a ponto

As dicas de Odair José sobre carreira e de gestão

Ele já esteve no topo, caiu em desgraça no mercado depois de um projeto mais pessoal, mas deu a volta por cima, buscando ser ele mesmo, o “velho Odair”

Fazer um trabalho que tenha relevância de conteúdo e de qualidade, estando aberto para o que é novo e, também, para quem é novo. Quer dizer, aceitar críticas e sugestões a partir de uma ideia, sendo elas também de colaboradores mais jovens, sem preconceito. Ah! E realizar algo que dê prazer, que seja divertido.

Nos manuais corporativos de carreira, esses itens são facilmente encontrados e disseminados entre os que almejam brilhar nos palcos organizacionais. E, curiosamente, essas dicas vêm de quem está nele, no palco, literalmente. Ou melhor, de um profissional que soma mais de cinco décadas diante de várias plateias, entre altos e baixos na carreira. O nome dele? Odair José.

Faz um tempinho, buscando deixar meu computador mais livre, leve e solto (pero non mucho), dou de cara com um arquivo que estava coberto pelo pó do tempo. Depois de assoprar bem, e limpar a placa mãe de lambuja, pude tomar contato com um texto que eu fizera logo depois de ter entrevistado o Odair por e-mail. É como descobrir mais um monte de músicas dos Beatles que estavam perdidas nos estúdios da BBC (olhe a capinha do CD abaixo, numa reprodução da original que tenho cá comigo). O papo com o autor de clássicos como Pare de tomar a pílula foi em 2019.

Em maio daquele ano, Odair José acabara de lançar Hibernar na casa das moças ouvindo rádio (gravadora Monstro Discos), que, diga-se, foi eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre daquele ano da graça de Nosso Senhor pela Associação Paulista de Críticos de Arte. E o título parecia antecipar uma situação que viria pouco tempo depois, com a diferença de que a hibernação, ou isolamento/distanciamento social, não seria necessariamente na casa das “moças”.

Antes de avançar em alguns pontos da conversa com o cantor, vale um parêntesis: cresci ouvindo Odair José. No bar do “seu” Ilídio e da “dona” Maria, meus pais, o rádio não parava de tocar os sucessos dele. Quando era a vez de ligar a TV, nos sábados de manhã, ainda havia a chance de vê-lo no programa do Barros de Alencar, na antiga TV Record… E nunca pensei, muitos anos depois, como jornalista e cobrindo a área de recursos humanos e gestão de pessoas, que “descobriria” na obra de Odair o hino não oficial para o que Steven Hankin, consultor da McKinsey, tratara em um artigo de 1997: a guerra por talentos. Confesso que sempre pensei em usar a música Eu vou tirar você desse lugar (que é de 1972) para servir de pano de fundo para alguma matéria sobre o tema (atração de talentos). Mas com as devidas explicações sobre qual o lugar a que Odair se referia na letra. Uma dica: é o mesmo em que ele foi “hibernar” naquele álbum de 2019, sacou?

Agora, depois desse pequeno comentário, confira alguns trechos da entrevista com músico, cantor e compositor nascido em Goiás.

Fazer algo de relevância. E sem vícios

No fim de 2020, o Grupo Croma, especialista em design de inovação, divulgou dados da segunda edição da Oldiversity, uma pesquisa feita com 2.032 profissionais para entender um pouco a quantas andava o tema diversidade. Um dos pontos abordados foi longevidade. O estudo buscava encontrar caminhos para uma longevidade produtiva, com estabilidade financeira e qualidade de vida, já que a expectativa de ficarmos encarnados neste planeta é cada vez maior. Boa parte dos entrevistados estavam atentos a isso, tanto que 85% deles se mostraram preocupados sobre como estarão no futuro. Já 78% entendiam que as empresas tinham preconceito em contratar pessoas mais velhas, 71% pensavam em como ser produtivos na velhice e 63% investiam em qualidade de vida.

Odair José cuida da vitalidade e da produtividade investindo em qualidade de vida. Ele comentou ter parado, já havia um bom tempo, com alguns vícios (como drogas, álcool, tabagismo e a conhecida boemia). “Passei a prestar mais atenção ao corpo, procurando hábitos mais saudáveis, que envolvem uma disciplina alimentar e de exercícios. Mas, nessa idade e depois de muitos exageros, qualquer novidade não deve ser vista como surpresa!”

