O fantasminha do home office
Ou como o WHAM! pode ajudar no modelo do trabalho híbrido

Teletrabalho, vulgarmente chamado de home office. Estranho o termo popular ser em inglês. Talvez pelo fato de tal palavra, embora mais correta e brazuca, remeter ao bom e velho “telecatch”. Quem se lembra de Fantomas e Ted Boy Marino nos ringues?
Em meio a divagações sobre como muitas empresas ainda não encontraram o melhor caminho entre casa e escritório, ou melhor, entre presencial e remoto, passei a relembrar uma velha música. Ou será que era o vizinho que, no seu coffee break, soltava a voz? Que seja: uma voz próxima cantava O portão, de Roberto Carlos.
Eu voltei
pras coisas que deixei.
Eu voltei
aqui é meu lugar.
Voltei para onde? Para o escritório? Como assim? Só faltava eu ser o cachorro que sorria latindo para esse “ser” no portão.
Como quem atravessa um portão mágico, eis que ressurge meu amigo imaginário. Meu amigo de fé e irmão camarada de início de teletrabalho e de tantas outras jornadas tem um nome sugestivo: Gasparzinho. Não à toa, é o fantasminha camarada!
Perguntou como eu estava e o que fazia. Resolvi fazer um apanhado do que eu estava pensando e tive a impressão de que muitas assombrações poderiam rondar as empresas nesse tal modelo híbrido.
E vamos nós!
Depois de ouvir mais de 140 mil profissionais nos EUA, desde o início da pandemia, a Gallup divulgou, em março de 2023, que 38% dos trabalhadores que trabalhavam 100% em home office até que tinham uma “queda” pelo trabalho híbrido. Para eles, não faria mal algum, muito pelo contrário, ir alguns dias para o escritório.
Esse modelo “parte lá, parte cá” caiu no gosto de outras 31 mil pessoas, em 31 países, de acordo com um relatório (Índice de Tendências de Trabalho de 2022) da Microsoft, que contou, também, com análises de dados de usuários do Microsoft 365 e tendências trabalhistas coletadas no LinkedIn.
Um pouco mais da metade (52%) disse que até consideraria mudar para o trabalho híbrido ou remoto. Além disso, o levantamento mostrou que o número de empregos nesse modelo crescia: no LinkedIn, um em cada 67 empregos nos EUA oferecia uma opção de trabalho remoto, em março de 2020. Na época da pesquisa, era um em sete. E as ofertas de emprego com trabalho remoto atraíam 2,6 vezes mais visualizações e quase três vezes mais candidatos quando comparadas às vagas, digamos, no modelo tradicional.
No início da pandemia, muitas empresas tiveram de colocar o povo para trabalhar de casa. Em alguns casos, meio a contragosto ou com muitos obstáculos a serem vencidos, desde conexão, internet boa, falta ou excesso de reuniões até a fadiga de zoom. Agora, muitas querem que o pessoal volte 100% para o presencial. Outras estão testando ou já abraçaram o modelo híbrido, às vezes aos trancos e barrancos.
Mas há um modelo certo? A verdade é: não existe resposta certa. O modelo ideal é o ideal para cada empresa, a partir dos ajustes que forem sendo feitos no dia a dia. Mas é possível imaginar alguns desafios que vêm tanto das coisas boas ou não tão boas do modelo remoto ou presencial. São preocupações que podem afastar muito fantasma na empresa.
E se… no lugar de teletrabalho e home office, que tal usarmos outro nome? Working Healthy from Anywhere on Map! Isso mesmo: Trabalho saudável de qualquer lugar do mapa, uma licença poética. Além de ser mais abrangente, a sigla dá WHAM!, que foi uma banda muito boa nos anos 1980 e que vai participar deste texto em algum momento.
Ah! O Metaverso!
Se o Second Life não teve uma segunda chance para se colocar no mundo, o Metaverso pareceu que conseguiria essa façanha de primeira. Até que veio o Chat GPT e os holofotes mudaram o alvo… Aquele ambiente imersivo pode dar outros contornos, literalmente, para o modelo híbrido. Imagine você, de casa, “estar” no escritório por meio de um avatar. Sim, pode ser criado pela IA…
O relatório da Microsoft conta ainda que, ao ouvir o pessoal da Geração Z e os millennials, 51% dos primeiros e 48% dos segundos esperam realizar parte do trabalho já no Metaverso em breve. No geral, de todas as pessoas respondentes, 52% topariam essa imersão e 47% já se sentiam prontas para mergulhar de corpo e alma nele – talvez mais alma do que corpo.
A questão é: sua empresa está preparada? Não em relação ao Metaverso em si, mas ao modelo híbrido? Falemos de outra pesquisa, desta vez da Cisco.
Realizado entre janeiro e março do ano passado, o estudo Employees are ready for hybrid work, are you? ouviu 28 mil funcionários em tempo integral de 27 países. Para a pergunta “sua empresa está preparada para o trabalho híbrido?” apenas 25% disseram “sim, muito preparada”. Ainda há muito chão e, de novo, cada empresa tem as suas dores particulares a sanar nessa mudança. Uma é lidar com as vantagens que cada funcionário tinha no modelo remoto. No caso de mudança para 100% de trabalho presencial, a mudança pode deixar muita gente irritada.
A mesma pesquisa da Cisco revelou que 76% economizaram dinheiro com o trabalho híbrido. No que se refere à aptidão física, 68% disseram que esse modelo teve um impacto positivo – mais tempo para atividades físicas. A possibilidade de trabalhar nesse formato deixou 82% com um sorriso maior, digo, mais felizes e motivados. Como isso se reproduziria no 100% presencial?
