fora da curva

Muitas vidas em três carreiras

Dolores Duran, Maysa e Sylvia Telles estiveram à frente de seu tempo como compositoras e como mulheres

Elas buscaram seu lugar na música brasileira como compositoras e mais do que isso: estiveram à frente de seu tempo, levando para o público suas dores, seus amores, suas vontades, seu protagonismo. Como escreve o autor de História da música popular brasileira sem preconceitos, no primeiro volume da série, Rodrigo Faour, não é que não existissem compositoras; foram poucas que superaram as barreiras impostas por um mercado dominado pelos homens e, também, sem terem tido o apoio da família para trilhar essa carreira.

Na lista dessas musas criativas, encontramos três que tiveram vidas breves, porém marcantes e, em especial, inspiradoras. Três mulheres que ocuparam a mesma época, na transição do samba-canção para a Bossa Nova, mas que em nenhum momento perderam suas individualidades na forma de compor e interpretar, fosse qual fosse o movimento musical de ocasião.

Dolores Duran, Maysa e Sylvia Telles se destacaram na música brasileira, mas, infelizmente, partiram cedo desta vida. Das carreiras curtas, vem um forte legado de Dolores, que faleceu aos 29 anos, em 1959; de Maysa, morta aos 40 anos, em 1977; e de Sylvinha Telles, que partiu aos 32 anos, em 1966. Ao lado delas, outros personagens se juntam e ajudam a mostrar e a cruzar um pouco da vida e obra de cada uma delas.

Dolores e Ella

Quando Dolores Duran começou a deixar de lado as canções internacionais e passou a olhar (e a cantar) mais para as composições nordestinas, o alcance da sua voz ampliou-se significativamente. Não que ela não gostasse de cantar em inglês, francês, espanhol e em esperanto, para espanto de muitos. Nada disso: ela queria satisfazer ainda mais seus fãs – e criar outros.

Deixando as boates em segundo plano, ela passou a figurar na Caravana do Paulo Gracindo, trupe que realizava espetáculos nos pavilhões dos subúrbios cariocas. Dolores sabia que trabalhar nesses espaços ou em circos em nada desmerecia o artista. Ao contrário, era uma forma de tornar suas músicas mais conhecidas e de receber o carinho e o aplauso de um público tão perto de si. Afinal, não eram todos nesses bairros mais distantes que tinham condições para acompanhar os programas de auditório das rádios cariocas e, muito menos, ir a boates. E quem ia?

Nesses recintos em Copacabana, o público era bem diferente do subúrbio, como não havia deixar de ser. Variava de políticos, jornalistas, pessoal da alta sociedade e convidados de outras bandas deste mundo. Diz a lenda, por exemplo, que no início dos anos 1950, Ella Fitzgerald estava na plateia quando Dolores cantou My funny Valentine. Ao final da apresentação, a cantora norte-americana foi até Bochecha, apelido de Dolores, deu-lhe um forte abraço e confessou ter sido aquela a melhor interpretação que vira e ouvira daquela música. Um detalhe: tanto ela, Ella, quanto Frank Sinatra também tinham feito gravações da obra composta por Richard Rodgers e Lorenz Hart para o musical Babes in Arms, de 1937 e que depois se transformou em um ícone do jazz.

Para muitos, um elogio como esse era estar no céu. O que não necessariamente combinava com o ambiente das boites, como escreviam os jornais. Uma noite, estavam assistindo à apresentação de Dolores o dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues e o compositor Ronaldo Bôscoli. Passado algum tempo, eis que o Anjo Pornográfico retratado por Ruy Castro solta: “Isso aqui tem uma atmosfera meio sedutora, parece o inferno.” Podia ser.

Quem frequentava aquele ambiente sedutor? Antes de responder, vale dizer como as crooners deviam “frequentar” ou se apresentar nesses locais: com vestidos simples e discretos, com unhas e cabelos sempre em ordem, com um vasto repertório e sempre atualizado. De preferência, era bom que elas não negassem uma palavra ou outra aos frequentadores do recinto.

Dentre os tipos habitués daquele peculiar habitat havia o tconquistador. Era aquele senhor que pedia para entregarem às cantoras ou demais damas, talvez, seu cartão de visita – muito provavelmente com o endereço de sua garçonnière (um pequeno apartamento alugado exclusivamente para encontros fortuitos e extraconjugais no centro da cidade).

Os que falavam alto quando alguém se apresentava também formavam uma tribo. Causavam uma imensa raiva ao artista que ali estava. Os políticos eram os bons clientes que sequer olhavam para o uísque que consumiam. Mas também berravam. “Discutem e elegem-se em uma noite de boite”, disse uma vez Dolores.

Na média, o cliente comum bebia de quatro a cinco doses de uísque por noite. Como o preço do malte era bem salgado, no fim da festa a conta era bem elevada. E era o uísque que ajudava a identificar quem ia à boate pela primeira vez: geralmente era quem perguntava o preço da dose antes de sentar e, depois de o pedir, ficava a vida toda com o mesmo copo na mão.

