fora da curva

Epílogo: a revolução começa no prato

Os recados que não devem ficar fora da lista de compras. Ou melhor, do cardápio de gestores e colaboradores para uma boa (di)gestão

Caros e caras, vocês chegaram à terceira parte de nosso tratado. (a primeira parte está aqui, a segunda aqui, e a última a seguir). Sejam vocês senhores feudais de gravata ou servos de crachá, a mensagem é clara e retumbante como sino de catedral medieval em dia santo:

  • para os gestores: investir na alimentação dos funcionários não é caridade, é estratégia de negócio. É impossível exigir alta performance de pessoas mal alimentadas, assim como era impossível exigir que um cavalo de guerra faminto vencesse batalhas.

 [Nota da redação: conforme já mencionado, pesquisas do CIPD (Reino Unido) mostram retorno de £5 para cada £1 investido em bem-estar nutricional. A matemática é simples até para um escriba medieval.]. Se após ler este tratado sua empresa ainda oferece apenas um micro-ondas quebrado de 1987 e uma mesa plástica com logotipo de cerveja como “refeitório”, prepare-se para:

  • funcionários doentes e desmotivados
  • alta rotatividade (as pessoas vão para empresas que as valorizam)
  • baixa produtividade (especialmente após o almoço)
  • reputação ruim no mercado (Glassdoor não perdoa)

A escolha é sua: investir em nutrição agora, ou pagar muito mais caro depois em custos de saúde, turnover e produtividade perdida.

  • para os trabalhadores: exijam condições dignas! Se no século 13 os servos tinham direito a pausa adequada para alimentação (documentado nos registros das guildas medievais), por que vocês, no século 21, com todas as conquistas trabalhistas, não têm? Atentem para o manifesto abaixo:
A revolução do garfo (ou manifesto pacífico e delicioso):

Proponho uma rebelião pacífica, mas determinada:

recusem-se a comer na mesa de trabalho: é direito de vocês fazer pausa. Sua coluna, seus olhos, e seu estômago agradecem. A produtividade aumenta com pausas adequadas (não diminui, como os chefes medievais pensam)

usem o tempo COMPLETO de almoço: é direito legal, não favor do patrão. Uma hora mínima não é “corpo mole”, é necessidade fisiológica. Quem termina em 15 minutos não é “dedicado”, é candidato a gastrite

escolham alimentos que nutrem, não que apenas seduzem: pastelão de feira é tentador? Sim. É boa escolha? Não. Seu corpo não é lixeira, não jogue qualquer coisa nele. Comida boa não precisa ser cara.

comam com outros humanos: socializar não é perda de tempo, é investimento em saúde mental. As melhores ideias, parcerias, e amizades surgem em conversas de almoço. Até no Pet Day da empresa, comam juntos (os cachorros também apreciam companhia)

mastiguem devagar: calcule que cada garfada deve durar 15-20 mastigadas (cronometrem, sério). A digestão começa na boca, não no estômago. Comer rápido = má digestão = gases = constrangimento em reuniões = trauma existencial

A cereja do bolo que disseram que estava na copa

(Mas era mentira, era só mais uma reunião)

Chegamos, finalmente, ao fim deste épico tratado medieval-moderno sobre alimentação corporativa. Se você chegou até aqui, parabéns: sua capacidade de atenção é superior à de 94% da população (dado do IPO, obviamente). Permita-me, como cronista que o acompanhou nesta jornada digestiva, deixar uma reflexão final:

Alimentação no trabalho não é detalhe. É fundamento.

Empresas que ignoram isso estão, literalmente, jogando dinheiro fora enquanto seus funcionários jogam a saúde fora. É uma perda dupla disfarçada de economia.

Para finalizar a Oração do Trabalhador Bem Alimentado (OBA)

Antes de vos deixar, convido-vos a uma oração laica, inter-religiosa, e universalmente aplicável. Recitai-a mentalmente antes de cada refeição:

Dai-nos hoje o nosso almoço saudável,
E livrai-nos da tentação do rodízio de pizza.
Protegei-nos da modorra vespertina,
E concedei-nos pausa digna para a refeição.
Para que possamos laborar com vigor,
E retornar aos nossos lares sem úlcera ou estresse.
Que nosso prato seja balanceado,
Nossa mastigação adequada,
E nossa digestão abençoada.
Amém (e bom apetite).

P.S. #1:

Se após ler estes dois tratados vossa empresa ainda oferece apenas um micro-ondas de 1987 e uma mesa plástica como “refeitório” (com o logotipo de uma marca de cerveja mal apagado), considerai procurar novo feudo. A vida é curta demais para almoços ruins e chefes que não valorizam vossa digestão.

P.S. #2:

Geraldo, se está lendo isto enquanto come um salgado de feira na frente do computador às 14h23, pare com isso AGORA. Fecha o computador. Vai dar uma volta. Come devagar. Conversa com alguém. Teu fígado, teu pâncreas, teu estômago, e tua carreira agradecem daqui a 20 anos.

P.S. #3:

Para os gestores que pensam “isso é muito caro, não temos orçamento”: vocês não têm orçamento para não fazer isso. Calculem quanto gastam anualmente com plano de saúde, turnover, e produtividade perdida. Depois me agradeçam.

P.S. #4:

Se implementarem alguma dessas estratégias e funcionarem (e vão funcionar), mandem feedback para o RH NO PONTO. Adoramos cases de sucesso. Se não funcionarem, vocês provavelmente fizeram errado, mas também queremos saber para ajudar.

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