimo de dias ou dias específicos da semana no escritório. Ele é a norma para 32% das empresas naquele país.
Em 2023, diga-se, um levantamento da WFH Research mostrou que o tempo de trabalho de casa ficou estável em cerca de 30%. Essa acomodação é uma das bases para o híbrido. E este, por sua vez, traz alguns incômodos. O relatório Workplace Trends 2024 da Glassdoor, ajuda a explicar isso.
É que, agora e mais do que nunca, os líderes “devem ajustar a melhor abordagem para equilibrar os benefícios do trabalho presencial com os desejos de suas forças de trabalho”. Se não forem bem sucedidos nisso, podem perder seu pessoal para outras que o fazem melhor.
E vale lembrar que 73% dos gerentes híbridos e líderes seniores ainda não estão preparados para liderar equipes híbridas, de acordo com dados de uma pesquisa da Gallup… E 64% dos 3.500 executivos ouvidos pela Gartner em novembro do ano passado estavam preocupados em perder pessoas por causa dessa história de voltar para o escritório.
Talvez para dar uma espécie de tranquilidade a esse pessoal, o Gartner aconselhava que os arranjos híbridos ainda eram mais populares do que o trabalho totalmente remoto. E dava algumas dicas para que essa volta pero no mucho fosse sem traumas:
- a empresa deveria motivar a pessoa a voltar em vez de “obrigar” a ter seu corpo presente no escritório.
- pensar em eventos e atividades específicas que tornassem a participação dos colaboradores valiosa era uma boa ideia para fazê-los voltarem.
- outra dica era permitir que os trabalhadores ajustassem as condições de volta, pois outra pesquisa da Gartner já dizia que bons resultados para a empresa ocorrem quando os funcionários podem decidir seu horário de trabalho híbrido com suas equipes.
- e o principal: os líderes deviam fornecer uma razão clara por trás da volta ao escritório. O famoso porquê.
Assim como a Amazon, em março deste ano, a Dell passou por problemas similares de descontentamento – isso porque pedia para que seus funcionários estivessem no escritório três dias por semana, uma vez que (esse era o porquê da empresa), apesar do avanço das tecnologias colaborativas à distância, o contato pessoal é sempre bom para a inovação.
Agradar gregos e troianos é uma tarefa árdua. Responder se Andy acertou ao chamar o pessoal para o escritório cinco dias por semana significa dizer: depende. Depende da cultura, da estratégia… As empresas ainda batem cabeça sobre isso. E ainda bem, pois procuram se ajustar aos novos tempos.
Agora, me diga o que você responderia para as perguntas:
- A Amazon tomou a decisão correta?
- Se você fosse “convidado” a deixar seu trabalho híbrido para passar cinco dias por semana no escritório, você aceitaria?
Vamos lá!

Rastreie seu pedido, digo, as pesquisas
Uma breve compilação de como as conversas sobre os modelos de trabalho no pós-pandemia. Com direito a uma surpresa no fim…
2020, junho: uma pesquisa encomendada pela McKinsey com 800 executivos de oito países sugeriu que a crise com a pandemia de covid-19 poderia acelerar algumas tendências da força de trabalho que já estavam em andamento, como a adoção de automação e digitalização, aumento da demanda por contratados e trabalhadores temporários e mais trabalho remoto. Para se ter uma ideia, segundo o estudo: à medida que os trabalhadores não essenciais passaram para o home office, 85% dos entrevistados disseram que seus negócios aceleraram um pouco ou muito a implementação de tecnologias que permitiam digitalmente a interação e a colaboração dos funcionários. Zoom e afins.
A pesquisa contou, ainda, que a adoção de automação e IA se expandiu mais entre as empresas que tiveram uma mudança maior para o trabalho remoto desde o surto de covid-19: 80% disseram que aumentaram a automação quando transferiram a maioria de seus funcionários para o trabalho remoto durante a pandemia. Historicamente, em tempos de recessão, as empresas buscam formas de cortar custos e mitigar riscos. Para isso, costumam apostar na automação e na reestruturação de processos de trabalho, o que muitas vezes reduz a necessidade de empregos focados em tarefas repetitivas e rotineiras.
Em todos os setores, 15% disseram que pelo menos 10% dos funcionários poderia trabalhar remotamente dois ou mais dias por semana daquela data para frente. Antes da pandemia, eram 8% que imaginavam isso.
Ainda não estava em pauta ficar eternamente trabalhando de casa.
2020, agosto: outra pesquisa da McKinsey, realizada com 278 executivos, mas citada no artigo, revelou que, em média, eles pretendiam reduzir em 30% o espaço dedicado aos escritórios. Como consequência, áreas centrais das cidades podem enfrentar uma queda na demanda por restaurantes, lojas de varejo e até transporte público.