Os frequentadores chegavam em grupos ou em casais. Não era comum uma mulher desacompanhada entrar nesses locais – ao menos nos mais sérios. Sempre elegantes, elas não dispensavam o perfume francês e disputavam com os homens quem bebia mais. Acabavam se exaltando, falando mais alto com o efeito da bebida, mas logo se calavam quando um cantor ou cantora entrava com uma música sobre um amor incompreendido ou abandono.

Entre os homens havia aqueles que telefonavam para casa, da própria boate, dando uma desculpa (ou informando) à esposa que estavam com amigos, resolvendo um problema importante. O problema era, às vezes, como justificar a voz de Dolores ao fundo da conversa. Mas sempre havia uma saída: a música vinha de uma vitrola, porque a esposa do amigo fazia questão de mostrar o último sucesso de Dolores Duran.

Depois de cantar para toda essa gama de frequentadores, era a hora de largar o batente, sair do “escurinho” da boate e admirar o dia que nascia. Quando o dia estava feio e chuvoso, Dolores se sentia deprimida ao ir para casa. “A sensação de solidão é tão concreta que chamo o primeiro táxi que passa e corro para casa, em busca de mim mesma.” Mas quando o dia amanhecia ensolarado, ela sentia uma alegria imensa de viver e saía caminhando pela praia, a pé. E foi um dia desses que a inspirou a compor “Estrada do sol”: “É de manhã/Vem o sol/Mas os pingos da chuva/Que ontem caiu/

Ainda estão a brilhar/Ainda estão a dançar/Ao vento alegre/Que me traz esta canção”.

Cigarro como arma

Dona de um espírito indômito (se é que essa construção é possível), que talvez rivalizasse com João Gilberto em termos de exigências em relação ao comportamento do público, Maysa não se incomodava em dar bronca em quem estivesse atrapalhando sua performance – fosse em uma pequena boate ou no Canecão.

Em uma entrevista dada ao Pasquim (cujo título na capa era Maysa em matéria de uísque é zero ou 80), em julho de 1969, ela lembrou do dia em que um senhor, naquela grande plateia (sempre atenta e em silêncio), cismava em acompanhá-la nos vocais, com aquela voz pastosa de quem já havia passado há muito do limite considerável de consumo de álcool. Chateada e muito irritada com essa perturbação, a cantora chamou o diretor do local, que era um “armário”, para falar com aquele senhor. A conversa deu certo, obviamente.

E se não desse resultado, qual seria a alternativa? Em outras circunstâncias, Maysa jogaria o microfone na cabeça da pessoa ou o cigarro que ela estivesse fumando, como aconteceu certa vez no Copacabana Palace: um indivíduo fumava um charuto bem na frente dela. Durante a apresentação, a fumaça do cubano vencia com folga e em termos de odor a do o cigarro que ela fumava. O incômodo crescia e a paciência diminuía razão direta do tamanho do charuto e cigarro ao serem consumidos. Depois de muito insistir sem resultados, sobrou a última arma que ela tinha para resolver a questão: um “tiro” certeiro, com seu cigarro, na cara daquele senhor. O público inteiro a aplaudiu de pé.

Na época dessa entrevista, Maysa tinha largado a bebida, uma companheira que causou muitos dissabores dela com, por exemplo, a imprensa. O texto de abertura no Pasquim já trazia essa informação ao informar que, durante a conversa, houve apenas um pequeno senão: “o protesto de Jaguar contra a ausência do uísque e a presença do cafezinho.”

A equipe afiada do Pasquim relembrou o que teria sido uma frase de Antônio Maria sobre Maysa: a de que a voz dela cabia dentro do bolso do colete da sensibilidade geral. Tratava-se, dizia o texto, de uma meia verdade: “não há quem, depois de um bate papo com ela, não chegue à conclusão de que toda Maysa é feita de sensibilidade”.

Tarso de Castro, um dos entrevistadores, comentou sobre a época em que havia uma campanha sistemática contra a cantora em função de seus altos e baixos. Como isso poderia ter começado? A resposta veio rápida: “Acho que foi no primeiro pileque. Vai ver foi porque não convidei todos eles para tomar pileque junto comigo. Foi em 58, 59, por aí…” Por falar em pileque, Maysa relembrou o momento em que conheceu a atriz Ava Gardner, na Espanha. “Conheci, mas ela estava de pileque e eu também, de maneira que não deu pra gente se conhecer”, disse.

Ainda naquela entrevista, Maysa falou um pouco do show que faria a seguir no teatro, no qual levaria um pouco de Dolores Duran e Antônio Maria. “Dolores era uma pessoa sensacional”, disse. “[Antônio Maria] era uma coisa genial, fora de série. A gente morava no Hotel Plaza, vivíamos brigado; a gente se cruzava, todo mundo bêbado, trocávamos palavrão.”

A noite de meu bem

Antônio Maria era um dos frequentadores do, entre outros, Villarino, um dos bares mais famosos da época. Por ali passaram nomes ilustres como o compositor Fernando Lobo, o pintor Di Cavalcanti, Ari Barroso, a artista plástica Lígia Clark, Dolores Duran e eventualmente Manuel Bandeira que, com Paulo Mendes Campos, arrastou certa noite Pablo Neruda para aquelas mesas. Foi lá que o jornalista Lúcio Rangel apresentou Tom Jobim a Vinícius de Moraes, para que aquele musicasse Orfeu do Carnaval, peça/musical que, em 1959, foi para os cinemas pelas mãos do diretor francês Marcel Camus como Orfeu negro. O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1959, e o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960, representando o país berço da música Ne me quitte pas, eternizada por estas bandas na voz de Maysa (sim, é a França).

