RH e bets? Pode apostar que dá jogo
As bets estão em destaque e reforçam a necessidade de as empresas oferecerem educação financeira para seus funcionários
Que tal fazer uma aposta? Para você, essas plataformas de bets são uma fonte de diversão ou uma maneira de conseguir uma grana a mais de forma rápida para pagar umas contas ou cuidar de um imprevisto financeiro? Talvez você deva estar agora se perguntando o porquê desse tema em um site que trata de recursos humanos e gestão de pessoas. Simples: a vida é um grande jogo, dentro e fora das empresas – e a situação financeira dos colaboradores tem um impacto grande no placar.
Voltando à aposta: se você optou pela primeira alternativa, parabéns. Porém, a segunda começa a se tornar um problema em um país em que quase 73 milhões de pessoas estão numa situação de inadimplência. Quer saber o placar dessas duas respostas? Vamos lá!
Em setembro do ano da graça de 2024, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) apresentou dados de uma pesquisa sobre as apostas nas bets: para a maioria dos usuários dessas plataformas na capital paulista – que representa 17% da população – esse tipo de jogo representa uma mera diversão (42%); já para 25% é uma forma de aumentar os rendimentos domésticos rapidamente; e para 9% é uma forma de investir. Ainda segundo o levantamento, 20% dos apostadores admitem que o dinheiro utilizado para financiar essas apostas seria destinado para o pagamento de contas caso não apostassem, e para 12% era para comprar alimentos…
Problemas financeiros são uma preocupação que vêm de longe, Thaeobaldvs pode falar mais sobre isso, e têm um forte impacto (negativo, diga-se) na saúde mental das pessoas e no desempenho delas no trabalho. Quem em sã consciência conseguiria se concentrar em uma tarefa sabendo que a conta no banco segue insuficiente para os boletos que brotam a torto e a direito, por exemplo?
Um levantamento realizado pela Creditas Benefícios, unidade de negócios de benefícios corporativos da Creditas, em parceria com a Opinion Box, mostra que 71% das pessoas performam melhor no trabalho quando estão com as contas em dia, gerando maior produtividade e menos horas extras. Porém (e sempre há um “porém”), quando estão endividadas, 64% não conseguem cumprir demandas básicas (como horário de trabalho), e 66% acreditam que os problemas financeiros impactam diretamente na saúde mental, relatando situações de estresse, ansiedade e insônia.
“Os dados mostram o real impacto das dívidas na saúde mental do trabalhador e também em sua produtividade dentro do ambiente profissional. Em um cenário de alto endividamento, como o brasileiro, é necessário entender como combater esse problema e os processos que podem apoiar o trabalhador na construção de um futuro financeiro mais saudável”, relata Guilherme Casagrande, educador financeiro da Creditas. O levantamento foi realizado com 1.347 trabalhadores em regime CLT nas cinco regiões do Brasil.
Mas voltemos às apostas: para você, o papel de RH é importante ou não para ao menos minimizar esses problemas? Óbvio, não? Você ganhou, parabéns! Mas antes de falar em recursos humanos, que tal falar sobre vitórias e derrotas? O levantamento da FecomercioSP revela que praticamente metade (44%) dos usuários de plataformas de apostas afirmam que, no fim, soma mais perdas do que ganhos…

Quanto vale o show, Aracy?
Alguns caminhos podem ser trilhados pelas empresas para ajudar seus colaboradores a manterem a saúde financeira em dia: promover um forte programa de educação financeira, oferecer a possibilidade de empréstimos consignados (que não é lá uma novidade) ou dar a oportunidade de o colaborador antecipar o recebimento dos dias de trabalho devidos, leia-se salário sob demanda. Sim, sempre existe uma alternativa chamada “aumentar o salário”, mas de nada adianta isso se a pessoa não tiver consciência de como usar esse dinheiro a mais.