Além desses cuidados, outro fator que ajudavam a mantê-lo em dia para enfrentar os palcos e os estúdios nos dias de hoje era o “desejo”: “O desejo de, ainda, realizar um trabalho que tenha relevância de conteúdo e qualidade”, disse.

Aprender sempre e acreditar no poder do simples

Por falar em idade, não é preciso ter mais de 40 anos para conhecer a obra dele ou parte. Em 2006, Odair José foi tema de um tributo que reuniu um pessoal de gerações mais novas que fez releituras de alguns dos clássicos lançados por ele nos anos 1970.

A proximidade com as novas gerações também podia ser encontrada no time que subia aos palcos com ele. Esse encontro de gerações é importante. “Tenho como filosofia aprender sempre, e é bem verdade que o tempo e a vivência na profissão nos permitem um olhar de experiência com menos erros e mais acertos. Mas o profissional de faixa etária e visão mais jovem tem a minha preferência justamente por estar atualizado com seu tempo e isso pode me ajudar a evitar repetições!”

Já não é incomum encontrarmos até quatro gerações diferentes na mesma empresa: baby boomers, X, Y e Z e sabe-se lá as próximas letras, em breve. Nesse ponto, lembro do que disse Marco Ornellas, coach, membro da ICF (International Coaching Federation). Para ele, trata-se de um cenário desafiador e que demanda uma maleabilidade muito grande dos RHs e dos “designers organizacionais”. Isso porque os indivíduos de cada geração compartilham características em comum devido às circunstâncias de seu tempo, muito embora nenhuma delas seja totalmente uniforme. “Porém, mesmo que complexa, essa ‘mistura’ traz ótimos resultados”, escreveu Ornellas em um texto que recebi ainda quando eu era editor da revista Melhor – Gestão de Pessoas. “Assim, é importante que os RHs e a gestão tenham em mente que todos os profissionais, independentemente da geração, são igualmente importantes. E é aqui que o designer organizacional faz a diferença, pois ele é treinado para olhar e entender os contextos e, com base nisso, construir um futuro. O fundamental é saber as características de cada geração para enfrentar os desafios diários.”

Na produção de seus shows, Odair conta com a ajuda de seu filho, Raphael. “É ele que escolhe com quem trabalhar, evidentemente com o meu aval. No caso dos músicos, conto com uma banda pequena, que atinge o meu propósito de mostrar o meu trabalho de forma simples, sem virtuosismo, mas com muita disciplina”, diz. Nesse caso, a banda é de pessoas bem mais jovens. “Enfim, na equipe o único velho sou eu.”

Na banda, temos o clássico formato bateria, baixo e guitarra (lembram-se dos Beatles?). Algo que nos remete, nas empresas, à ideia de que “menos é mais”. E como fazer coisas grandiosas a partir desse “menos”? “O que faz o trabalho ficar grande é justamente o conteúdo do que é apresentado como projeto. Atitude é a eterna busca do simples bem feito”, diz Odair, confessando pensar e criar o trabalho de forma solitária. Claro, depois ele ouve sugestões. “Não fico fechado na coisa do jeito que pensei. Mas, por convicção, não deixo que nada altere o rumo do que foi pensado por mim, só aceito o que agrega e não o que modifica.”

Fazer o melhor para ajudar as pessoas

Apesar de todo o sucesso, e das pautas que abraçava em suas músicas como a defesa de minorias, por exemplo, Odair vivenciou dias de amargura. Em 1978, lançou o disco O Filho de José e Maria, com 24 canções que faziam uma espécie de releitura da vida de Cristo. Arranjou briga com a Igreja, com rádios… foi um período traumático para ele, que acreditava estar fazendo o projeto certo – mas que todo mundo achou errado. “Tive problemas com a censura do Estado, da mídia e, por consequência, de toda a sociedade, dos amigos e até da família. Foi difícil! Mas como o tempo é sempre o melhor crítico, mais de 40 anos depois a qualidade do projeto venceu… É um disco histórico e não tem como imaginar a minha discografia sem ele. Se tornou um divisor de águas”, lembra.

Passado o episódio com esse disco, Odair confessa que sua produção, a partir de então, de alguma forma não mais o representava. Servia apenas às exigências do mercado. “Eu, basicamente, fui à lona como artista e pessoa. Fiquei com medo de pensar e falar, me tornei uma coisa sem propósito. Eu era forte e fiquei fraco! Por 20 anos, fiz trabalhos que não estavam à altura do que eu poderia fazer… Lamento.”