Mas sempre havia espaço para alguém…
Fevereiro de 2021: relatório O futuro do trabalho pós-COVID-19, da McKinsey, mostrava que entre 20% e 25% da força de trabalho nas economias avançadas poderia manter sua produtividade trabalhando de casa por três a cinco dias na semana. Isso representava uma grande mudança — de quatro a cinco vezes mais trabalho remoto comparado ao período pré-pandemia — e prometia transformar a geografia do trabalho. Com isso, empresas e indivíduos podiam optar por deixar as grandes cidades em direção a cidades menores. O que de fato aconteceu.
Algumas organizações, aliás, como lembrava o relatório, já vinham planejando essa transição para espaços de trabalho mais flexíveis, especialmente depois de constatarem os bons resultados do home office durante a pandemia. Esse movimento devia reduzir a necessidade de grandes escritórios, atraindo menos funcionários ao trabalho presencial diariamente.
2021, julho: no artigo O retorno ao trabalho presencial é como adquirir um novo músculo, o pessoal da McKinsey já dizia que cerca de 52% dos 500 altos executivos entrevistados defendiam o retorno quase completo ao escritório, com funcionários trabalhando presencialmente quatro dias por semana ou mais. A expectativa, para 90% era que os colaboradores trabalhassem no escritório pelo menos três dias por semana. Isso remete ao TQQ: terça, quarta e quinta.
E por que voltar? Algumas razões que os executivos deram foram:
- o senso de pertencimento e as conexões sociais foram impactadas negativamente com o trabalho remoto, especialmente entre os funcionários mais novos;
- as interações entre silos tornaram-se cada vez mais difíceis à distância;
- muitas mulheres deixaram e poderiam ainda deixar a empresa, aumentando a desigualdade de gênero;
- problemas de saúde mental, como angústia, ansiedade e esgotamento estavam aumentando em função da pouca interação presencial.
E o que os funcionários imaginavam? Em alguns casos, talvez a angústia, a ansiedade e o esgotamento fossem aumentar no contato tête-à-tête com aquele chefe chato, ou nas horas quase eternas no trânsito na ida e na volta da empresa, ou na perda de autonomia em ter o melhor horário para trabalhar já visto na história da humanidade. Tanto assim que mais de 40% dos funcionários temiam que seu envolvimento com o trabalho fosse menor após retornarem ao escritório, e uma parcela razoável estava disposta se demitir.
Já ouviram falar em grande resignação?
Para relembrar: foi um movimento de demissões em massa que começou a se espalhar pelo mundo a partir de maio de 2021. Esse fenômeno ganhou destaque especialmente nos EUA, mas também teve impacto em outros países, incluindo o Brasil. E por quê?
- muitos profissionais não estavam satisfeitos com empregos que não ofereciam condições adequadas.
- muitos estavam cansados de cargas horárias extenuantes e pressões no ambiente de trabalho.
- a pandemia levou as pessoas a refletirem sobre o que realmente importa em suas vidas e carreiras.
e…
- … o home office possibilitou que profissionais buscassem oportunidades em qualquer lugar do mundo, em busca de melhores condições e salários.
2021, dezembro: a KPMG mostrava que 52% das empresas tinham a intenção de trazer de volta seus colaboradores ainda naquele ano. Outras 40% iriam promover a retomada no primeiro semestre do ano seguinte e os 8% restantes tinham planos para o segundo semestre de 2022.
2021, dezembro ainda: uma pesquisa da Revelo, uma startup de recrutamento, mostrava que 61,8% das empresas clientes planejavam voltar ao trabalho presencial. E que… 78% dos profissionais que prefeririam home office cogitavam trocar de emprego. E 59,2% das empresas já imaginavam promover um revezamento entre o home office e o escritório, a partir da vontade de 79% dos profissionais de tecnologia (eles disseram que o modelo remoto era o melhor para eles).
Ainda pelo levantamento, cerca de 93% das empresas disseram estar trabalhando em modelo remoto. Delas, a grande maioria (92%) tinha mais de um ano em home office. Ao avaliar os custos, 51,3% disseram não ter percebido nenhuma diminuição significativa em ter o pessoal trabalhando de casa.
E por que eles queriam ficar de casa?
- 71,3% disseram gostar de não perder tempo no trânsito
- 54,2% indicaram que poder trabalhar em cidades distantes é um diferencial
- 78% não gostavam das muitas interrupções que acontecem in loco
2023, novembro: mais Gartner, agora com dados de uma pesquisa realizada nesse mês em destaque com 3.500 pessoas. Um em cada três executivos que receberam o recado de voltar para o escritório afirmou que sairia por causa disso. Entre os funcionários “comuns” (leia-se, não executivos), a razão de saída era quase um em cada cinco.
