de encontro

Trabalhando com o inimigo

A ideia de que tudo é prioritário e precisa de resposta imediata é o que mais destrói a atenção numa empresa

Confesse: você volta e meia deixa de lado o que está fazendo para verificar se há alguma mensagem no smartphone. Isso quando não o sente vibrar no bolso da calça, mesmo sabendo que o aparelho está sobre a mesa – numa clara demonstração de dor fantasma cibernética. Sim, estamos sempre numa guerra frenética contra todo o tipo de estímulo que tire nossa atenção, desvie nosso foco e nos sobrecarregue no fim do dia com a sensação do dever não cumprido.

Mais do que nunca, a atenção se tornou um recurso raro e decisivo, em especial nas empresas. Só para lembrar: pesquisas conduzidas por Gloria Mark, professora da Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine), mostram que profissionais levam em média cerca de 23 minutos para retomar o nível completo de concentração após uma interrupção no trabalho. E para não perdermos o foco, mais um dado que se encaixa nessa história: um artigo de 2021 publicado pela PUCPR revela alguns resultados práticos do mindfulness no trabalho, como o aumento do foco em até 48%, produtividade em até 40% e melhoria da satisfação.

E é sobre esse tema que conversamos com Marcelo Demarzo, médico e instrutor sênior de mindfulness da Mind Br. Ele traz uma perspectiva valiosa que vai muito além da queixa comum sobre aquelas notificações do celular: o maior ladrão de atenção está no próprio modo como as organizações cultivam a “cultura da urgência”, gerando um estado crônico de hiperalerta que compromete o desempenho.

É comum culparmos as notificações do celular pela nossa falta de foco. Mas, para além do óbvio, qual é o maior e mais invisível “ladrão de atenção” que existe hoje nas culturas corporativas? Aquela prática ou mentalidade que a maioria das empresas normalizou, sem perceber que está drenando o ativo mais valioso de suas equipes?

No meu ponto de vista, o maior e mais invisível ladrão de atenção nas empresas hoje é a cultura da urgência constante. A ideia de que tudo é prioritário e precisa de resposta imediata cria uma pressão psicológica que fragmenta a atenção de forma muito mais devastadora que qualquer notificação. Quando as equipes internalizam que estar sempre disponível é sinônimo de competência, elas passam a viver em um estado de hiperalerta crônico – o que a neurociência chama de atenção hipervigilante. Essa hipervigilância desgasta o córtex pré-frontal, que é a área responsável pela memória de trabalho, tomada de decisão e criatividade. No fim, é uma autossabotagem coletiva que reduz qualidade, inovação e bem-estar.

Ainda existem líderes que veem o mindfulness e as pausas como “perda de tempo produtivo”. Se você tivesse exatamente 60 segundos para convencer um CEO cético, obcecado por resultados, qual seria o seu argumento neurocientífico mais poderoso para provar que “desacelerar para focar” é, paradoxalmente, a estratégia mais eficaz para acelerar resultados de alta qualidade?

Se eu tivesse só 60 segundos, diria: mindfulness não é apenas uma pausa para relaxar, é um treinamento neurocognitivo de inteligência atencional. Estudos de neuroimagem mostram que práticas regulares de mindfulness fortalecem o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável por foco voluntário, priorização e regulação emocional. Na prática, isso significa que profissionais treinados em atenção plena não só se distraem menos, mas também redirecionam o foco com mais agilidade, mesmo sob pressão. Isso se traduz em decisões mais precisas, comunicação mais clara e menor reatividade emocional – fatores diretamente ligados ao desempenho sustentável. Portanto, desacelerar para praticar atenção consciente não é parar: é treinar o cérebro a selecionar o que importa e executar com mais eficácia. É o que separa alta performance consciente de produtividade reativa. Seria como “afiar o machado antes de cortar a lenha”: parece perda de tempo, mas é o que garante alta performance sustentada.

Ok, se a atenção é um músculo que pode ser treinado, ele também pode ficar fatigado. Para aquele profissional que está no meio de um dia caótico, com a cabeça a mil e sentindo o cérebro “fritar”, qual é o “exercício” ou “analgésico mental” mais eficaz e de rápida aplicação que ele pode fazer para resetar seu foco e recuperar a clareza?

Uma prática simples de inteligência atencional que pode ser feita em menos de um minuto é a “mini-pausa consciente”. Funciona assim:

passo 1_ “pare e reconheça”: ajuste o corpo na cadeira, interrompa a ação por 30 segundos e observe conscientemente se sua atenção está dispersa, se seu corpo está tenso ou se há alguma emoção mais difícil presente (irritação, raiva, ansiedade etc.);

passo 2_ “apenas respire”: faça 1-2 ciclos de respiração mais consciente, sentindo a respiração fluir naturalmente no abdômen ou no peito;

passo 3_ “redirecione”: voltando a observar o corpo com um todo, pergunte-se: “Qual é a ação ou tarefa mais relevante agora?” e traga a atenção de volta a essa escolha.

Esse pequeno exercício treina o circuito neural que regula a distração (“piloto automático”), ajudando a recuperar clareza e foco sem precisar se afastar do trabalho.

Se você fosse contratado para redesenhar um ambiente de trabalho e torná-lo “atenção-positivo”, qual seria a primeira e mais radical mudança que você faria na estrutura das reuniões ou na política de comunicação interna (e-mails, chats) para proteger o foco como um ativo sagrado da empresa?

Eu começaria criando um princípio organizacional: “foco é um valor coletivo, não apenas individual”. A mudança mais impactante seria criar blocos protegidos de

  • “atenção focada”, combinados com reuniões conscientes. Isso incluiria:
  • “política de janelas de resposta”: todo e-mail, chat, mensagem corporativa teria um prazo esperado de resposta, prevenindo a “cultura da urgência” (de 6 a 12 horas, por exemplo, adaptado a cada contexto organizacional), exceto emergências previamente acordadas;
  • “reuniões com atenção plena”: início de cada reunião com 1-2 minutos de prática coletiva de inteligência atencional, para que todos estejam realmente presentes e engajados na pauta;
  • “tempo livre de interrupções”: períodos diários pré-definidos (de 2 a 4 horas, por exemplo) em que nenhum colaborador ou líder pode ser interrompido.

Essa combinação treina o cérebro coletivo da empresa a diferenciar urgência de relevância, fortalecendo foco e autonomia cognitiva. Essa pequena mudança transforma não só a produtividade, mas o próprio clima organizacional ao longo do tempo.

Nessa nova economia da atenção, o líder ganha uma nova responsabilidade: a de ser o “guardião do foco” da equipe. Que comportamento ou decisão diária, muitas vezes sutil, diferencia um líder que protege a atenção do time daquele que, sem perceber, se torna o principal dreno de energia e foco de seus liderados?

O principal diferencial está em modelar a inteligência atencional no próprio comportamento. O líder que protege o foco demonstra, todos os dias, a capacidade de:

  • observar distrações antes de reagir impulsivamente;
  • redirecionar a atenção ao essencial, comunicando prioridades com clareza;
  • criar pausas conscientes antes de decisões ou feedbacks importantes.

Por outro lado, o líder que se torna dreno de atenção opera em piloto automático: interrompe sem necessidade, muda prioridades com frequência e reage de forma imediatista. A diferença muitas vezes é sutil, mas perceptível. Quando o líder treina e pratica atenção consciente, transmite calma, clareza e direção, criando um ambiente psicologicamente seguro onde todos podem focar no que realmente importa.

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Inteligência atencional
21 de agosto
às 11h35
no palco 2, do CONARH

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