Quando a fogueira era o último feedback: o que a caça às bruxas ensina ao RH de hoje
Entre 1450 e 1750, milhares foram queimadas por “não se enquadrarem”. Cinco séculos depois, empresas ainda buscam bodes expiatórios quando a crise bate à porta (só trocamos as fogueiras por demissões em massa e as acusações de bruxaria por “falta de fit cultural”)
Mais de um bilhão de pessoas em todo o nosso planeta vive com algum transtorno de saúde mental, sendo os de ansiedade e depressivos os mais comuns. E elas custam à economia global cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. “Não faço a menor ideia do que significa essa quantia. Quantos quilos em ouro ou em carnes de caça isso dá?”, soltou nosso amigo Thaeobaldvs. “Acho que vou perguntar para meu amigo Archibald, que entende um pouco de comércio e troca de moedas, menos nos dias em que estava no modo ‘morto-vivo’”.
Thaeo, sempre atento e amigo, tentou me acalmar: passar por um período angustiante não é algo exclusivo nosso, desta época. “No meu tempo, a situação era pior. Se duvidam, leia o livro A caça às bruxas na Europa Moderna, de Brian Levack, para ter uma ideia.” Thaeo não é um sujeito moderno, no sentido de ser a Era Moderna; sua geração seria, no período retratado na obra, o equivalente aos pré-históricos ou, na melhor das hipóteses, feudos-boomers.
O mundo atual é um campo fértil para a ansiedade: um mundo que muda numa velocidade maior do que a de um cavaleiro em retirada de uma batalha (de forma escondida), com avanços tecnológicos mais e mais acelerados. Não dá para acompanhar tanta transformação em tão pouco tempo, daí ou a gente vive um futuro que não existe ou fica em um passado que já não faz sentido. Li isso em algum lugar e gostei.
O parto doloroso do mundo moderno
Sim, todos os períodos históricos são épocas de grandes mudanças e transformações, que geram, obviamente, medo e ansiedade. No período de caça às bruxas, da era de Thaeo, alguns fatores contribuíram mais fortemente para isso. Para começar, era a época do “parto do mundo moderno”. Um parto natural, com muitas contrações, respirações ofegantes e muitas dores.
Além disso, a Europa de então experimentava não somente uma inflação sem precedentes e um declínio no padrão de vida, mas também a ascensão do capitalismo, um surto de rebeliões e guerras civis, conflitos internacionais numa escala sem precedentes e a destruição da unidade sempre presente da cristandade medieval.
Essas mudanças tiveram um impacto psicológico altíssimo. Para uma população que acreditava na ordem fixa do cosmo, a transformação de quase todos os aspectos de suas vidas foi uma experiência desconcertante. Ela gerou uma onda de melancolia, pessimismo e tristeza, detectada pelos historiadores da época e posteriores, que impediu muitos de lidar com a instabilidade e a incerteza do novo mundo.
Foi a predominância desse temor por toda a Europa e em todas as classes sociais que fez com que esse período fosse designado de “era da ansiedade” e considerado um dos “períodos psicologicamente mais conturbados da história humana”. “Talvez até chegar à época de vocês”, disse o amigo feudo-boomer.
O corporativismo masculino na taverna
Quem era Archibald? “Archibald era o mais constante e ansioso de nossa turma na Taverna da Ferradura Torta”, lembrou com saudade Thaeo. A constância de Archibald era traduzida pelo ritual de, em todas as primeiras e terceiras segundas-feiras de cada mês, não ir para a oficina ou para os happy hours na guilda. Só dava as caras na terça – “caras”, aliás, sempre inchadas, típicas de esbórnias e ressacas do mais vil e desconhecido líquido com teor alcoólico medido em graus Kelvins.
Embora acometido ora de ansiedade ora de depressão, ele não culpava o rei ou a situação do mercado de trabalho. A causa dos males de Archibald naquelas datas era a esposa. “Dizia ele que a dita cuja, nessas ocasiões, sempre lançava algumas palavras ininteligíveis para ele, que jurava serem parte de algum feitiço”, conta. “Embora ele nunca tenha levado em conta que, quando embriagado, ele sequer entendia o que ele mesmo falava. Sim, todos nós sabíamos que a esposa de nosso amigo não era uma bruxa, mas concordávamos com ele por uma questão de… corporativismo masculino. Neste dia em vocês comemoram as bruxas, vamos falar sobre elas.”
Quando nasce um bode expiatório
Estabelecer uma data de início e fim da época de caças às bruxas não é algo simples. Alguns autores definem o intervalo entre aproximadamente 1450 a 1750. Estimativas atuais apontam que entre 35 mil e 50 mil pessoas foram executadas por acusações de bruxaria durante esse período, sendo que cerca de 75% a 90% eram mulheres.
