fora da curva

Quando o cochilo depois do almoço é (quase) sagrado

Ou: como até a Nasa sabe que isso pode ser bom para os negócios

A prática não é nova. Os romanos já faziam isso – e não por causa dela que seu império ruiu. Isso seria uma barbaridade, embora tenham sido os chamados povos bárbaros que deram fim àquela potência mundial, na época. Falamos da famosa siesta! Em Roma, era comum o pessoal dar uma parada nos afazeres lá pela hora sexta, a sexta hora do dia, contada a partir do nascer do sol. Eles dividiam o dia em 12 horas de sol e 12 de lua. Nos dias de eclipse, o povo ficava perdido. Bem, mas era nesse badalar romano de seis horas de sol que o calor mediterrâneo dava o ar (quente) da graça, transformando qualquer atividade física em tortura pura. Assim, romanos e romanas paravam, comiam, cochilavam, e voltavam revigorados. Simples assim.

A tradição atravessou milênios, sobreviveu à Idade Média, à Inquisição e chegou intacta à Espanha do século 20. Embora… antes de falar mais do caso espanhol, que tal falar da Nasa? Sim, precisamos estuda a Nasa e não o contrário.

A Nasa, os pilotos e o alerta de 54%

Entre os anos 1980 e 1990, enquanto o mundo corporativo canonizava o workaholic e transformava frases como “dormir é para os fracos” e “o que você faz entre as 22h e as 6h?” em mantras aspiracionais, a Nasa fazia algo revolucionário: colocava pilotos para cochilar no cockpit. Não por generosidade, mas por pragmatismo, pois pilotos cansados “batem” aviões, e aviões custam caro.

Dividiram os coitados em dois grupos. O primeiro tinha 40 minutos para tirar uma soneca durante o voo. O segundo, não. Resultado? Além das brigas entre eles para ver quem mudava (ou não de grupo), brincadeira, o pessoal descobriu que aqueles que dormiram:

  • ficaram 54% mais alertas (alerta fisiológico, medido por EEG, nada de “achismo”;
  • tiveram 34% mais performance em tarefas críticas;
  • apresentaram 34% menos “lapses”, aqueles microcongelamentos mentais que fazem você reler o mesmo parágrafo três vezes sem entender nada, entendeu?

O tempo médio de sono? 25,8 minutos. Nem meia hora. E a NASA gastou milhões para descobrir que um cochilo estratégico não é tempo e dinheiro perdidos. É investimento em não fazer besteiras estratosféricas.

Hoje, o mercado corporativo vende isso como “power nap”, “cochilo estratégico”, ou “descanso de alta performance”, até porque, convenhamos, “siesta” pode soar algo preguiçoso demais para uma cultura que ainda acha que produtividade se mede em cafés duplos e melatonina industrial.

O paradoxo espanhol

Voltando à Espanha. A pátria-mãe da siesta, digamos assim, é também um dos países que mais trabalha na Europa. As jornadas que vão das 9h às 20h30, com apenas uma pausa de almoço. E sabe qual é a produtividade? Uma das mais baixas do continente.

O Círculo de Empresários da Espanha, entidade que reúne gente que definitivamente não tira siesta, estimou que o costume custa ao país “pelo menos 8% do PIB”. A conta é simples: jornada partida (4 horas de manhã, pausa de 3 horas, 4 horas à tarde) significa que as pessoas trabalham até as 20h, jantam às 22h, dormem pouco, e chegam no dia seguinte arrastando a alma.

Mas atenção: 60% dos espanhóis não fazem a siesta. Isso: 60%. A tradição tem se transformado em folclore urbano. Daqui a pouco será possível ver uma loura no banheiro masculinos das escolas dormindo depois do recreio. O que sobrou da prática foi o pior dos dois mundos: a jornada estendida (herança da siesta) sem o descanso (sacrificado no altar da produtividade).

Ador, a cidade que legislou o óbvio

Mas, por mais que a siesta esteja acabando (em termos de prática), saiba que existe um lugar no mundo em que ela é uma tradição levada a sério. Trata-se de conheça Ador, uma cidadezinha de 1.700 habitantes perto de Valência. Em 2015, o prefeito transformou a siesta em lei municipal. Assim, das 14h às 17h:

  • tudo fecha.
  • barulho é proibido.
  • crianças não podem jogar bola na rua.
  • quem desrespeitar, leva multa.

É a única cidade do mundo na qual cochilar é um direito garantido por decreto.

Muita gente ridicularizou. “Cidade espanhola torna preguiça obrigatória!” Como se trabalhar 60 horas por semana bebendo energéticos fosse sinônimo de virtude. Mas e os dados de saúde pública de Ador? Impecáveis. Pressão arterial controlada, baixo índice de burnout, praticamente zero de afastamentos por estresse.

Cochile na sua empresa, que tal?

Enquanto empresas investem fortunas em programas de bem-estar que incluem aulas de yoga online, pipoca grátis na copa e palestras motivacionais com coaches que citam Steve Jobs a cada 30 segundos, a solução mais barata e eficaz continua sendo ignorada: deixe o povo dormir 20 minutos depois do almoço.

Não estou falando de transformar o escritório em um spa. Estou falando de algo simples:

  1. uma sala silenciosa
  2. poltronas reclináveis ou tatames
  3. um timer de 25 minutos
  4. tolerância corporativa para que usar isso não seja visto como “fraqueza”

O custo? Não é alto. O retorno? A Nasa já entregou de bandeja: menos erros, mais alerta, melhor humor, criatividade aumentada. Ah! Para as organizações que desejam oferecer os famosos travesseiros da Nasa, saibam que eles nada têm a ver com o experimento dos anos 1990 e nem com a própria entidade!

E tem também redução de sinistralidade: aquele santo graal que todo CFO persegue.

A boa notícia é que algumas empresas já entenderam o recado. No Japão, a inemuri (arte de dormir em público) é tolerada (até admirada) como sinal de dedicação. No Vale do Silício, empresas como Google e Uber têm “nap pods” (cápsulas de cochilo). Em Barcelona e Madrid, surgiram os “cafés de siesta”, onde você aluga uma cabine por 30 minutos para dormir.

Pelo visto, a siesta está voltando. Mas agora vem embalada em design escandinavo, com nome em inglês, e custando três vezes mais do que deveria.

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