g, de gumae

O show tem de continuar

Abrem-se as cortinas. Luzes faiscantes iluminam o palco e a plateia grita, em coro: “RH, você já revisou seu roteiro de competências?”

(acima, Roy Scheider, no papel de Joe Gideon, em cena em que encena a trupe no clássico “All that jazz”)

Abrem-se as cortinas. Luzes piscam sobre um palco vazio enquanto a plateia, ansiosa, grita em coro: “RH, o roteiro desta temporada está pronto?” Se a vida corporativa fosse um estúdio de Hollywood, o profissional dessa área seria, sem dúvida, o showrunner. Aquele que muitas vezes escreve, dirige, produz e, ainda por cima, lida com o ego das estrelas e com o orçamento que parece sempre saído de um filme B.

E para fazer tudo isso, qual o perfil ideal desse profissional?

Esqueça a resposta que ouço há mais de duas décadas: “o RH precisa ser estratégico”. Eu diria que ele precisa ser um malabarista – o que também não é novidade, pois já usei essa imagem em texto e ilustração em matérias na finada revista MELHOR – Gestão de Pessoas, então a publicação oficial da ABRH Brasil. Mas a analogia persiste, porque os pratos a serem equilibrados estão mais complexos. Alguns são de cristal, outros pegam fogo e as varinhas que os sustentam ora dão choque, ora são curtas demais. Mas, como no clássico de Bob Fosse (“All that jazz”, de 1979), uma coisa é certa: o show tem de continuar: o RH precisa entregar e o texto, continuar

Numa busca tão implacável quanto a de Liam Neeson por sua filha, o Google nos devolve listas e mais listas de competências para o RH. Mas, no fundo, parece existir um consenso: é preciso ser esse malabarista, equilibrando inovação, estratégia, empatia e, claro, aquele talento para resolver problemas com elegância e a perspicácia de um McGyver corporativo.

Ele conseguia construir uma bomba com apenas um palito de dente e um pedaço de papel alumínio: McGyver pode ser uma inspiração para o RH?

E as fontes para esse roteiro são muitas.

O HR Competency Study (HRCS), por exemplo, já está em sua oitava temporada (mais longo que muitas séries aclamadas pela crítica). deles é não entrevistar apenas o próprio RH, mas também os chefes, os pares e até quem só aparece para reclamar do ar-condicionado. O resultado disso é um retrato “fiel” (ou melhor: sem filtros) das competências que realmente entregam valor.

Enquanto isso, a AIHR, qual um diretor de vanguarda, lançou seu Modelo de Competências em “T”. A letra, que poderia ser de “Tarantino” pela ousadia, tem uma lógica: uma base sólida de conhecimentos gerais (a barra horizontal do T) e uma especialização profunda (a haste vertical).  E tudo isso temperado por temas como IA, sustentabilidade e transformação digital.

E vamos a mais uma fonte. Se temos o filme “Guru do amor”, de 2008 e estrelado por Mike Myers, por que não colocar em nosso roteiro o guru do RH? Sim, Dave Ulrich e seu grupo de competências fundamentais e organizacionais. Lembrando que, para ele, elas são estáveis, mas as expectativas em relação a elas não: só aumentam. Ou seja: não basta atuar bem, tem de ser um ótimo ator, superar as expectativas da audiência e, muitas vezes, lidar com produções de orçamento irrisório… Que tal, então, juntar todos esses roteiros em uma superprodução?

Cenas do próximo capítulo: o roteiro de competências do RH

Aqui está o conjunto de habilidades que nosso herói precisa dominar para brilhar nesta e nas próximas temporadas.

1. O estrategista de blockbuster (Business acumen)

Não basta alinhar o RH à estratégia; é preciso ser uma espécie de David Filoni, o rapaz que vem arquitetando a franquia Star Wars. Isso significa interpretar o mercado, farejar tendências e cocriar o roteiro da empresa para que ela não apenas concorra, mas domine a bilheteria. É antecipar quais habilidades serão necessárias para a próxima grande estreia de produto ou para a expansão da franquia para novos mercados. Isso inclui compreender e aplicar insights sobre tendências de negócios e fatores organizacionais, ter uma clara compreensão dos requisitos de desempenho financeiros, entender as necessidades do cliente e aplicar princípios centrados no usuário, e co-criar estratégia de negócios, alinhando as prioridades de RH.