Porém, bem antes disso tivemos alguns casos de punição para crimes de feitiçaria. A figura que personificou o estereótipo macabro da bruxa (aquela que come crianças depois de as engordar com doces numa casa feita de doces, e que copula com o capiroto) vem de muito longe. “Uma tal Angie, por volta de 1274, acabou na fogueira na cidade francesa de Tolón. Era uma viúva pobre de mais de cinquenta anos que foi acusada de ter tido ‘relações de todo tipo com Satanás’, resultando no nascimento de uma criança ‘monstruosa’”, contou-me Thaeo. “Será que alguém percebeu que o marido havia pulado a cerca e resolveu condenar a dona da casa do outro lado da cerca?”
Essas mulheres eram consideradas bruxas, mas o conceito de bruxaria como um culto organizado ao capiroto só se formou por volta do século 15, quando a bruxaria se tornou associada à heresia ou um crime civil. Na Inglaterra, chamavam de Maleficium (sim, parece coisa de filme de Harry Potter).
O “conceito cumulativo”: quando o manual de perseguição vira best-seller
O termo “bruxa” sofreu uma metamorfose digna das melhores poções mágicas. A feitiçaria (ou magia maléfica, o maleficium) sempre existiu em todas as sociedades e épocas, sendo um fenômeno universal. Consistia na prática de atos prejudiciais por meios misteriosos, como infligir doenças ou causar a morte de colheitas e gado.
Contudo, a bruxaria europeia (entre 1450 e 1750) era outra criatura. Ela era o que os eruditos chamavam de conceito cumulativo de bruxaria: um amálgama refinado que misturava folclore popular, demonologia cristã e acusações de heresia (e inveja também, ressentimentos pessoais…). Assim, a bruxa dessa época não praticava apenas um sortilégio, mas sim o diabolismo. Por volta do século 15, a elite intelectual acreditava que a bruxa obtinha seus poderes para realizar maleficia graças a um pacto com o capeta. E essa nova definição cumulativa foi o motor da grande caça europeia às bruxas.

Perfil da vítima: idosa, pobre e inconveniente
A caça às bruxas era um sistema de terror e conformidade que se alimentava da miséria e da ignorância. Muitas acusações surgiam de conflitos entre vizinhos, sendo a bruxaria usada para “dilucidar velhas rixas pessoais”. Quando o infortúnio batia à porta (como a morte do gado, uma doença inexplicável ou uma colheita ruim), a bruxa era a culpada mais provável, na cabeça e julgamento dos outros.
A bruxa típica era “mulher velha e miserável”, muitas vezes viúva ou solteira, vivendo na linha da subsistência e precisando recorrer à mendicância. A idade média das acusadas frequentemente rondava os 60 anos. Elas eram as “rabugentas do povoado”, propensas a praguejar e manifestar comportamento antissocial, o que aumentava a hostilidade dos vizinhos.
As parteiras desempenhavam um papel especialmente vulnerável. Eram acusadas de sacrificar ou batizar crianças para o Diabo, devido à sua posição estratégica no momento do nascimento. Na verdade, eram mulheres detentoras de conhecimento sobre ervas, contracepção e aborto, um saber que ameaçava o poder médico masculino em ascensão e as autoridades que queriam controlar a procriação e o corpo feminino.
Malleus Maleficarum: o manual de RH da Inquisição
Em 1487, foi publicado o Malleus Maleficarum (o “Martelo das bruxas”), pelos inquisidores Heinrich Kraemer e James Sprenger. Esse tratado adquiriu autoridade muito rapidamente, apresentando uma síntese convincente de um dado conceito de bruxaria e conselhos sobre como defendê-lo e lidar com ele.
O manual definia “as práticas consideradas demoníacas” e concluía que as feiticeiras eram geralmente mulheres, em razão da sua suposta credulidade e baixa inteligência. “Um dos trechos mais citados desse manual afirma que ‘todas as bruxarias provêm da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável’”, diz Thaeo.
A “tecnologia” da época (a imprensa) transformou a caça às bruxas de um fenômeno local em uma perseguição sistêmica. O Malleus e outros manuais de inquisidores foram massificados pela imprensa, fornecendo listas padronizadas de perguntas para a tortura e detalhando os crimes do sabá. A difusão desses tratados tornou os membros letrados da sociedade conscientes e convictos da realidade da bruxaria, uniformizando as crenças e o terror. “Pensando em gestão de pessoas de vocês, esse Malleus foi essencialmente
um manual de RH de má-fé que uniformizou o alvo e as táticas de perseguição.
