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O primeiro CONARH a gente nunca esquece

O que um sutiã e ideias para um futuro conhecido têm a ver com o maior evento de RH da América Latina?

Calma! A imagem deste artigo refere-se sim ao CONARH, embora não seja sobre ele. Em 1987, Washington Olivetto, sócio da W/Brasil, criou uma das campanhas mais famosas da propaganda brasileira. Nela, Patrícia Luchesi, uma jovem atriz de 11 anos, ganhava de presente seu primeiro sutiã, uma espécie de rito de passagem para uma nova fase da vida. Treze anos depois, estava eu no meu primeiro CONARH, ainda realizado no então Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Era, mais do que uma atividade profissional, um rito de passagem para eu entrar de peito aberto em outra fase da minha vida.

Não digo que parece que foi ontem que eu circulava pela pequena EXPO durante os quatro dias daquele evento, que tinha como tema Do átomo ao byte: travessia para a nova Era. E ia além com uma atividade paralela: um fórum internacional de tecnologia para RH.

Sim, já naquela época se dizia que a velocidade de produção do conhecimento aumentava significativamente com o avanço da tecnologia. Esse fato já criava uma nova demanda sobre as pessoas. Cada vez mais, as empresas iriam passar a exigir do profissional novas competências, como flexibilidade, criatividade, capacidade de trabalho em grupo e muita intuição, a linguagem do momento. Algo tão atual, não?

Um dos participantes do CONARH 2000 foi o jornalista Gilberto Dimenstein, que faleceu em 2020. Criador do site Catraca Livre, entre outros projetos (como o livro Meninas da noite, resultado de uma série de reportagens feitas entre 1985 e 1995, sobre a prostituição infantil nas regiões norte e nordeste, e que foram publicadas no jornal Folha de S. Paulo em 1992), Dimenstein tinha uma visão abrangente do papel da empresa, e do RH, na criação de uma sociedade mais equilibrada. Em sua palestra, ele foi direto: “Percebemos, hoje, que os responsáveis pelas grandes inovações numa organização não são apenas inteligentes. São, sobretudo, pessoas intuitivas que conseguem de alguma forma entender o futuro por um mecanismo desconhecido”, disse. “No entanto, ainda somos máquinas de escrever”, frase que causou espanto no auditório principal. Segue, a partir de agora, partes do texto que escrevi para revista Melhor, naquela época, que mostram que muita coisa ainda não mudou…

Vamos relembrar: o passado de presente

Realizado no início de agosto, o evento discutia os novos desafios que se apresentam aos gestores de pessoas na travessia do mundo do “átomo”, em que a manipulação da matéria é o mais importante, para o mundo do “byte”, que dá lugar ao manejo de fatores intangíveis, como capital humano e conteúdo, temperados pela velocidade da informação e tecnologia.

A explicação para essa sensação de ser um instrumento do passado, metaforizada por Dimenstein, é dada pelo próprio jornalista: “Fomos preparados para um ambiente de trabalho e ele mudou sem que ninguém nos avisasse com antecedência. Somos formados para repetir conhecimentos, repetir testes para uma sociedade que exige inovação permanente”, explica. “É por isso que somos máquinas de escrever. Quem vai querer comprar esse equipamento antigo? Ninguém.”

Para Dimenstein, uma das razões do descompasso entre as necessidades das empresas e as competências individuais tem origem no processo de aprendizado. “Cada vez mais a escola está se distanciando do fazer. Todo mundo teve a sensação, quando acabou a faculdade, de que não estava preparado para o mercado de trabalho. É angustiante saber que o que você aprendeu será pouco usado”, conta. Isso acontece também porque, avalia, grande parte dos professores não trabalha além da faculdade. “Eles passam a vida ensinando fórmulas e aplicando testes que servem apenas para o ritual acadêmico.”

Ele acredita que o conhecimento que uma faculdade oferece a um jovem pode garantir seu emprego por um ano. Já o conhecimento em cadeira técnica, na mesma faculdade, permite apenas oito meses de emprego. “Isso significa que todo o saber é reciclado. A cada dois anos, o conhecimento gerado pelo homem quase duplica”, destaca.

O melhor exemplo, para ele, dos erros cometidos pelo sistema de ensino na formação profissional é a valorização do vestibular. “Ele é o sacramento da idiotice educacional, pelo qual você obriga um garoto de 15 anos a escolher o que ele quer ser no futuro quando ele nem sequer sabe que em 2015 haverá no mundo 45 mil profissões”, dispara. “Em seguida, o estudante é jogado num processo de decorar perguntas e respostas para passar num exame, ganhar um diploma e alegrar seus pais. Mas decorar conteúdo já não funciona porque as empresas não demandam isso. Você poderá colocar muitas informações num relógio, por exemplo, que esteja conectado à internet”, diz.

Amigo secreto – O importante a partir de agora é valorizar o capital humano, adianta. “Apegar-se somente à tecnologia significa desatualizar-se a todo o momento em função das novidades que surgem numa velocidade extraordinária”, explica. Significa virar máquina de escrever. “Nesse cenário altamente volátil, em que em que mudanças ocorrem a cada instante, é preciso investir no que é mais duradouro e importante: a atitude diante do conhecimento”, acrescenta. E esse é o principal papel do RH na nova era. “O RH é o profissional do futuro. Até um certo tempo atrás, a visão que se tinha dele era a daquela pessoa que demitia os outros e que fazia coisas chatas e constrangedoras como organizar festinhas de fim de ano e a brincadeira de amigo secreto”, brinca. Hoje, esse cenário mudou: é ele quem vai identificar e selecionar as pessoas, cada uma com seus saberes, e vai encaixá-las nos fazeres que a empresa necessita. “Tenho a certeza de que o diretor de RH estará sentado ao lado direito do CEO de qualquer empresa. Se cada vez mais o capital humano for importante, quanto mais a empresa puder atraí-lo, capacitá-lo e retê-lo, melhor. E isso é competência do RH”, explica, lançando uma nova proposta: “A partir dessa nova posição na empresa, até o nome deveria mudar. ‘Recursos humanos’ está ligado a um conceito antigo. A nova denominação deve estar ligada à nova função do profissional, deve ser algo como departamento de talento humano”.

Ciente dessa nova função, a de eliminar a distância entre o que foi, ou não, aprendido em sala de aula e as exigências dos novos tempos, o RH terá de outras desenvolver o gosto pela curiosidade, a paixão pelo aprender, em cada um dos funcionários. “A base dos grandes homens não está só no conhecimento, mas na paixão pelo descobrir. Os verdadeiros inovadores são pessoas que acham que o estudo é fundamental. São pessoas apaixonadas que possuem uma atitude de encantamento diante do conhecimento”, explica. “E todos sabem que só faz bem o que faz aquele que gosta do que faz. Isso é óbvio, porque na alma dele está a paixão pelo saber. A pessoa que não gosta do que faz não aprende.” Para o jornalista, esse é o sentido da aprendizagem permanente. “Uma empresa vai estar à frente das outras quando ela não for mais uma empresa, mas uma escola em que se inova e renova.” E o que vai ser a escola? “Uma casa de curiosidade, e o professor será um administrador dessas curiosidades.” A partir daí fica claro que excesso de informação não significa excesso de saber. “Mais vale as associações que você faz do que o número de informações que você recebe”, diz. Na era do “byte”, a atitude diante do conhecimento e a capacidade crítica para lidar com vários conteúdos simultâneos passam a ter maior relevância. “O indivíduo que inova no trabalho é aquele que identifica, que sabe separar, o que é relevante no seu dia a dia para tomar as decisões corretas”, afirma.

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