De forma geral, 68,3% disseram que o bem-estar mental havia melhorado e 42,8% acharam que o bem-estar social teve um up. Mas, olhando bem, é um índice bem abaixo dos demais. A luz amarela acende. O que fez falta? Talvez esse contato presencial.
Ou seja, olhando para esse novo modelo e com algumas das percepções tidas durante a pandemia, imagina-se que o trabalho híbrido é uma espécie de “céu” corporativo, no qual espíritos (ou fantasmas) vagam sorridentes, saudáveis e com tempo de sobra, graças à flexibilidade de agenda (não, a eternidade não existe nesse mundo real e onírico das empresas – a não ser o tempo de resposta àquele aumento que você pediu).
Que lugar é esse?
Com funcionários trabalhando na empresa e fora dela, em qualquer lugar do mapa (WHAM!), é preciso olhar muito para a cultura. Preocupação vista na pesquisa da Cisco, quando mostra que 73% consideram que a empresa precisa repensar sua cultura e mentalidade para tornar o trabalho híbrido realmente inclusivo. Um caminho é repensar o próprio ambiente de trabalho (escritório).
Como a possibilidade que o trabalho remoto deu para muitos de trabalharem de onde quisessem, às vezes de locais maravilhosos, como tornar a firma um lugar tão ou mais atraente do que esses a que nos acostumamos? Qual vai ser a proposta de valor dele? Lembrando que essa proposta engloba os benefícios e as interações que os funcionários experimentam ao trabalhar no local, ou seja, em uma cultura, digamos, nova.
Quer saber por que essas perguntas são importantes? Aquele mesmo relatório da Microsoft apontou que que 38% dos funcionários híbridos dizem que seu maior desafio é saber quando e por que (re)entrar no escritório. E não adianta encher o espaço com pufes coloridos para isso…
Virtual primeiro
Assim como no princípio do home office na era a.P. (antes da pandemia), no trabalho híbrido também é preciso identificar quem pode e quem não pode entrar nesse jogo. Se não, dança. Bem como deve ser repensado o conceito de alta performance. É a entrega em si ou o esforço, o tempo dedicado sob o olhar do gestor? Sobre tempo, como ajudar os gestores a definirem o “tempo” de trabalho “aqui e lá”?
E a comunicação e o acompanhamento do trabalho, como serão? Teremos aquele microgerenciamento que mais atrapalha, dando a impressão de que a autonomia e responsabilidade do funcionário no modelo híbrido vai só até a página dois?
Há outra questão a ser levada em conta. A pesquisa da Cisco mostrou que 41% acreditam que os trabalhadores remotos e no escritório não terão oportunidades iguais, mesmo estando igualmente engajados.
Segundo o documento, 43% acreditam que é menos provável que sejam promovidos tão rapidamente ao trabalhar remotamente e 57% dizem que aqueles no escritório terão mais crescimento na carreira do que os trabalhadores remotos.
Ou seja, os funcionários que trabalham remotamente ficarão “fora da vista” e poderão ser esquecidos em momentos importantes. Não digo que ficarão vagando feito almas penadas, assombrações, mas se não souberem “mostrar a que vieram” ou não tiverem canais e apoio para isso, corre-se esse risco. O jeito é baixar numa mesa branca do escritório de vez em quando.
É fácil para os funcionários “na firma” agendarem um horário para trabalharem juntos em um espaço compartilhado, conversar entre si durante o expediente, indo de uma baia para outra, percebendo quem precisa de uma ajuda num relatório. São coisas do cotidiano presencial. E os “remotos”?
Esse “ponto cego” pode criar também problemas de inclusão e equidade. Por exemplo, as mães. Aquelas que optarem passar mais tempo em casa, por razões várias, terão mais chances de serem “esquecidas”. O cuidado é para que o trabalho híbrido não se torne o promotor de injustiças.
Uma saída, de acordo com alguns especialistas, é pensar no virtual primeiro. Ter como base para ações o pessoal que está do outro lado da tela, ao menos para os principais momentos de colaboração – isso pode ajudar na tal cultura de inclusão.
Uma dica que vi nessas andanças, para esse novo modelo mental, é, em um meeting do povo de casa com o do escritório, estes irem para a sala de reunião com seus respectivos notebooks e acompanhar tudo por eles. Quem sabe, não? Talvez com o Metaverso…
Eu, George Clooney
E enquanto o Metaverso não está na sua empresa, o que fazer para que o ambiente de trabalho seja atraente? Uma dica vem de outro levantamento que diz que socializar ajuda muito nos negócios. Pessoas que têm um melhor amigo no trabalho têm sete vezes mais chances de se envolverem em seus empregos, são melhores em engajar os clientes e produzem resultados mais altos. Agora imagine o sucesso que elas teriam se concretizassem o sonho de Roberto Carlos (mais uma vez) em ter um milhão de amigos…
Relações à distância podem, sim, ser fortes. Eu mesmo conheci minha esposa via site de namoro! Mas, digo: o melhor foi conhecê-la pessoalmente, olhar nos olhos e dizer: “Sinto por ter colocado a foto do George Clooney no meu perfil.”
Outro ponto que pode tornar o escritório mais “sexy” é transformá-lo em um espaço de conhecimento, com atividades para a troca de experiências, de saberes. A pessoa vai lá para sair melhor! E ser ela mesma, sem medo. Ir para o escritório é é interagir mais, é conhecer pelo olhar, é abraçar o outro como ele é. E dançar!
Assim, transforme o escritório em uma discoteca, coloque um globo espelhado no teto, capriche nos petit four e vista sua melhor roupa (deixe de lado o moletom-home-office). Coloque uma música dançante. Sugiro Wake me up before you go-go (nada mais na menos) da dupla Wham! E saiba que, pelo conceito WHAM!, todo lugar no mapa que for bom para você é bom para trabalhar – e até dançar!