Quem também era encontrado nas mesas do Villarino era o escritor mineiro Paulo Mendes Campos. Certa vez, ele revelou uma qualidade que ninguém conhecia: a de liderar uma greve. Isso mesmo. Ele estava na direção do movimento que se recusava a beber qualquer dose de uísque naquele recinto, e em outros, em função do alto valor cobrado por uma (pequena) dose de tão precioso (e falsificado) líquido. O caso não durou muito, mas chamou a atenção da mídia em março de 1956.

Mendes Campos era amigo de Antônio e de Dolores. Quem não era? Anos depois da morte da cantora, o mineiro descreveu, na revista Manchete (de 28 de dezembro de 1974) o início da carreira dela de forma criativa e leve: “[Dolores] acabou sendo levada ao programa de calouros da Rádio Tupi, dirigido por um temível capeta chamado Ari Barroso. Pois o diabo não era tão feio quanto o pintavam, a não ser quando os concorrentes desafinavam. E apesar de Adiléia [verdadeiro nome de Dolores] ter cantado, em português e espanhol, um bolero mexicano, Ari encantou-se com a afinação da menina de dez anos, dando-lhe a nota máxima e a fabuloso prêmio de 500 mil-réis”.

Ainda no mesmo texto, trouxe duas declarações fortemente emotivas. Uma era de Bibi Ferreira. Dizia ela que Antônio Maria e Dolores Duran, se tivessem sido irmãos, não seriam tão parecidos. A explicação para isso era relativamente simples: gostavam de viver mais de noite do que de dia, faziam canções, precisavam de amor para respirar, eram “puxados pra gordo” e, mesmo na hora da morte, foram atingidos por um só inimigo: o coração. Finalizava, no texto, afirmando que a obra que ambos deixaram permitia descobrir a expressão maior da semelhança: “os dois se refugiavam do absurdo do mundo, que eles revelaram com humor e amargura, na desesperada aventura afetiva. O amor era o último reduto dos dois.”

O outro relato era de Maysa, que lembrou do dia em que iria estrear na boate Little Club. Como estava atrasada e sabendo que boa parte dos frequentadores que estavam ali iriam depois para a Bacará ouvir Dolores, pediu que ligassem para a outra casa. A ideia era combinar que o show de Dolores também se atrasasse um pouco, para que todos pudessem acompanhar as duas grandes artistas. Infelizmente isso não foi possível. Maysa foi informada que, naquele dia, Dolores falecera. Foi a pior apresentação de Maysa, palavras dela.

Depois que Dolores morreu, foram vários os artigos destacando o talento e a falta que ela faria. No Diário da Noite, em 28 de outubro de 1959, o colunista Briabê lembrava do dia em que ele trabalhava da Rádio Nacional, como ela. Contou ele que Dolores chegou chorando. Diante da preocupação do amigo, ela disse apenas: “Deixa prá lá… A gente briga e diz tanta coisa que não quer dizer… É o diabo!…” Essa frase, mais tarde, seria o começo de um dos sucessos da cantora: Castigo. Antônio Maria via nessa música um poder de Dolores em dizer o que nenhum outro compositor ou letrista conseguira traduzir antes.

E Paulo Mendes Campos não deixou de fora o talento da letrista Dolores no tal artigo na revista da família Bloch. Ressaltou a singeleza dos versos de A noite do meu bem, que enternecia os notívagos: “Hoje/eu quero a rosa mais linda que houver/e a primeira estrela que vier/para enfeitar a noite de meu bem”.

Há quem afirme que essa música foi composta na casa do apresentador Flávio Cavalcanti e que o papel no qual Dolores escrevera a letra foi emoldurado pela esposa dele, dona Belinha. Há também quem diga que a música tenha sido feita por Dolores pensando em Nonato Pinheiro, um grande amor do qual falaremos mais adiante. E assim como Antônio Maria, Flávio tem uma participação especial na vida das três cantoras.

Há quem lembre dele apenas em seu programa no SBT, em meados dos anos 1980, erguendo o dedo indicador para o ar, dizendo logo em seguida “Um instante, maestro!”. Ou das cenas em que quebrava, literalmente, um disco de vinil que não fosse de seu agrado, que não passasse por seu crivo altamente elevado (se é que essa construção é possível). Era tão ou mais exigente quanto Ari Barroso e Sílvio Túlio Cardoso, outro crítico da época.

Na casa de Flávio havia uma discoteca de fazer inveja. Hoje, talvez sequer causasse espanto para algum tocador de música como Spotify ou Deezer, que conseguem armazenar milhares de canções e podcasts: na discoteca do apresentador havia cerca de seis mil gravações. Eram, na sua maior parte, gravações não comerciais, curiosidades, excentricidades, interpretações bonitas, gravadas em acetato. Um acervo valioso, de mais de meio milhão de cruzeiros, em 1956.