E por falar em dinheiro a mais, quem se lembra de frases como “o funcionário saiu por um salário um pouco maior” ou “R$ 100 a mais e a pessoa deixou a companhia”? Primeira questão: deixou a companhia ou se demitiu do gestor? Em outro momento falamos sobre isso. Segunda questão: a empresa poderia manter esse colaborador mesmo não cobrindo os tais 100 mangos, como diria a saudosa Aracy de Almeida no júri do Show de Calouros do programa Sílvio Santos? (Para as gerações mais novas, convém saber quem foi essa grande intérprete chamada Aracy de Almeida). A resposta é: sim!
Já durante a pandemia, muitas pessoas passaram a ressignificar o que é trabalho, refletiram mais sobre o que, de fato, esperavam das empresas e se havia ainda um match entre elas e suas organizações. Com o dinheiro foi a mesma coisa – embora para muita gente o tinder da grana ainda não tenha oferecido o match ideal…
“A pandemia teve uma participação muito significativa no sentido de as pessoas se relacionarem com o dinheiro de um jeito um pouco diferente. E esse novo relacionamento faz com que elas ressignifiquem quanto querem ganhar ou faz com que percebam que precisam ganhar mais”, diz Guilherme. Porém (mais uma vez)… uma empresa que ofereça uma boa educação financeira para seus funcionários talvez os ajude a refletir mais sobre seus hábitos e comportamentos de consumo. Com isso, um colaborador pode descobrir que está gastando aqueles R$ 100 (que a outra empresa promete pagar a mais) com coisas que não valem a pena ou que não são interessantes para aquele orçamento e para a rotina financeira dele. Obviamente, nem sempre o aumento é nesse patamar, mas proporcionar esse tipo de descoberta ou de experiência para o empregado é uma das almas da educação financeira.
Placar mais perto dos mil
A pesquisa Creditas Benefícios, aliás, coloca a educação financeira como o caminho para um futuro mais saudável, com 73% dos respondentes afirmando que essa é a melhor forma de melhorar a gestão do próprio dinheiro. E 92% dos respondentes creem que as empresas devem, sim, oferecer esse tipo de programa como um benefício, apesar de apenas 30% terem algum tipo de contato com o tema no emprego atual.
“Educação financeira tem efeito quando se é trabalhada nos médio e longo prazos, algo em torno de um ano, um ano e meio, fazendo ações continuadamente”, diz Guilherme.
Nesse tempo, segundo ele, já é possível colher os dividendos desses programas, por assim dizer – desculpem a infâmia. Em outras palavras: colaboradores que conseguem limpar o nome ou que já fazem seu primeiro investimento. “Mas, principalmente, um dos dados que compartilhamos com as empresas é a média do score da base de colaboradores”, conta. Para entender: esse score é uma pontuação definida por um birô de crédito (no Brasil temos três atualmente: Serasa, SPC e Boa Vista). Essa pontuação vai de zero a mil a partir da probabilidade de uma pessoa conseguir deixar suas contas em dia nos próximos 12 meses. Quando temos um score mais baixo, significa que essa pessoa está em uma situação difícil e que não vai conseguir esse intento. No caso de um score mais próximo de mil, significa que essa relação está saudável, que essa relação com o dinheiro é uma relação positiva.
“Todo mês fazemos a média do score da empresa e compartilhamos essa informação com o RH. Empresas que, por seis meses consecutivos ou mais, fazem ações de educação financeira geralmente apresentam um leve aumento na média de score daquela população”, diz. “Seria muita leviandade justificar esse tipo de resultado apenas pelo programa de educação financeira, mas entendemos que ele exerce uma força ao abrir espaço para falar sobre esse tema que, consequentemente, vai se traduzir em mais saúde financeira para todos os colaboradores.” Entre os trabalhadores que tiveram contato com ações de educação no emprego atual, 61,5% afirmam que notaram uma evolução positiva no seu conhecimento sobre o tema, segundo a pesquisa. E são os profissionais de RH os mais citados como os responsáveis pela oferta de educação financeira nas organizações, de acordo com 75% dos respondentes.
