ABRH 60 anos: quando Gerubal Paschoal era o futuro do RH brasileiro
Seis décadas separam a ABRH-Brasil de seu nascimento num instituto agronômico do interior paulista. Seis décadas de uma jornada que começa com Gerubal Paschoal e chega aos algoritmos de IA. Uma história que é, também, a história do próprio país.
Quem diabos era Gerubal Paschoal?
Para os mais jovens (e para aqueles que, como eu, às vezes se divertem vasculhando as gavetas empoeiradas da memória), vale apresentá-lo: chefe do departamento de pessoal da fábrica de chupetas Polegar, cunhado do empresário Máximo Jacarandá do Vale, Gerubal era um personagem da TV Record (do programa “Papai sabe nada”) que, lá em 1965, encarnava perfeitamente o estereótipo do “profissional de pessoal” brasileiro. Cartorial, operacional, implacável com o ponto batido e as férias calculadas. Um burocrata de primeira linha que jamais ouvira falar em “gestão estratégica de pessoas”, expressão que, aliás, ainda demoraria algumas décadas para aparecer.
O curioso é que Gerubal não era apenas ficção. Ele era a realidade de boa parte das empresas brasileiras naquele momento em que o país se industrializava a passos largos e precisava, urgentemente, organizar suas relações de trabalho. E foi exatamente nesse contexto efervescente entre militares, montadoras de automóveis e a recém-promulgada CLT, que nasceu, há 60 anos, a entidade que viria a se tornar a principal referência em gestão de pessoas do país: a ABRH Brasil.
Essa é uma história que merece ser contada. Ou melhor: recontada. Porque faz dez anos eu já havia escrito sobre ela, quando a associação completava seus 50 anos. Agora, ao revisitar aquele texto, percebo que certos detalhes ganham nova dimensão. Certas transformações se revelam ainda mais impressionantes. E certas permanências nos fazem sorrir com aquela nostalgia inteligente de quem sabe que o passado nunca está tão distante quanto imaginamos.
Feitiço dos tempos – e dos movimentos
Para entender como surge a ABRH, é preciso voltar aos anos 1950 e 1960, quando o Brasil vivia uma revolução industrial puxada, principalmente, pela chegada das montadoras automobilísticas. 50 anos em 5, lembram? De repente, engenheiros passaram a ocupar espaço crescente no que viria a ser o RH das empresas. Não porque fossem especialistas em gente, mas porque dominavam a tal relação entre “tempos e movimentos”, aquele tipo de engenharia taylorista que via o trabalhador como mais uma peça da engrenagem produtiva. Quem associou esse trecho à cena clássica de Charles Chaplin no filme “Tempos modernos” ganhou uma estrela e um ponto positivo!
Joaquim Patto, hoje com 80 anos bem vividos e uma história de seis décadas ligada ao RH, era estagiário na área de administração de pessoal da antiga Light em 1965. Ele resume bem o espírito da época: “Quanto melhor o processo de minha empresa, melhor ela será. O funcionário era apenas mais uma engrenagem nesse processo. Benefícios? Para quê? A educação e o sistema de saúde ainda não haviam entrado em colapso.”
Mas seria injusto imaginar que tudo era pura burocracia e cartorialismo. Como me contou Luiz Augusto Costa Leite, então sócio-diretor da Change Consultoria e um dos mentores do CONARH de 2015, já havia descrições de cargos, planos de cargos e salários com metodologia técnica, psicólogas fazendo seleção e aplicando testes. O treinamento operacional usava o modelo TWI (Training Within Industry), criado pelos americanos durante a Segunda Guerra e difundido no Brasil pelo Senai, que também oferecia cursos de supervisão com aquela expressão complicada: “relações humanas” …
“A evolução de RH no Brasil é consequência da industrialização. E em 1965 o país já tinha um considerável parque industrial. Mesmo com o nome de departamento de pessoal, muita atividade era feita, não só em controles”, explicava Costa Leite.

Os primeiros “consultores de executivos” em nome da lei
Antes dos engenheiros, porém, havia os advogados. Com a CLT operando a todo vapor desde 1943, eles dominavam o cenário. Afinal, as relações de trabalho eram, antes de tudo, uma questão legal. E foi assim que os advogados se tornaram, como define Costa Leite, os primeiros “consultores de executivos”.
“À falta de outras referências, os empresários consultavam seus advogados sobre problemas de gestão de pessoas, já que eles supostamente tinham maior relacionamento com o mundo externo, com uma visão diagnóstica, embora limitada pelo foco legal, que os empresários não tinham. Daí porque os primeiros diretores de pessoal eram advogados”, contava ele.
A primeira década de existência da ABRH (1965-1975) carregaria ainda essas marcas: além do aspecto legal predominante, havia uma evolução mecânica da eficiência de controles e registros, um modelo gerencial paternalista e uma visão de capacitação focada na mão de obra operacional, com um tímido início de investimento em treinamento gerencial.
Um golpe no meio do caminho
E então veio o golpe de março de 1964. Com ele, uma das maiores mudanças na legislação trabalhista da Era Vargas: o fim da estabilidade no emprego, substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). “As empresas tiveram de negociar com os empregados a opção pelo novo sistema, o que nem sempre foi feito da melhor maneira democrática possível”, lembra Costa Leite, com o eufemismo que o tema merece.
O que aconteceu dentro das empresas após o movimento militar foi, num primeiro momento, uma ação repressiva de busca por empregados “agitadores” ou “subversivos” (as aspas aqui são necessárias, porque sabemos bem o que essas palavras significavam naquele contexto). Como os sindicatos eram dominados politicamente pelo governo João Goulart, seus membros mais destacados eram procurados dentro das empresas.