Além de colecionador, Flávio e seu irmão Celso, um diplomata como Vinícius de Moraes, eram grandes compositores dos chamados sambas modernos, como Mancha de batom, gravada pelos Cariocas; Ninguém, samba-canção gravado por Heleninha Costa; e Manias, samba imortalizado na voz de… Dolores Duran, sua amiga.

Flávio faleceu dias depois de ter um infarto durante o programa que apresentava ao vivo no canal de Sílvio Santos, em 1986. Foi também em função de um infarto que Sergio Porto e Antônio Maria também passaram para a outra margem do rio (numa alusão ao texto de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio, do livro Primeiras estórias, lançado em 1962).

Antônio se autodeclarava um “cardisplicente”, como ele mesmo escreveu em uma crônica em 23 de julho de 1964: “Com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha do próprio coração). Profissão: Esperança.”

Antônio faleceu em 15 de outubro daquele mesmo ano, deixando clássicos como Suas mãos (gravado por Sylvia Telles e Maysa, em 1958), O amor e a rosa (por Elizeth Cardoso, em 1960), A canção dos seus olhos (gravada em 1960 por Elizeth, Maysa e Hebe Camargo), Canção da volta (lançada em 1954 por Dolores Duran), Madrugada 3:05 (gravada em 1955 por Nora Ney), a Valsa de uma cidade (interpretada por Lúcio Alves em 1954) e, claro, Ninguém me ama (gravada em 1952 por Nora Ney).

Cardisplicente até o fim

Antônio Maria era dono de um humor inigualável (assim como Sergio Porto na pele de Stanislaw Ponte Preta) e um cronista de primeira linha (também como Sergio, mas na pele de Sergio mesmo; A casa demolida é a obra em que ele mostra seu lado cronista não mundano, como Stanislaw fazia).

O primeiro contato entre Antônio e Dolores foi na boate Vogue. Escreveu ele que ela cantava “escondidinha, fora da luz, atrás do saxofonista”. Quase não dava para ver seu rosto redondinho e suas bochechas características. “Fizemo-nos amigos”, contou. Dali em diante, foi uma relação próxima, de respeito e admiração mútuos.

Ele também escreveu para Maysa (Bilhete fraternal, talvez útil, de 1958), quando a cantora passara por mais uma de suas crises de depressão: “(…) O suicídio contém uma desforra, e este é o seu lado fascinante. Mas o suicídio contém a morte, e este é o seu defeito irreparável. Nunca morrer hoje, quando se pode morrer amanhã… ou daqui a cem anos. Há muito o que ver e sentir, há muito o que amar! (…) Minha jovem amiga, abra uma janela de sua casa – a que dá para o mar ou para a montanha. Procure o mundo e dê-se por perdida. Viva, sem a nervosia de procurar-se a si mesma, porque cada um de nós é um perdido, um ilustre perdido na humanidade vária e numerosa. Viva, que no fim dá certo. É o seu amigo, A.M.”

Dois lados de um só coração cardispliscente: o humor e o amor/carinho com o próximo na mesma dose em momentos distintos, com textos precisos e frases marcantes e duradouras. Uma dessas frases acabou aproximando Antônio Maria de Dolores pouco antes da morte da cantora, em 1959.

Naquele dia, Dolores saiu mais cedo da boate Little Club e foi com alguns amigos para o Clube da Aeronáutica, onde era realizada uma festa. Depois, já que a noite ainda era uma criança, passaram pelo Kilt Club. A alta madrugada se instalou e Dolores foi uma das últimas a sair.

Chegou em casa, viu a filha Fernanda e recomendou à empregada que não a acordasse para o almoço. Pediu simplesmente: “Não me acorde, estou cansada. Vou dormir até morrer”. Seu amigo Antônio Maria, por sua vez, sempre dizia a quem dividia o apartamento com ele: “Se você me encontrar dormindo, deixe. Morto, acorde-me”.

Chegado o horário de a cantora se preparar para mais um dia/noite de trabalho, por volta das 19 horas, a empregada foi chamá-la para o jantar. Não obteve resposta, ficou preocupada e não teve dúvida: chamou a vizinha e entraram as duas no quarto. Dolores falecera.

Morreu na época em que seu nome ganhava mais repercussão, em especial como compositora, em um país marcado por uma espécie de patriarcalismo criativo.

Em seu velório e enterro, muitos amigos estiveram presentes como Maysa, Sylvia Telles, Marisa, Mister Eco, Herivelto Martins, Billy Blanco (que fora seu namorado), Flávio Cavalcanti e muitos outros. Uma das inúmeras coroas de flores chamava a atenção. Era do compositor Fernando Cesar e na faixa trazia apenas “Dolores… Não havia rosas…”

Baudelaire na boate

Diz a lenda que, certa vez, Antônio Maria, ao entrar em uma boate, foi recepcionado com os acordes de Ninguém me ama. Sua reação não poderia ser outra: foi até o pequeno palco, tomou o microfone das mãos do crooner e tascou uma nova versão: “Ninguém me ama/Ninguém me quer/Ninguém me chama de Baudelaire…”

Muita gente amava Antônio. Muitas mulheres se apaixonaram por ele. Algumas conseguiram vencer o charme a sedução dele. Como Maysa, em 1957. Ela era a entrevistada do programa Antônio Maria na TV Rio. A cantada que ela recebia por meio de olhares, palavras e toques sutis das mãos de quem, um dia, compôs Suas mãos era mais do que clara. O que cativava Antônio? O jeito independente e sua voz característica ou o olhar de Maysa? Aqueles olhos não pacíficos, como descreveu em um poema o também pernambucano (como Antônio) Manuel Bandeira? Danuza Leão, uma das mulheres mais bonitas da época, modelo internacional, não teve muita chance: acabou se separando do jornalista Samuel Weiner, fundador do Última Hora, e foi viver com Antônio. Mas Maysa estava irredutível.