2024, janeiro: o Gartner divulga que quando as organizações pedem para seus funcionários voltarem para o escritório, o pessoal de alto desempenho, as mulheres e a geração Millennial são os grupos mais propensos a deixar o emprego. A pesquisa foi feita em 2023 e ouviu 2.080 profissionais.
E por que não querem permanecer? No caso dos colaboradores de alto desempenho, esse grito de voltar pode ser encarado como um sinal de que sua organização não confia neles com autonomia para fazer as melhores escolhas sobre como realizar seu trabalho. Durante o período em que estiveram longe da firma, muitos desses funcionários mantiveram altos níveis de desempenho.
Entre as mulheres, em algumas situações, o trabalho no escritório poderia significar, por exemplo, os mesmos ou até mais microagressões e preconceitos…
E o pessoal mais jovem? Veja abaixo.
2024, setembro: o Global Talent Trends 2024, da Mercer, revela até o final de 2023, 65% das empresas já estavam trabalhando em sistema híbrido, 23% no presencial total e 12% remoto total. E que em seis anos (para não falar até 2030) a geração Z vai responder por um terço dos postos de trabalho. Ou seja, o pessoal nascido depois do ano da graça de 2000 ocupará uma boa parcela do mercado de trabalho. Já o pessoal mais “velho”, os da geração Y (nascidos depois dos anos 1980) vão ficar com 70% das vagas, mas até 2025. E o que tem a ver esses dados? Muito provavelmente uma concentração maior de trabalho híbrido daqui para a frente, uma vez que essa nova geração dá muito valor à qualidade de vida e não vai abrir mão disso. E o modelo híbrido permite ter esse equilíbrio…
2024, setembro ainda: parece que as previsões estão se tornando realidade. Ainda nesse mês, uma pesquisa da KPMG mostrou que 83% dos 1.300 CEOs entrevistados viram em suas bolas de cristal que até 2027 haverá um retorno total ao escritório. Ou seja, casa voltará a ser casa, a não ser que a pessoa leve trabalho para casa. E a casa corporativa, leia-se empresa, deverá ter mais frequentadores: 92% estavam buscando aumentar o número total de funcionários.
E como não podia deixar de falar nela… a Inteligência Artificial (IA) continua a ser uma prioridade, com 64% dos CEOs considerando-a essencial para o crescimento. Ah! E 76% acreditam que a adoção de IA não afetará negativamente o número de empregos em suas organizações.

2062, setembro: embora a tecnologia já permita o trabalho 100% remoto, ainda existem profissionais que vão aos escritórios bater cartão literalmente. Em alguns casos, isso se deve à posição crítica de alguns gestores. Um exemplo é a Spacely Space Sprockets, cujo gestor, sr. Spacely, monitora bem de perto a chegada de seus empregados, em especial George Jetson. Talvez um dos motivos que levem alguém a ir trabalhar no escritório da empresa seja uma forma de escapar do convívio de robôs trabalhadores em casa, como, no caso, a Rosie, uma simpática doméstica de lata da família Jetsons. Muito provavelmente George gosta mais da companhia de seu colega de trabalho, o computador R.U.D.I., de Referential Universal Digital Indexer…
Fala, Andy!
Trechos do comunicado de Andy Jassy para o pessoal da Amazon em 16 de setembro de 2024:
“(…) Antes da pandemia, nem todo mundo estava no escritório cinco dias por semana, toda semana. Se você ou seu filho estivessem doentes, se você tivesse algum tipo de emergência em casa, se estivesse na estrada vendo clientes ou parceiros, se precisasse de um ou dois dias para terminar de codificar em um ambiente mais isolado, as pessoas trabalhavam remotamente. Isso era compreendido e continuará a ser no futuro também. Mas, antes da pandemia, não era garantido que as pessoas pudessem trabalhar remotamente dois dias por semana, e isso também será verdade no futuro — nossa expectativa é que as pessoas estejam no escritório fora de circunstâncias atenuantes (como as mencionadas acima) ou se você já tiver uma Exceção de Trabalho Remoto aprovada pelo seu líder de equipe (…).
(…) Também traremos de volta arranjos de mesas designadas em locais que antes eram organizados dessa forma, incluindo os locais da sede nos EUA (Puget Sound e Arlington). Para locais que tinham arranjos de mesas ágeis antes da pandemia, incluindo grande parte da Europa, continuaremos a operar dessa forma (…).
(…) Entendemos que alguns dos nossos colegas de equipe podem ter configurado suas vidas pessoais de tal forma que retornar ao escritório consistentemente cinco dias por semana exigirá alguns ajustes. Para ajudar a garantir uma transição tranquila, tornaremos essa nova expectativa ativa em 2 de janeiro de 2025. A Global Real Estate and Facilities (GREF) está trabalhando em um plano para acomodar os arranjos de mesa mencionados acima e comunicará os detalhes assim que forem finalizados (…).