E foi justamente o interesse posterior das pessoas pelo O Filho de José e Maria que o fez repensar o jeito que ele vinha se comportando profissionalmente. Agora, ele afirma que é, “de novo, o velho Odair”. “E o que me motiva é conseguir fazer o meu melhor e que isso possa, de certa forma, ajudar pessoas com as minhas crônicas sobre o que observo”, diz.

O propósito é um dos temas mais relevantes para o profissional contemporâneo. Você sabe qual é o seu? Se a resposta for negativa, não se desespere. Recolha-se um pouco, hiberne em si por alguns momentos, veja o que o move na vida, procure, nesse exercício mudar o olhar. E ir além do que você faz e por que você faz. É um caminho, uma conversa que começa e se mantém de você com você.

Recomeçar sempre

No disco Hibernar na casa das moças ouvindo rádio, Odair José mostra quem é o “velho Odair”. A obra encerra uma trilogia iniciada com os álbuns Dia 16 (de 2015) e Gatos e ratos (de 2016) e deixa aparecer suas influências, como os blues de Keith Richards, os discos solo de Paul McCartney (ex-Beatle, ah, mas você já sabe), e os pioneiros do rock como Chuck Berry e Little Richards, Jimi Hendrix, Santana, Raul Seixas, The Doors e Eric Clapton.

Esse “novo/velho” Odair em nada parece lembrar o “rei do brega”, como alguns o tratavam em outras épocas. Nessa mudança para o “novo”, as experiências ajudaram-no, e muito. “Bateram e eu fiquei fragilizado! Não enfrentei a hipocrisia do sistema com equilíbrio e joguei a toalha, tipo ‘já deu’. Mas a vida continuou e eu tive a chance de recomeçar, pois a qualidade do que havia sido produzido não se apagou com erros profissionais. E reconhecer que as coisas dão errado porque a gente quase sempre permite que em determinado momento não façamos da forma certa faz parte do autoconhecimento.”

E por falar em autoconhecimento… investir nele é cada vez mais importante, tanto para aprimorar as competências que as empresas buscam (as chamadas soft skills) quanto para ampliar a consciência dos diferenciais que cada profissional tem. Buscar constantemente o autoconhecimento contribui muito para conhecermos nossos pontos fortes e fracos e, claro, para compreendermos nossos objetivos e valores. Mas é fácil fazer isso? Pense que é uma jornada importante que tem começo e meio. É sem fim.

Divertir-se trabalhando

Toda vez que Odair sobe em um palco ele procura se divertir. “É sempre um novo desafio estar tocando, levando mensagens. É um momento especial, existe a preocupação de que menos erros aconteçam. É diversão pura!”

Ser feliz fazendo o que faz, no trabalho, é fundamental. Pode ser algo simples para alguns ou algo mais complicado para outros. Mas o que é a felicidade, não? A resposta não é única. Mas uma coisa é certa: os colaboradores com altos níveis de satisfação no trabalho são mais propensos a ajudar os outros e são mais cooperativos e felizes com o resultado de suas atividades. Isso de acordo com uma pesquisa publicada no Journal of Applied Psychology

Outro estudo, agora da Net Impact-Rutgers University, mostra que 88% dos funcionários acreditam que, além de importante, é imprescindível ter felicidade no trabalho aliado a uma atmosfera positiva na vida pessoal. Não dá para deixar uma parte de você na entrada da empresa (ou quando entra no modo “on” no home office), aquela parte pessoal. E também não deixamos o lado profissional na porta da companhia.

Recentemente, numa conversa com o darwinista digital Carlos Alberto Piazza, ouvi que estávamos divididos, vivíamos “em partes”. Havia a “parte” que trabalhava, a que estudava e a que vivia em família ou em casa. E a pandemia veio acelerar o processo de juntar todos esses cacos. Agora mais e mais aprendemos trabalhando em casa,

Eu vou usar…

E não tinha como não abordar o tema. Será que Odair José se importaria em ver ou ouvir Eu vou tirar você desse lugar numa pauta de guerra por talentos? “Essa música ainda me surpreende, pois quase 50 anos depois é vista como atual. Parece que foi feita ontem… E agrada pessoas de classe social e idade diferentes. Fico feliz por isso! Fique à vontade se quiser usá-la em seus projetos.” Ufa! Ela já está devidamente incorporada no People Analyrics!

Odair José: para mim, o autor do hino sobre a atração de talentos (foto: Vinicius Denadai)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *