de encontro

A língua que nos une (ou separa)

Já ouvir falar da Lusoliderança? Então, não perca essa conversa com Anabela Chastre sobre os benefícios (e os espinhos) do nosso idioma na gestão de pessoas

Pare um minuto e faça essa pergunta a si mesmo: “e se um dos diferenciais mais poderosos para o futuro da liderança estiver escondido bem na nossa frente, na forma como nos comunicamos e nos relacionamos em português?” Antes de responder, vamos falar um pouco de pesquisas.

Você, caro leitor, cara leitora, já deve ter ouvido/lido muito que a empatia e a conexão emocional serão competências críticas na era da IA, certo? Está no relatório da Deloitte (“Global Human Capital Trends 2024”): 89% dos líderes entrevistados acreditam que essas competências humanas vão ser mais demandadas nessa era de avanços tecnológicos. E o que isso tem a ver com a questão inicial? Calma!

A McKinsey publicou diversos relatórios sobre o futuro do trabalho (como “The future of work after COVID-19” e “Defining the skills citizens will need in the future world of work”). Um ponto comum em todos é o destaque para as essas mesmas competências humanas, que serão cada vez mais valorizadas diante do avanço da automação. O relatório “Defining the skills citizens will need in the future world of work”, de 2021, por exemplo, menciona: “As tecnologias digitais intensificam a procura por competências sociais, emocionais e cognitivas”. Quer mais? “Empatia, resiliência e liderança estão entre as habilidades em ascensão no mercado de trabalho.”

Ok, voltemos, agora, para a pergunta que abre este texto. A dica para a resposta é Lusoliderança. E, para isso, nada melhor do que ir ao ponto e conversar com a referência internacional no tema: Anabela Chastre, CEO da Chastre Consulting, empresa especializada na formação e coaching para Líderes. Ela estará nesta edição do CONARH para falar sobre o que vem a ser a Lusoliderança, suas nuances e desafios.

Na conversa a seguir, ela conta que o que mais caracteriza Lusoliderança) é a relação antes da ação. “O nosso ingrediente secreto é a forma como valorizamos a ligação emocional com as pessoas”, diz. Nada mau para quem quer se encaixar no panteão dos líderes do futuro.

Vamos a um desafio de tradução cultural. Se você tivesse 60 segundos para explicar a um CEO alemão (que, em geral, valoriza processos acima de tudo) qual é o “tempero” que define a liderança lusófona, o que diria?

Diria que o grande “tempero” da liderança Lusófona (Lusoliderança) é a relação antes da ação. O nosso ingrediente secreto é a forma como valorizamos a ligação emocional com as pessoas. Somos líderes que sentem antes de decidir, que escutam antes de agir, que conectam antes de transformar. Para o bem e para o mal, somos líderes com alma e isso, num mundo que se automatiza todos os dias, continua a ser o nosso maior diferencial.

Qual é o erro mais comum (o “falso cognato” de gestão) que um líder brasileiro comete ao gerir uma equipe em Lisboa ou que um português comete ao liderar em Luanda, simplesmente por achar que o “manual” é o mesmo?

O erro mais comum é assumir que “comunicar” é igual a “ser compreendido”. Um líder brasileiro pode confundir informalidade com proximidade, o que em Portugal pode soar a alguma falta de exigência e rigor. Já um líder português, ao chegar a Luanda, pode falhar por excesso de formalismo e distanciamento, perdendo a confiança do grupo. A ilusão da língua em comum, mascara realidades culturais muito distintas. Liderar na Lusofonia exige sensibilidade, escuta ativa e humildade para reaprender os códigos locais.

Ok, temos que nosso estilo de liderar está associado ao “calor humano”. Mas como o líder lusófono equilibra essa proximidade com a necessidade de cobrar metas e manter a disciplina?

A resposta está na energia relacional com responsabilidade. O líder lusófono que sabe equilibrar coração com direção é aquele que deixa claro, desde o início, que empatia não significa permissividade. Que proximidade não é sinónimo de ausência de exigência. A chave está em comunicar com clareza, agir com justiça e liderar com autenticidade. Cobrar resultados faz parte da liderança. O segredo é fazê-lo com verdade e com respeito pela dignidade das pessoas.

Nossa língua é famosa por sua riqueza e pelas entrelinhas. Do ponto de vista da gestão, isso é uma bênção ou uma maldição?

Ambas. A nossa linguagem cheia de nuances pode ser uma ponte para a criatividade, a colaboração e o entendimento emocional. Mas pode, também, ser uma armadilha – especialmente quando ninguém tem coragem de dizer “não”. A liderança lusófona precisa evoluir para uma comunicação mais clara, direta e adulta, sem perder a gentileza. Dizer a verdade não é agressividade, é respeito. E a cultura organizacional só floresce quando há segurança para falar com transparência.

Com a ascensão da Inteligência Artificial e a gestão de equipes globais, qual é o traço cultural da nossa liderança que devemos proteger? E qual precisamos desaprender?

Devemos proteger, com unhas e dentes, a nossa capacidade de criar vínculos humanos verdadeiros. É isso que nos distingue: o olhar, o cuidado, o sentir o outro. Mas precisamos desaprender a tolerância ao improviso crônico. A ideia de que “no fim dá sempre certo” pode ser simpática…, mas é perigosa. Precisamos de mais planejamento, mais “accountability”, mais foco estratégico. O futuro da liderança lusófona será feito de relações humanas profundas com uma execução de excelência. É tempo da Lusoliderança, uma liderança com identidade, alma e propósito. A Lusoliderança não é uma cópia do que se faz lá fora, nem uma moda passageira. É um conceito que une os nossos valores culturais, a nossa proximidade, a nossa flexibilidade, a nossa resiliência e a nossa curiosidade em ir mais longe. A Lusoliderança está pronta para a partilharmos com o mundo.

LANÇAMENTO
Anabela já lançou três livros sobre liderança pessoal e liderança de equipes: “Atitude certa!”, “Liderança: para onde vamos a partir daqui?”, em coautoria com o Pedro Ramos, e “How fast can we go: o papel do líder na transformação digital”. E vai lançar mais um durante o CONARH: “Lusoliderança – a liderança falada em português” (Qualitymark).

VEJA ISSO!
Anote na agenda de papel, salve numa digitalou em algum app (que você acesse, óbvio!):
Liderança Lusófona
dia 19 de agosto
às 10h45
no palco 4 do CONAR

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