Seria ele uma espécie de how to do perfeito para os headhunters da inquisição?”
A procissão dos algoritmos: o Malleus Digital
Na era da Inteligência Artificial e do Big Data, o risco é que algoritmos e tecnologias de gestão (supostamente “neutras”) sejam alimentados com vieses antigos. Se os dados de “desempenho” ou de “conformidade” refletirem preconceitos misóginos ou classistas (como os que definiam a bruxa), a IA pode institucionalizar e escalar a exclusão em velocidade incomparável, criando um “Malleus digital” que atinge milhões.
Pense bem: em pleno 2025, empresas utilizam sistemas de avaliação que, muitas vezes, punem quem não se encaixa no “perfil ideal” (às vezes, curiosamente, em função da idade, da disposição de ficar 100% no presencial e de “vestir a camisa” até se asfixiar). Mulheres que engravidam, profissionais que precisam de flexibilidade, pessoas que ousam questionar processos tóxicos: todas potenciais “bruxas corporativas” do século 21.
A ansiedade coletiva e a busca por culpados
O período da caça às bruxas foi uma “era da ansiedade” marcada por calamidades (peste, guerras, fome). A bruxa era o alvo ideal. Os julgamentos permitiam aos indivíduos e à comunidade projetar sua culpa e infortúnios em um inimigo identificável. Em tempos de crise, a busca por bodes expiatórios se intensifica.
Soa familiar? O Brasil é o líder mundial em prevalência de transtornos de ansiedade, segundo dados da OMS. O total de licenças por transtornos mentais chegou a 440 mil em 2024, dobrando em dez anos. As doenças relacionadas à saúde mental causam perdas de quase R$ 400 bilhões anuais para as empresas brasileiras. Quem são os culpados? Quais as “bruxas” da vez?
Em Salem (EUA, 1692), a crise foi desencadeada por adolescentes com sintomas como tremores, convulsões, delírios. O que a autoridade do século 17 via como Diabo, a ciência posterior chamou de histeria ou desordem de transposição, fenômeno extremamente contagioso, especialmente em ambientes restritos e tensos como os daquela época e local.
Ou seja, a bruxaria funcionava como uma “válvula de escape” para o tumulto psicológico e ansiedade comunitária. Quando a ansiedade (por crise econômica, competição, instabilidade) atinge níveis altos, o risco de “caça às bruxas” corporativa aumenta, desviando o foco dos problemas estruturais para um inimigo interno.
O antídoto moderno (ou como não queimar gente)
Uma pesquisa da American Psychological Association de 2024 revela que 15% dos trabalhadores americanos descrevem seu ambiente de trabalho como “tóxico”, e 89% desse grupo também reporta baixa segurança psicológica. Um levantamento da Society for Human Resource Management aponta mostra ainda que ambientes tóxicos custam mais de US$ 223 bilhões anuais às empresas americanas.
A segurança psicológica (conceito desenvolvido pela pesquisadora Amy Edmondson, de Harvard) refere-se a um clima organizacional em que trabalhadores se sentem confortáveis para se expressar e acreditar que podem assumir riscos interpessoais apropriados. Quando as pessoas têm segurança psicológica no trabalho, elas se sentem confortáveis para compartilhar preocupações e erros sem medo de constrangimento ou retaliação.
O oposto? Ambientes nos quais a caça ao bode expiatório é institucionalizada. Em que os erros não são oportunidades de aprendizado, mas munição para demissões ou para colocar muita gente na fogueira. Um local no qual quem levanta a mão para apontar problemas sistêmicos é rotulado de “não tem fit cultural”, o equivalente moderno de “ela deve ter um pacto com o Diabo”. Será?
A diversidade e a guerra de gênero institucionalizada
A caça às bruxas foi, em grande medida, um ataque sistêmico contra as mulheres. A gestão da diversidade moderna procura promover a inclusão, mas a história da bruxaria mostra a raiz profunda da exclusão baseada no gênero.
A perseguição foi predominantemente feminina, excedendo 75% dos acusados. Demonólogos viam a mulher como o “sexo fraco”, mais carnal, leviana e mais propensa a ser enganada pelo Diabo. Esse ódio à mulher se misturava à atração mórbida pela sexualidade feminina reprimida.
As “mulheres de saber”, como as curandeiras populares e parteiras, eram as melhores anatomistas do seu tempo e detinham conhecimento sobre ervas, contracepção e aborto. Esse saber ameaçava o poder médico masculino em ascensão e as autoridades que queriam controlar a procriação e o corpo. Mulheres não casadas (solteiras ou viúvas) eram vistas com suspeita numa sociedade patriarcal. A ausência de subordinação ao pai ou marido era uma fonte de medo. A bruxa personificava a mulher que rejeitava a subordinação patriarcal e desafiava o controle sobre o corpo, sendo punida por insubordinação social e desvio da norma sexual.