Maysa gostava de Manuel Bandeira, mas tinha um carinho maior por Carlos Drummond de Andrade. E é a partir do poema Quadrilha do poeta itabirano que vamos descrever a linha apaixonada de nossos personagens: Maysa foi “cantada” por Antônio, que se apaixonou por Danuza, que era irmã de Nara (Leão), que casou com Ronaldo, que namorou com Maysa quando ainda namorava Nara. Ah! E Ronaldo depois casou com Sylvia. Há, ainda, quem sustente que Maysa tivera um caso com Mario, irmão de Sylvia.

Do encontro dos corações de Ronaldo Bôscoli e Maysa nessa trova surgiu do disco O barquinho, um trabalho só de bossa nova gravado inteiramente pela cantora, que, assim, ajudou a divulgar aqueles novos nomes do cancioneiro brasileiro. O futuro marido incluído, claro.

Bôscoli estava na relação dos artistas que iriam para os EUA, em 1962, a fim de participarem do Festival de Bossa Nova, no Carnegie Hall. Estava, mas não foi para o show que escancarou as portas americanas para o som que se fazia abaixo do Equador. Em seu lugar seguiu Sílvio Túlio Cardoso, aquele crítico tão rigoroso (ou chato?) quanto Ari Barroso e Flávio Cavalcanti – muito embora não fosse tão certeiro em algumas previsões como estes. No lançamento, pela Odeon, do disco Beatlemania, em 1964, Sílvio vaticinou em um texto que os quatro rapazes de Liverpool possuíam uma alegria pura e juvenil, diferentemente de tudo o que já se ouvira naquela época em matéria de “submúsica”. “Os Beatles”, escreveu, “vão passar depressa. Dentro de seis meses, eles estarão mais superados que o cha cha cha e o bambolê.” Beatles são mitos. Bambolê idem.

“Um mito, creio eu, tem várias biografias e, como nós mortais, apenas uma vida. A poucos é dado conhecer a verdade de um mito. Um pedaço, pequeno e profundo eu conheci de Maysa”, escreveu Ronaldo Bôscoli, na revista Manchete na edição de 12 de fevereiro de 1977. Segundo ele, como todo mito que se preza e se despreza também, Maysa viveu várias vidas, cumprindo os mais diversos papéis que lhe foram destinados. “Maysa aceitou a imagem que lhe plasmaram, nela se defendeu e dela se defendeu, conforme o caso. Daí os desencontros, as contradições, as amarguras sufocantes, os caminhos e descaminhos.”
Bôscoli trazia à luz uma das faces iluminada de Maysa, embora esta não tivesse tido intimidade com a felicidade. “E ela sempre tratou muito mal as pessoas ou elementos mais fortes que ela. Aí está uma parte da equação. Maysa só era feliz por distração. Eu fui testemunha desses imensos pequenos momentos.”

Apesar de emotivo, no texto não faltaram exemplos do lado alegre da cantora, como a viagem dos dois ao Uruguai. Estava no mesmo hotel que eles o cantor Nat King Cole. A dupla de brasileiros, juntamente com o músico Luiz Eça, queriam muito assistir ao espetáculo do moço, fizeram as contas e perceberam que não tinham o suficiente para pagar as entradas. Mas se fossem duas mulheres e um homem, isso seria possível – uma vez que elas pagavam meia… A estratégia adotada foi Maysa ir vestida de smoking e Bôscoli e Luiz com os vestidos longos dela… Não deu certo, mas chamaram a atenção.

Coqueiro que dá coco?

Se Ary Barroso era muito temido pelos calouros, dos quais pegava no pé de cada um com perguntas e mais perguntas, um temível capeta como escrevera Paulo Mendes Campos, havia quem não se intimidava com ele e pegava no pé do dito apresentador.

Essa pessoa era Flávio Cavalcanti, que não escondia suas críticas a um trecho da música mais conhecida (até internacionalmente) de Barroso, Aquarela do Brasil. “Como é que é, Ari, esse coqueiro que dá coco?”, era a pergunta com a qual Flávio provocava o outro. Mas em uma coisa Flávio não pegava no pé de Ari e nem discordava dele: o talento de Dolores Duran.