2. O ativista credível e advogado do elenco

Já me disseram que eu tenho um “que” de George Clooney. Mas não sei se é no aspecto físico ou em questões que envolvem carisma, confiança ou um ponto de vista firme sobre o que é certo. Bem, esse é o RH que constrói pontes, mas também defende ativamente uma cultura centrada nas pessoas, com ética e bem-estar – com elegância. Ele garante que o elenco (os colaboradores) esteja em seu melhor estado para entregar performances premiadas, influenciando até mesmo as decisões do conselho para garantir a saúde da produção como um todo.

3. O navegador do multiverso dos paradoxos

Se você assistiu à série Black Mirror, talvez compreenda melhor do que se trata. O profissional de RH hoje navega por realidades conflitantes. Metas de curto prazo versus visão de longo prazo. Controle centralizado do “estúdio” versus a liberdade criativa do “diretor”. Top-down versus bottom-up. A maestria da direção não está em encontrar a resposta certa, mas em gerenciar a tensão e usar a ambiguidade como fonte de criatividade. A ambiguidade é uma parte inata do papel do profissional de RH.

4. O Arquiteto de Mundos (Cultura & Mudança)

Como o designer de produção de “Duna” ou “Avatar”, o profissional de RH não apenas decora o cenário, ele também constrói o mundo (em outras palavras, a cultura) em que a história acontece. Usando dados (quem já ouvir falar de people Analytics?), ele mapeia a cultura atual, identifica pontos de resistência e transforma a mudança em um novo arco narrativo mais interessante e alinhado ao que a organização e as pessoas buscam, em vez de uma refilmagem tosca de um filme confuso que ninguém pediu, especialmente em cenários híbridos ou remotos.

Silêncio! Professor Xavier está buscando entrar em contato com outros mutantes: será que vai encontrar você?

5. O caça-talentos nível Professor X (Curadoria de capital humano)

Ele é um mutante (aliás, muita coisa tem mudado). Ele vai para um grande observatório adaptado aos seus poderes e, basta fechar os olhos e franzir a testa para encontrar outros mutantes como ele espalhados pelo mundo. Sim, é o Professor Xavier. Assim, como ele, o profissional de RH deve, agora e mais do que nunca, ser capaz de identificar talentos únicos para montar equipes tão poderosas quanto os X-Men. Ele gerencia o fluxo de talentos, desenvolve líderes e cuida dos “atores convidados” – freelancers e gig workers que trazem habilidades especiais para missões específicas. Já pensou, RH, em ajudar na montagem de squads temporários, com integrantes de fora da empresa ou com atores novos, como várias Ias que estão surgindo? Sim, pois a IA é, como diria Silvio Santos, a nossa nova colega de trabalho!

6. O guardião da recompensa (Total rewards)

O guardião de recompensas totais é aquela pessoa capaz de gerenciar o bem-estar dos funcionários por meio de recompensas financeiras e não financeiras – estas em especial. O salário, por si só, não segura mais os grandes talentos. A audiência moderna quer mais: propósito, flexibilidade, bem-estar e um papel desafiador. A missão aqui é desenhar um pacote de recompensas totais que seja uma “oferta irrecusável”, personalizada para as necessidades de cada estrela do elenco, indo muito além do contracheque. Novamente: já ouvir falar em “uso de dados sobre pessoas”? Isso ajuda muito na hora de pensar nesses pacotes. Às vezes, a pessoa quer ir ao cinema pela pipoca, ou pelo conforto das poltronas…

7. O mago da tecnologia (Agilidade digital)

Todo herói precisa de um gênio tecnológico por trás, seja o “Q” para James Bond ou Lucius Fox para o Batman. O RH moderno precisa ser esse personagem, ajudando a equipar a organização com os melhores “gadgets” (tecnologias) e, principalmente, ensinando todos a usá-los. Da IA, para prever necessidades de carreira, à automação, que libera a equipe para focar no que é humano.

