g, de gumae

Apesar de você, amanhã há de ser…

…um novo dia, um novo mundo, com as nossas melhores versões, geradas a partir de agora

Na ligação, havia um certo nervosismo. A fala de meu amigo até tentava, mas não conseguia, disfarçar o sentimento que aquela alma procurava a todo custo manter a sete chaves, escondida em algum lugar, fosse no quarto ou na sala, ambientes que ele já parecia ter medido inúmeras vezes para passar o tempo.

O isolamento foi uma espécie de prisão a uma rotina que o seduzira num primeiro momento, mas que foi se transfigurando em uma espécie de purgatório. Ele parecia ter se rendido à rotina, e quase cantarolou um Chico Buarque durante a ligação: “todo dia ela faz tudo sempre igual…”

Muitas empresas se viram, do dia para a noite, instadas a colocar, se não toda, uma boa parte de seus funcionários trabalhando de casa. Mesmo para quem mantinha essa rotina duas ou três vezes por semana, ou para aqueles que já tinham esse hábito todos os dias, o novo cenário trouxe muita expectativa. Sem possíveis saídas à tarde para tomar um café perto de casa, como eu fazia algumas vezes, ou melhor, sem muita possibilidade de saídas, a perspectiva de se enroscar em um círculo vicioso caseiro aliada a um clima de ansiedade e receios, complicava.

O risco de vivenciar a mesma lista de tarefas durante a pandemia me fez lembrar de O feitiço do tempo, uma comédia de 1993, estrelada por Bill Murray e Andie MacDowell. Nele, para quem não lembra ou não viu (e segue como dica), uma equipe de televisão vai até uma cidade do interior para acompanhar o Dia da Marmota. Uma espécie de festa para prever o tempo dali por diante a partir do comportamento de um… grande roedor.

Phill, o jornalista interpretado por Murray, é arrogante, mesquinho, egocêntrico e outros predicados afins. E se vê preso no tempo, ao acordar várias vezes no mesmo dia. Em meio a essa rotina imposta, ele acaba aprendendo com ela e muda, passando a ser uma pessoa mais sensível, prestativa, humana…

O filme pode ser usado como analogia para outros temas, mas aqui ele nos ajudar a olhar de forma diferente para este período por que passamos. É chegada a hora de reavaliarmos nossas vidas e o que a envolve, nossas relações e interações – seja com você mesmo, com sua família, seus amigos, sua comunidade, sua empresa, sua carreira, sua espiritualidade…

Temos a chance de, a cada dia, (re)construir uma nova relação. Talvez o verbo mais adequado seja “gerar”, pois ele começa dentro de nossa casa – entendendo esse conceito em seu sentido mais pessoal: nossa mente e nossa alma. Uma lição por dia, uma reflexão, um passo adiante, uma mudança que, por menor que seja, cria uma sequência de ondas concêntricas capaz de mudar outros comportamentos.

Sim, temos um novo mundo a cada dia. E muito provavelmente porque seremos outros. Espero que a marmota sinalize temos melhores. Que possamos apresentar nossa melhor versão depois de um isolamento físico e não social. E que eu possa cantar, em breve, com meu amigo outra música de Chico Buarque: “apesar de você, amanhã há de ser outro dia…” Um novo dia!

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