Quando ainda era Adiléia, Dolores passou pelo crivo de Ari Barroso em seu programa de calouros. Antes de cantar Vereda tropical, a menina de 10 anos ainda teve de responder às perguntas do apresentador que, ao final da apresentação, lançou a promessa: “Esse tiquinho de gente vai longe. Tomem nota!” E ele acertou ainda mais uma: o futuro da então adolescente Sylvia D’Atri, que depois seria mais conhecida como Sylvinha Telles. Logo depois de ela vencer o concurso de calouros, ouviu de Ari que se ela quisesse ser uma grande cantora, poderia. Sylvia estava empatada na disputa com uma cantora lírica e ganhou em função do voto de minerva do apresentador. Entre uma obra da música clássica tocada pelo concorrente e o samba Amendoim torradinho, que Sylvinha cantou, levou a melhor o segundo – que agora é um clássico.

Parecia ironia do destino. O pai de Sylvia encarava como artista uma cantora ou cantor lírico, ou uma bailarina, por exemplo. Essa história de cantar samba não era lá uma arte e muito menos ser um(a) artista. Sylvia chegou a aprender balé, talvez para satisfazer essa ideia do pai, mas a música “encantou” mais seu coração, por mais que seu pai torcesse o nariz para isso. Ele acabou, digamos, dançando.

Família, ao que parece, foi um obstáculo na vida (e carreira, obviamente) de Dolores, Maysa e Sylvia.

Uma das paixões de Dolores era o jovem de classe média típica carioca Nonato Pinheiro que, diziam, era um dos destaques dos jogos de futebol nas areias de Copacabana e Ipanema. Ele e Dolores engataram o romance, mas tiveram pela frente a barreira da família do rapaz. A ideia de alguém tendo um relacionamento com uma cantora (ou cantor) de boate, de samba, não era muito bem aceita naquela época. O preconceito era grande.

Se, para a família de Sylvia, a arte era o clássico e se para a família de Nonato samba e boates não era sinônimos de respeito, para a família Matarazzo, ver a esposa de um de seus descendentes na capa de um disco era um pecado – imagina, então, ter uma carreira como cantora. Boate, para o casal André e Maysa Matarazzo, significava encontros com amigos para beber, mas apenas na plateia. Era assim que eles faziam na boate Cave, em São Paulo.

Quando o convite para Maysa gravar um disco apareceu, as nuvens ficaram carregadas. Para não criar um clima ruim nas reuniões familiares, ficou decidido que o disco dela até poderia sair, mas com algumas condições: a capa não deveria ter a foto de Maysa e parte das vendas seria revertida para o Hospital Central do Câncer, que os Matarazzo ajudavam. E assim saiu Convite para ouvir Maysa, com um bouquet de flores na capa.

Mas vale dizer que, apesar das condições impostas, Maysa chegou chegando.

Mestre Sílvio

“Quem é Maysa?”, perguntava a matéria da revista Radiolândia em 26 de janeiro de 1957. Quem era aquela moça da sociedade paulistana, filha de um graduado funcionário público, Alcebíades Monjardin, e de dona Inah Monjardin? Quem era aquela pérola descoberta em meados de 1956 por Roberto Corte Real, um influente diretor da gravadora RGE? O talento da moça era tamanho a ponto de o executivo logo a convidar para gravar um disco (com todas as condições mencionadas acima).

Maysa era um talento precoce, assim como Dolores e Sylvia Telles. Mas antes de entrarmos nesse terreno, convém situar o contexto em que Maysa vivia e convivia.

Embora tenha estudado piano desde os seis anos, seu domínio sobre as teclas brancas e pretas não era suficiente para ajudá-la a escrever a melodia e a harmonia de suas músicas. Restava o violão. E ela não tinha como não aprender bem tendo o professor que teve: nada mais, nada menos, que Sílvio Caldas, um amigo e habitué da casa dos pais dela. Estava a aluna Maysa com seus 14 anos na época desse aprendizado.

Sílvio Caldas e Elizeth Cardoso faziam parte da seleta lista dos prediletos de Maysa. Existiam outros, obviamente. O top do ranking dos compositores era Noel Rosa, seguido de Orestes Barbosa, Sílvio Caldas, claro, Ari Barroso, Adoniran Barbosa e Antônio Maria, com quem ficaria trocando palavrões no Hotel Plaza, como vimos.

Na reportagem de Radiolândia, Maysa explicava como era o processo de criação de seus sambas-canções, que muitos consideravam demasiadamente tristes, mas que correspondiam à sensibilidade dela no momento de criação. O processo era assim: primeiro, ela criava a melodia, gravando-a em um “gravador de fita” (para os mais novos isso pode ser algo incompreensível); depois, encaixava os versos, “em momentos extremados de alegria ou melancolia”. O restante era com o maestro. O método era tão bom que tinha até o aval de Elizete Cardoso, que estivera “inda há pouco a tomar chá” com ela naquele mesmo local e dia daquela entrevista.

Se Dolores enfrentou Ari Barroso aos 10 anos e Sylvia aos 19, vale lembrar que Maysa começou a compor aos 12 anos. Adeus, uma das oito faixas do disco de estreia da cantora, é um exemplo: “Adeus/palavra tão corriqueira/que disse a semana inteira/a alguém que se conhece…” Quem com 12 anos pensaria nesse tema? As demais faixas também eram de sua autoria. Quem poderia já começar a carreira com um disco autoral, sem ter passado por boates e rádios e, mesmo assim, chamar a atenção do público? Maysa!