8. O decifrador de enigmas (Alfabetização em dados)

É ser o Robert Langdon, da saga que começou com o livro (e depois filme) “O código Da Vinci”, mas do mundo corporativo. É a capacidade de olhar para uma planilha cheia de números e enxergar a história que existe por trás dela. E não apenas isso! O RH deve traduzir esses dados em insights e apresentar essa história de forma tão convincente que até o mais cético dos executivos entenda o enredo e aprove o orçamento para a sequência. Ah! E o uso de métodos avançados de storytelling com dados ajuda muito a engajar diversas audiências também.

9. O guardião das regras e da ética

Toda produção precisa de regras. Não apenas para ter o horário certo para o catering, mas para manter as unidades de filmagem funcionando como um relógio, atentando para as autorizações necessárias para filmar em determinados lugares, por exemplo. Sem isso, um filme pode ser interrompido por um processo ou, até, por um escândalo. Essa competência vai além de gerenciar a conformidade legal. Trata-se de construir uma estrutura ética que guie a organização, transformando o “departamento do não” em um conselheiro sábio que protege a reputação da marca e garante que a história seja contada da maneira certa.

Q diante de James Bond (Pierce Brosnan no papel), mostrando uma caneta: mas será só uma caneta ou um gadget para avaliação de desempenho?

Competências de liderança: o spin-off necessário

No universo expandido do RH, liderar a si mesmo, os outros e a organização é pré-requisito. Autoconsciência, empatia, confiança e inspiração são habilidades que garantem temporadas renovadas para o profissional e para a empresa.

Os vilões da trama: desafios do RH

Como toda boa série ou filme, sempre há obstáculos. São eles que ajudam a sustentar a jornada de um herói como Luke Skywalker, Percy Jackson ou a querida Dorothy. Por exemplo:

  • orçamento de filme B: recursos limitados que exigem criatividade de guerrilha. Não, nem sempre basta ter uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, como dizia Glauber Rocha. Essa história de fazer mais com menos nem sempre termina bem.
  • percepção do papel: lutar contra o estereótipo de ser apenas um departamento administrativo. Ou de ser visto como.
  • ambiguidade paralisante: o risco de se perder no multiverso de paradoxos.
  • velocidade da tecnologia: correr para não se tornar obsoleto, achando que um 486 com um Windows 95 é o must!
  • resistência do elenco: lidar com a resistência à mudança vinda de outras áreas ou da própria liderança.

Então, o que a gente faz em relação a todas essas competências?

Para não ter um final como “The game of thrones”, é preciso estar atendo ao desenvolvimento do roteiro como um todo. Não dá para encurtar a história porque o orçamento já não banca uma produção gigantesca. Fica difícil para a plateia engolir que um personagem enlouqueceu quase da noite para o dia para justificar seu fim trágico. Por essa razão, a resposta à pergunta é tão simples e tão complexa quanto as competências listadas: desenvolvimento contínuo.

Comece com uma autoavaliação honesta. Em que atividade ou papel você já é um ator premiado e em qual ainda precisa de mais ensaio? Converse com outros showrunners, troque figurinhas sobre os perrengues e as vitórias que você já passou ou enfrentou. Quem sabe um plot twist de outro filme seja adaptável para seu roteiro?

O futuro do RH é brilhante, mas exige uma certa capacidade de adaptação. Melhor: uma capacidade brutal. A pergunta do início deste texto não é para causar ansiedade, mas para inspirar. O futuro da carreira do RH e das organizações nas quais ele impacta não está em um manual, mas na coragem de se olhar no espelho e se reinventar. Todos os dias.

The end?

Não. The show must go on!

Dorothy (ou Judy Garland) e a fada indicando o caminho dos tijolinhos amarelos: uma boa dica para montar o roteiro de competências do RH

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