Para Guilherme, o RH precisa pensar em incluir a “caixinha” de saúde financeira em sua estratégia, assim como na época da pandemia e depois dela incluiu a “caixinha” de saúde física e mental. Até porque, como vimos, questões financeiras interferem aqui.
É meu e ninguém tasca!
Ainda ligado à educação financeira, outro assunto aparece quando se trata de ajudar um funcionário em apuros financeiros: o salário sob demanda. “Essa antecipação salarial tem esse viés de ajudar num momento delicado, mas sem também comprometer a vida financeira desse colaborador por vários meses consecutivos, caso ele tenha de recorrer a um empréstimo pessoal”, conta Guilherme. Na verdade, a pessoa vai pegar da empresa um dinheiro que, em tese, já é dele – afinal, ele já trabalhou por aqueles dias.
Esse tipo de benefício permite quitar alguma conta imprevista, sem ter de esperar por dias e mais dias, que vão gerar multas e juros, até a data do pagamento. E permite ir além, mas antes de chegar no além, é importante frisar o papel da educação corporativa nesses casos de salário sob demanda: sem a consciência do uso consciente do dinheiro, essa prática pode se tornar recorrente e o que era para ser uma boia jogada a um naufrago pode se tornar uma âncora muito pesada…
“Esse benefício deve ser utilizado apenas em situações que fogem do padrão, e não ser um hábito comum. Porque, a partir do momento que há um hábito comum, existe uma grande chance de isso se tornar contínuo e acabar virando algo prejudicial para a vida financeira desse colaborador”, reforça Guilherme.
Seguindo esse conselho em relação à antecipação salarial e com uma boa base de educação financeira, muitas podem até investir e ter uma vida financeira mais saudável. “Algumas podem optam por antecipar o seu salário para deixar esse valor rendendo numa conta digital ou aplicá-lo em um produto que tenha liquidez diária, para fazer esse dinheiro render”, conta. Faz sentido, afinal elas teriam de esperar 30 dias, ou um intervalo de dias, para receberem esse dinheiro, que já é delas, e estão perdendo os juros sobre esse valor, de alguma forma. “É gratificante ver pessoas muito bem educadas financeiramente utilizando a solução de antecipação salarial, hoje, para conseguir rentabilizar esse dinheiro que já o pertence.” E de forma segura.
Consumidores ativos
Não dá para fechar este texto sem falar novamente nas bets. Nada contra quem aposta, desde que saiba que corre riscos de não ganhar… Aliás, a pesquisa da FecomercioSP mostra que 41% dos usuários de plataformas de apostas não conhecem os parâmetros básicos da Lei 14.790/2023. Dentre outras medidas, ela estabelece critérios de divulgação das taxas de retorno e tributação dos ganhos com apostas. Para federação, quanto mais as pessoas souberem o escopo das regras, mais conformidade poderá ser cobrada das empresas que operam o serviço.
O estudo da FecomercioSP ouviu 3.622 pessoas na cidade de São Paulo, de diferentes classes sociais e faixas etárias, entre os dias 12 e 19 de julho. O índice de paulistanos que são consumidores ativos desses jogos (lembrando o que está no início deste texto: 17%) está na média internacional. Nos EUA, por exemplo, ele varia entre 10% e 15%. Entre os apostadores paulistanos, 23% faz algum tipo de jogo semanalmente, enquanto 12% o fazem todos os dias. Nesse recorte, as classes médias tendem a ser consumidoras mais frequentes: dentre os que ganham acima de dois salários mínimos, 30% apostam toda semana. Para quem ganha menos que isso, o número cai para 18%. O tíquete médio, porém, é baixo: metade dos entrevistados diz não gastar mais do que R$ 50 por mês nas bets; outros 19% gastam até R$ 100. Apesar disso, a pesquisa mostra também como o consumo do varejo e de itens essenciais fica sob risco, já que boa parte dos montantes apostados seria importante para a composição das despesas rotineiras dos lares, como as de supermercado…