Reações confusas

Sabe aquele amigo que entra na sala, esbaforido e muito ansioso, para contar uma novidade ou dar aquele conselho que ninguém deve perder? Pois bem, assim pareceu o texto de Ricardo Galeno, do jornal Diário Carioca, em sua coluna sobre música. Era 28 de novembro de 1956. Dizia a nota: “Vocês precisam ouvir Maysa Matarazzo. É uma voz que canta mesmo, que transmite mesmo, e que sabe fazer samba como só um Antônio Maria sabe fazer quando quer ou está com a corda toda”. Galeno também destacava que as oito composições eram espetaculares, capazes de “derrubar queixo exigente”. “Sim. Vocês precisam ouvir Maysa Matarazzo. Já. O quanto antes”, reforçava. E isso não era para bajular a moça de sobrenome famoso e rico, até porque se ela fosse “da Silva” o recado seria o mesmo. Tratava-se de uma interpretação “elefantina” de uma compositora “de rebimbar o malho” [leia-se “excelente”].

O sobrenome Matarazzo chegou a incomodar. Não Maysa, mas muitos jornalistas e críticos. Aqueles olhos não pacíficos e a voz rouca talvez ajudassem a deixar as opiniões sobre Maysa confusas. O jornalista Jota Efe, do Diário da Noite, em matéria de 12 de novembro de 1957, na coluna Sobre as ondas, escrevia que Maysa era um nome “que se fez à custa de um sobrenome” – e de muita inteligência também, capaz de atrair para si a publicidade e a atenção dos ouvintes.

Sim, Maysa era inteligente e a prova disso, segundo ele, era que se fez cantora sem ter voz e se tornou popular sem se comunicar com o público. “Fechada em si mesma, demonstrando nos gestos parados e na expressão fria um recalcado desprezo por tudo e todos que a cercam, ela desperta a curiosidade pelo erotismo de sua presença: lábios sem sorrisos, olhar mesclado de tristeza e revolta, cabelos cuidadosamente desalinhados”, escreveu Jota Efe para definir o que era uma beleza trágica, daquelas que não se pode ver sem se fixar nela.

Esse sentimento confuso de quem se vê às voltas de uma cantora que não tem motivos para atrair a atenção, mas que por isso mesmo atrai, talvez fosse fruto da argúcia e do amplo conhecimento da psicologia das massas que Maysa possuía. A voz que nunca teve, continuou o jornalista, não lhe faria falta para cantar seu repertório “de meia dúzia de samboleros” inexpressivos”. “O público é ingênuo e bom. Não merece aquele olhar de desprezo que Maysa lhe dirige através da televisão”, escreveu Jota Efe.

A mesma mistura de gostar e não gostar estava presente no texto do colunista Barnabé, no Correio da Manhã de 11 de junho de 1958, na seção Rádio&TV. Para ele, ninguém poderia afirmar que ela era uma grande cantora. Como também não se dizia que era má cantora. Os aplausos a ela não eram exagerados, não havia gritos da plateia enaltecendo a performance ou voz da cantora. Como também ninguém deixava de aplaudi-la, “e não se esquecia de sacudir com a cabeça, positivamente, querendo dizer que a sua voz e maneira diferente do interpretar seu repertório, também próprio ao seu estilo, agradava bastante”. Com esse jeito, Maysa ia avançando artisticamente em todas as camadas sociais.

Na TV, ainda de acordo com Barnabé, ela parecia não ter a mesma performance como a que tinha nos discos, com sua voz e ritmo moderados. Em frente às câmeras, ela se mantinha parada, com aquela fisionomia triste, sem encarar o público que a via do outro lado da tela. Mas, sua voz cobria todas essas falhas.

O texto, na verdade, não tratava de como Maysa era, mas da chegada dela à rádio Mayrink Veiga. Recém contratada da emissora, ela era esperada por um grupo de jornalistas para um bate papo e, depois, para sua estreia no auditório da rádio carioca, às 22 horas. Em meio à vida da artista retratada nas colunas (algumas maledicentes) dos jornais, com seus altos e baixos, havia quem suspeitasse que ela chegaria muito atrasada, para dizer o mínimo. “Muitos até acharam loucura da direção da emissora, só em pensar apresentá-la no auditório da A-9. E por um triz os prognosticadores saíam vitoriosos. Pouco faltava para o esperado momento da estreia da cantora e a turma andava preocupada com a sua chegada. Vinte duas horas, eis que lá estava Maysa no palco da Mayrink Veiga”, escreveu Barnabé. “Completamente bem, surgiu. Sem nenhum sinal que muitos esperavam ver, em virtude dos tolos boatos de mentirosos suicídios. Maysa cantou e agradou a todos.” O texto deixava claro que ela era uma artista que fazia sucesso à distância, e que poucos fãs seus tinham o prazer de sentir de perto a sua figura. Mas o povo que, tempos depois, foi vê-la no Canecão teve esse prazer. Menos aquele senhor embriagado que teimava em cantar com ela…

Morena de 20 anos

Na capa da edição de 4 de outubro de 1958 da revista O Cruzeiro, uma chamada interessante: “Calvície já tem cura”. Uma promessa constante para quem sofre de queda de cabelos e que ainda não conhece um medicamento que seja “tiro e queda” para esse problema – quer dizer, no caso, tiro, sem a queda. Mas em outra reportagem da mesma edição, feita por Ary Vasconcelos, uma promessa se tornara real.