O que aprendemos (ou deveríamos ter aprendido)
A partir de 2025, empresas brasileiras são obrigadas a identificar e avaliar riscos psicossociais e implementar medidas para gerenciar a saúde mental dos profissionais, conforme atualização da NR-1. Sobrecarga de trabalho e assédio agora são riscos formalmente reconhecidos. Boa notícia, certo?
Mas legislação sozinha não muda cultura. E se há algo que a história da caça às bruxas nos ensina é que sistemas de terror prosperam quando há medo coletivo, falta de responsabilização e a conveniência de um bode expiatório. Aqui vão alguns paralelos incômodos entre aquela época e a nossa:
- 1. a uniformização do “mal”: o Malleus Maleficarum padronizou quem era a bruxa e como identificá-la. Hoje, políticas corporativas mal desenhadas e avaliações de desempenho enviesadas fazem o mesmo: definem quem “não tem potencial” baseadas em critérios que muitas vezes refletem mais preconceitos do que competência.
- 2. a tortura disfarçada: ninguém mais usa utensílios de tortura física, mas a pressão psicológica, a cultura do medo, a sobrecarga crônica e a impossibilidade de desconectar funcionam como métodos modernos de extração de “confissões”. Quantas pessoas “confessam” que não têm o perfil da empresa simplesmente para escapar do tormento? Ou quantas sucumbem ao assédio moral?
- 3. o poder do conhecimento não institucionalizado: parteiras eram perigosas porque detinham saber que escapava ao controle masculino. Hoje, profissionais que desenvolvem expertise fora dos “caminhos oficiais”, que aprendem na prática ou que desafiam o status quo com ideias disruptivas podem ser alvos de quem ainda não entendeu que esse é o novo caminho a ser trilhado – especialmente se aqueles forem mulheres, pessoas negras ou de grupos historicamente marginalizados.
- 4. a conveniência da crise: quando a colheita falhava, procurava-se uma bruxa. Quando a empresa não bate meta, procura-se quem demitir, preferencialmente quem já estava na mira, quem “não se encaixa”, quem cobra demais ou questiona processos.
Fogueiras corporativas no século 21
A OMS estima que cada dólar investido em programas de saúde mental gera um retorno de quatro dólares em produtividade. Mas isso exige reconhecer que o problema não está nas “bruxas”, mas no sistema. Criar segurança psicológica não é ser “bonzinho” ou “baixar a barra”. Pesquisas mostram que ambientes com alta segurança psicológica têm 99% de satisfação com relacionamentos entre colegas, 81% menos intenção de buscar novo emprego e muito maior senso de pertencimento. Para grupos historicamente marginalizados ou minorizados, a segurança psicológica reduz em quatro a cinco vezes o risco de turnover, segundo estudo da BCG com 28 mil profissionais.
Segurança psicológica significa poder errar sem ser queimado na fogueira. Significa poder questionar sem ser acusado de heresia corporativa. Significa que seu valor não é medido por quão bem você se encaixa num estereótipo, mas por sua contribuição real.
A fogueira está sempre acesa (até que alguém a apague)
Entre 1450 e 1750, dezenas de milhares foram mortas porque a sociedade precisava de um inimigo identificável para explicar seus medos. Hoje, ninguém é queimado literalmente, mas carreiras são destruídas, saúde mental é estraçalhada e potencial humano é desperdiçado porque ainda não aprendemos a lidar com a ansiedade coletiva sem procurar bruxas.
O RH moderno tem uma escolha: ser o inquisidor que aplica o Malleus Maleficarum corporativo, ou ser aquele que finalmente apaga a fogueira e constrói pontes. Porque no final, a diferença entre uma organização saudável e uma tóxica não está em não ter problemas, está em como você lida com eles.
Você busca culpados ou soluções? Você queima bruxas ou questiona por que todo mundo está com tanto medo? Hoje é Dia das Bruxas. Talvez seja um bom dia para parar de procurá-las no escritório e começar a exorcizar os verdadeiros demônios: a cultura do medo, o viés sistêmico e a conveniência do bode expiatório.
“Porque se há algo que cinco séculos deveriam ter ensinado vocês é que quando todos procuram bruxas, ninguém está a salvo”, sintetiza Thaeo.

A imagem de destaque deste artigo é The witch (night piece), de Jan van de Velde. Obra de 1626