“Os administradores de pessoal, como prepostos dos acionistas, não tinham poder para interferir. Em algumas situações, militares foram indicados para a direção de pessoal de grandes empresas públicas. Passado o primeiro momento, vários deles converteram-se, digamos assim, aos fascínios da atividade e procuraram se profissionalizar como gestores”, relatava Costa Leite.
A Doutrina de Segurança Nacional trazia seu projeto de desenvolvimento, que incluía preocupações com geração de empregos e qualificação de mão de obra, mas sempre a partir de uma concepção autoritária de gestão, no mais puro modelo militar. Intervenções em sindicatos eram comuns, greves ficaram proibidas, salários passaram por sucessivas regulamentações.
Foi nesse ambiente tenso, de transformações profundas e contradições evidentes, que alguns profissionais de administração de pessoal resolveram, em 1965, dar início às atividades de uma associação que pudesse representá-los nacionalmente e desenvolver a área. Assim nasceria a Associação Brasileira de Administração de Pessoal (Abape), que 50 anos depois se transformaria na ABRH Brasil que conhecemos (foi nesse ano que o nome mudou de ABRH Nacional para ABRH Brasil).
O berço na agronomia? É isso?
O marco oficial é o dia 13 de novembro de 1965. O local, curiosamente, foi o Instituto Agronômico de Campinas, no interior paulista. (Sim, a representação nacional da área de RH nasceu num instituto de agronomia. A vida tem dessas ironias deliciosas). A fundação aconteceu durante a 1ª Convenção Nacional de Administradores de Pessoal (Conap), que mais tarde viria a se transformar no CONARH, hoje o maior evento de gestão de pessoas da América Latina e segundo do mundo.
Da cerimônia, participaram 99 administradores de pessoal vindos de São Paulo, Rio de Janeiro (então Estado da Guanabara), Minas Gerais e Paraná. Eles representavam algumas das maiores empresas do país naquele momento: Belgo Mineira, Bendix, Camargo Correa, General Electric, Texaco, Shell, Gillette, Otis, FNM. Uma constelação de marcas que definiam o capitalismo industrial brasileiro da época.
A semente havia sido lançada alguns meses antes, em maio, durante o 2º Congresso Interamericano de Administração de Pessoal (Ciap), realizado em Caracas, na Venezuela. Lá, foi determinado que caberia ao Brasil organizar a terceira edição do evento internacional, em 1967. Porém… (e sempre há um “porém”) havia um problema (ou melhor, um desafio): para abrigar um congresso internacional, era preciso ter uma associação de âmbito nacional. Até então, o que existiam eram entidades regionais, como a Associação Paulista de Administração de Pessoal (Apap), fundada em março de 1965.
A solução foi fazer contatos pelo Brasil afora. Onde houvesse uma associação dedicada à administração de pessoal, chegava o convite para participar da organização de uma entidade nacional. E assim, durante aquela 1ª Conap em Campinas (SP), organizada pelo Centro de Estudos de Administração de Pessoal (Ceap) da cidade, foi feita a assembleia geral de fundação da Abape. Siegfried Hoyler, de São Paulo, foi eleito o primeiro presidente.
Nascia a ABRH. Sem sede ainda, mas com alma. E com objetivos claros, que incluíam coordenar as entidades regionais, desenvolver princípios e técnicas de RH, capacitar profissionais, publicar conteúdo técnico e colaborar com autoridades públicas nos assuntos da área.
Flertes e evolução da área
A associação manteve os encontros nacionais (a Conap) inicialmente a cada dois anos, depois a cada três. Discutiu todos os temas pertinentes às relações de trabalho, sempre com o pano de fundo da efervescência política e social daqueles anos e, depois, da lenta abertura democrática.
Nessa jornada, a ABRH Brasil conquistou credibilidade e se consolidou mundialmente como instituição representativa. A prova mais eloquente disso veio em 2004, quando o Brasil sediou o 10º Congresso Mundial de Recursos Humanos, evento bienal promovido pela World Federation of People Management Associations (WFPMA). Mais de 4.200 congressistas se reuniram no Riocentro, no Rio de Janeiro, um recorde absoluto na história do evento.
De lá para cá, muita coisa mudou. O departamento de pessoal virou recursos humanos, que virou gestão de pessoas, que hoje flerta com gente & gestão, people analytics e uma infinidade de outras denominações que tentam capturar a complexidade crescente da área. Gerubal Paschoal, se voltasse hoje, não reconheceria o território que ajudou a fundar.
Mas essa é uma história para a segunda parte dessa celebração dos 60 anos. Amanhã, vamos contar como a ABRH atravessou as décadas seguintes, acompanhando (e muitas vezes antecipando) as transformações do RH brasileiro, dos primeiros sistemas informatizados nos anos 1970 ao Prêmio Ser Humano, da revista que registrou essa evolução ao CONARH que se tornou referência continental.
Por ora, fica o registro: 60 anos atrás, num instituto agronômico do interior paulista, 99 profissionais decidiram que mereciam ter uma associação nacional. Eles não imaginavam que estavam plantando uma semente que germinaria em uma das mais importantes entidades do terceiro setor brasileiro. Uma entidade que ajudaria a transformar o próprio país, uma contratação, um treinamento, uma política de gestão de cada vez.

MAIS, MAIS E MAIS
Amanhã tem mais!
Como a ABRH atravessou seis décadas de transformações, da revista RI ao CONARH que conquistou a América Latina. E como Gerubal Paschoal foi, definitivamente, aposentado.