Começa o jornalista: “Há três anos, escrevemos esta frase sobre Sylvinha Telles, então inteiramente desconhecida do público: ‘Anotem o nome dela num caderninho e confiram dentro em pouco’. Os que seguiram nosso conselho podem ir buscar agora o caderninho e conferir. Sylvinha é hoje uma das coisas mais sérias em matéria de cantora brasileira e sua popularidade vai subir ainda muito.”

Há três anos, em 1955, Sylvia foi a vencedora como “Revelação do ano” do concurso patrocinado pela Revista do Disco. Jovem, com seus quase 20 anos e a pele morena graças ao sol das praias da zona sul, ela estava, naquela época, noiva de Candido de Melo Matos, o “Candinho da Guitarra”, que fazia parte do elenco da emissora Mayrink Veiga.

Embora tenha sido uma revelação para o rádio, muitos concordavam em dizer que ela nascera mesmo para a TV. Aliás, era uma das pessoas que mais se destacavam na TV-Rio, em seu programa aos sábados, às 21 horas. Era quando mostrava a voz de uma beleza rara que possuía e a sua interpretação que dava a impressão de que ela de fato vivia o que cantava.

Sylvia gravou Desejo, música feita especialmente para o filme Chico Viola não morreu, uma cinebiografia de Francisco Alves (com Cyl Franey no papel). Na telona, a atriz Inalda era dublada por Sylvia. A voz dela, por sinal, era uma das poucas coisas boas naquela fita. Assim como Dolores o foi no filme Rico ri à toa, de 1957, dirigido por Roberto Farias. Dolores aparecia cantando apenas uma música, Tião, tendo como cenário ao fundo, uma favela estilizada.

Em 1958, Sylvia recebeu um convite para um show. Era uma iniciativa de um grupo de jovens músicos que estavam se reunindo no apartamento de Nara Leão, então com seus 15 anos. Ronaldo Bôscoli fazia parte do time e era uma espécie de produtor musical daquela patota. Sylvia, então já conhecida, foi convidada para participar de um espetáculo no Grupo Universitário Hebraico. Com ela estavam Carlos Lyra, Roberto Menescal, entre outros no show que teve como nome: “Carlos Lyra, Sylvia Telles e os seus bossa nova”. Foi nesse momento que a expressão “bossa nova” teria sido divulgada pela primeira vez.

Mas não se pode dizer que antes desse episódio não existia a Bossa Nova. Dolores, Maysa, Sylvia e tantas outras e outros já traziam em suas interpretações a semente daquela nova onda musical – bem como seus principais compositores, como Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Sylvia, aliás, foi a primeira artista a gravar um disco apenas com composições de Tom. E foi ela, também, a inaugurar o que seria a fase dos discos de exportação, ou melhor, trabalhos voltados exclusivamente para o mercado internacional. Não por acaso, o primeiro foi The Music of Mr. Jobim by Sylvia Telles, em 1965. Muita gente torceu o nariz. “Era só que faltava, disco brasileiro com título em inglês, aff!”. Será que Sylvia estava ficando americanizada como disseram de Carmem Miranda?

Quem poderia responder era Aloiso Azevedo, dono da gravadora Elenco, que lançara o disco. Ele foi um dos integrantes do Bando da Lua, que acompanhou a carreira de Carmem Miranda por onde ela passou e, também, marido de Sylvia.

Numa entrevista a Tarik de Souza, no Jornal do Brasil (em 29 de março de 1988), Aloisio contou que Sylvinha e Carmem eram “seres especiais, com alguma coisa que se poderia chamar de sobrenatural, um magnetismo, uma força interior devastadora”. Para ele, Sylvinha tinha a mesma energia que Greta Garbo nos filmes. E que nunca envelhecia. “Você ouve um disco dela e parece ter sido gravado ontem”, contou.

A cantora iria para os Estados Unidos no fim de 1966, para o lançamento de seu segundo disco “exportação” (Sylvia Telles sings the wonderful songs of Antonio Carlos Jobim). No entanto, isso não aconteceu. Aquela cantora que, ao contrário de Maysa, encarava as câmeras de forma doce, que deixava transparecer toda a emoção da letra e que trazia consigo um novo modo de cantar, cativante, ficou pelo caminho. No dia17 de dezembro, ela e seu namorado Horacinho de Carvalho, filho da socialite Lily de Carvalho Marinho, sofreram um acidente de automóvel na Rodovia Amaral Peixoto, em Maricá (RJ).

Anos mais tarde, em 1977, foi Maysa. Estava indo para a mesma cidade, mas perdeu o controle da brasília que dirigia na Ponte Rio-Niterói, indo chocar-se com a mureta central que divide as duas pistas da ponte. Estava sóbria, ia para seu refúgio. E como todas as biografias dela cita: em uma de suas últimas anotações no diário que a acompanhava desde adolescente, registrou: “Hoje é novembro de 1976, sou viúva, tenho 40 anos de idade e sou uma mulher só. O que dirá o futuro?”

(matéria publicada originalmente na revista Esfera Brasil)

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