de vista

Curiosidade contínua e o espírito de navegar além do óbvio

Como uma escola muito engraçada (que não tinha teto, não tinha nada), um punhado de marujos, um pitch de 11 folhas e a capacidade de aprender saber pivotar deram origem às startups

Soube pelo publisher deste códice alquímico veloz e etéreo [site] que no CONARH deste ano da graça de Nosso Senhor de 2025 um dos temas a ser debatido é ousado: curiosidade contínua. Foi só ouvir isso e minha alma se colocou novamente ao sol e à água salgada no imenso mar que eu via, enquanto ouvia meus companheiros de viagem gemendo de dor e agonia no meio da caravela. Bons tempos nos quais as únicas preocupações para os espíritos indômitos e curiosos eram os dragões marinhos e o escorbuto.

Lembro como se fosse hoje do pitch de Cristóvão Colombo para a rainha Isabel, de Castela. Lá estavam as folhas amareladas, com uma caligrafia horrorosa, mas que trazia uma bela aventura. Seguem-nas, na sequência:

Folha 1_A Rota Poente S.A.
  • Fundador: Cristóvão Colombo
  • A Rota Poente: Conectando Castela às Índias.
  • Slogan: “Chegue ao Leste, navegando para o Oeste.”

Folha 2_O problema
  • O caminho para as especiarias é um pesadelo. A rota terrestre é controlada pelos otomanos, e a rota marítima africana é um monopólio caro e demorado de Portugal.
  • Perdem-se riquezas e poder. Paga-se fortunas por pimenta e seda que chegam por intermediários.

Folha 3_A solução
  • Uma rota direta, rápida e exclusiva para a Coroa de Castela.
  • Apresentamos a Rota Poente! Como a Terra é uma esfera (embora existam divergências alucinadas), navegaremos para o Oeste e, inevitavelmente, alcançaremos o Japão (Cipango) e as Índias.

Folha 4_O produto ou como funciona
  • Usaremos uma tecnologia de ponta, as Caravelas, mais ágeis e seguras.
  • Nossa navegação será guiada por astrolábios, bússolas e cálculos inéditos, que apontam uma distância muito menor do que se imagina.

Folha 5_O mercado
  • O mercado de especiarias, ouro e seda da Ásia é o maior do mundo, valendo milhões de maravedis anualmente.
  • Nosso objetivo é capturar 30% desse fluxo comercial em 10 anos, desviando-o de Veneza e Portugal diretamente para os portos de Castela.

Folha 6_O modelo de negócio
  • Estrutura simples: a Coroa financia e fica com 90% de todas as riquezas e terras.
  • O fundador (Cristóvão Colombo) recebe 10% dos lucros como equity pela descoberta e gestão da rota.

Folha 7_Tração
  • Anos de pesquisa em mapas secretos portugueses e cálculos validados por geógrafos.
  • Conseguir o apoio dos experientes navegadores, os irmãos Pinzón, que acreditam na tese e estão prontos para executar.

Folha 8_A concorrência
  • Rota terrestre: lenta, perigosa, controlada por inimigos.
  • Rota portuguesa (África): longa, cara e já dominada por um rival.
  • Nossa vantagem competitiva: seremos mais rápidos, mais baratos e donos de uma rota exclusiva. Seremos os disruptores do comércio global.

Folha 9_A equipe
  • Cristóvão Colombo (CEO & Head de Inovação): navegador com mais de 20 anos de experiência no Atlântico. O único com a visão e a coragem para este projeto.
  • Irmãos Pinzón (COOs & Capitães): os melhores capitães de Palos. Trazem a credibilidade e a capacidade de execução.
  • Rainha Isabel (investidora-anjo & parceira estratégica): traz o capital, a legitimidade e a visão para transformar Castela na maior potência mundial.

Folha 10_O “ask”

Pedido: financiamento para 3 caravelas, 90 tripulantes e suprimentos.

  • Em troca: novas terras, súditos, riquezas incontáveis e a glória de Deus para a Coroa de Castela.
  • Títulos a serem distribuídos ao CEO: almirante do Mar Oceano e vice-rei das terras descobertas.

Colombo passara anos tentando conseguir financiamento para seu plano de chegar às Índias navegando para o Oeste. Sempre ouvia que a curiosidade havia matado o gato e que todos os mapas sempre terminavam com a inscrição hic sunt dracones (“aqui há dragões”), como sinal de alerta.

Hoje, chamam de “curiosidade contínua” aquilo que chamávamos de vontade de não morrer ignorante, ou, no caso dos reis de Portugal e Espanha, desejo ardente de descobrir especiarias, ouro, rotas comerciais e territórios que pudessem ser convertidos – pelo “F”, de fé ou de força.

Lembro ainda de anos antes ter assistido a uma tertúlia muito interessante em um dia de debates na famosa Escola de Sagres. Pensando bem, tal estabelecimento, por não ter paredes, teto ou qualquer outra estrutura de uma construção, talvez se aproximasse do que seria hoje o que vocês chamam de universidade corporativa ou uma gestão de conhecimento eficaz. Graças ao anfitrião daquela escola, o Infante Dom Henrique, ficamos motivados e engajados numa cultura da qual o grande propósito não era viver. Foram essas as palavras do digníssimo infante: “Navegar é preciso, viver não é preciso. O medo do desconhecido não pode ser maior que a vontade de descobrir novos mundos e novas riquezas para a glória de nosso reino.”

Essas breves frases, ditas durante a jornada de ideias que teve como título “Plus ultra: de audacia navigatorum et finibus mundi ignoti” (algo como “Além do limite: da audácia dos navegantes e dos confins do mundo desconhecido”), matou muita gente. Digo: marcou muita gente.

É claro que sempre há alguém na plateia para soltar um comentário jocoso. “Para que buscar o que não se conhece, se já temos tudo o que precisamos em nossas terras? Deixemos que os monstros marinhos devorem os tolos que se atrevem a desafiar os limites do mundo”, disse um anônimo de mente obtusa e sem o menor pingo de curiosidade. “Que você fique quieto e faça minimamente o que tem a fazer, sem se limitar a mais nada”, gritou um inglês ao saber que tal reclamante era quem servia o vinho e as sardinhas assadas. “Quiet quitting!”, exclamou o súdito do reino bretão.

Já no caminho das Índias traçado por Colombo, minha curiosidade por novos conhecimentos ganhou mais um prêmio. Tinha umas terras no meio do caminho. No meio do caminho tinham umas terras. E não eram as Índias, pelo sotaque. Vendo que sua rota estava errada, Colombo logo gritou: “Erramos! Erramos feio! Mas o mais importante é aprender e corrigir mais brevemente possível! Mandem um pombo-correio para Castela dizendo que vamos pivotar e aprender como aproveitar bem dessas terras”.

– “Great! Let’s start up this new project!”, disse o mesmo inglês que ninguém sabia qye estava na caravela!

– “Yes! Startup! Startup! Startup!”, bradamos em coro.

PS: pedi ao sobredito publisher para que alardeasse minhas ideias. Ele ainda não me nomeou administrador, o que me deixa na dependência dele…

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