a ponto

Nobody expects the spanish inquisition

E ninguém espera que a condição da mulher no mercado de trabalho continue a mesma

Ponto de partida: pânico! Thaeobaldvs em pânico. Nunca tinha visto tanta gente junta na vida. Talvez o maior número de pessoas aglutinadas em um mesmo local tenha sido uma execução pública, reflexo do trabalho de inquisidores, a que ele assistiu uma vez. “Nobody expects the Spanish inquisition”, comentei com ele, lembrando um quadro do grupo inglês Monty Phyton. Ele pareceu não ter dado bola, apenas sorriu sem entender nada.

Mestre Thaeobaldvs é um homem vivido, não revela quantos anos tem e nem se pertenceu à alta ou baixa Idade Média – para você ver que tudo na vida tem altos e baixos.

Durante aquele período sombrio da história, muitas pessoas eram presas e punidas pela Inquisição. Nosso interlocutor lembra, por exemplo, de um padre acusado de ter rezado duas missas no mesmo dia, em paróquias diferentes. Preso. Outra pessoa teve de se explicar por que cargas d’água comungou sem estar em jejum. Presa. Outro, era acusado de ter dito alguns impropérios contra o cura da aldeia (traduzindo: xingado o pároco). Encarcerado. Outro caso era de um Fulano que havia casado duas vezes, mesmo não sendo viúvo. Preso – ou será que teve de voltar para a primeira esposa?

Em todos esses exemplos, cada um recebia uma intimação para ser levado para esclarecimentos e julgamento, mas não sem antes fazer um depósito para arcar com as custas do processo – e, no final, ainda havia uma multa. Era um festival de penitências, rezas, prisões e degredo. E mortes. Mas são os casos de mulheres que sempre vêm à mente, nessas execuções, colocadas em fogueiras, acusadas de bruxaria.

Thaeobaldvs não sabia explicar o porquê disso. Tinha lá suas teorias, como a de que as mulheres sempre foram mais inteligentes e sábias do que os homens e estes, com medo de perder espaço, faziam o que faziam. Nos dias de hoje, elas somam mais tempo de escola, para você ver… Muitas tinham conhecimento de uma certa medicina caseira, com ervas – o que outros julgavam ser um pacto com o demo. Muitas eram acusadas por outras mulheres, sabe-se lá por ciúme. Até a mãe do astrônomo Johanes Kepler, dona Katharina, não escapou. Quer dizer, escapou da fogueira, mas não da prisão em 1615, quando foi acusada de bruxaria.

A inquisição continua

Nestas novas eras, o cenário também não é lá muito bom para elas. E em qualquer aspecto da vida. Estávamos no CONARH 2023, com algumas palestras sobre diversidade, e apresentei a Thaeobaldvs alguns resultados de uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), feita em 80 países (que, somados equivalem a mais ou menos 85% da população mundial). O relatório informava que 90% das pessoas tinham alguma espécie de preconceito contra as mulheres – elas também no grupo de entrevistados.

Por estas plagas, neste país abençoado e situado abaixo do Equador, também havia e ainda há esse pecado – ao contrário da famosa música de Ney Matogrosso: o índice é de 84,5%.

Percebi mais pânico na rubra face de Thaeobaldvs. E continuei.

Um estudo da McKinsey (Women in the Workplace), realizado em parceria com a LeaIn.Org., de 2022, mostrou que:

  • um em cada quatro líderes de alto escalão era mulher. E quando se tratava de mulher negra, a razão era de uma para cada 20 mulheres em posição de liderança de alto escalão.
  • para cada 100 marmanjos que eram promovidos de cargos de nível básico para gerência, 87 mulheres foram promovidas.
  • mulheres líderes sofriam inúmeras microagressões que minavam sua autoridade e sinalizavam que seu caminho para progredir na empresa seria bem tortuoso – ou torturante.
  • as mulheres líderes eram duas vezes mais propensas a serem confundidas com alguém em cargo mais júnior (e eu já cometi esse erro, pelo qual me penitencio todos os dias).
  • mulheres líderes também eram mais propensas a relatar que características pessoais, como gênero ou o fato de serem mães, contribuíram para que a elas fossem negados ou preteridos aumentos salariais ou promoções.
  • em comparação com os homens em seu nível, as mulheres líderes faziam muito mais para apoiar o bem-estar e a satisfação dos colaboradores, além de se dedicarem mais à promoção da diversidade na empresa, mas…
  • … por mais que esse esforço delas tenha resultados significativos na melhoria do clima e da experiência do empregado, ninguém dava a mínima para isso: cerca de 40% das mulheres líderes afirmava que seu trabalho em relação a diversidade, equidade e inclusão não era reconhecido nas avaliações de desempenho.
  • mulheres LGBTQI+ e mulheres com deficiência relataram sofrer microagressões mais humilhantes e “alternativas˜, como “você parece louca” e “você precisa sorrir mais”.

Quando as mulheres trabalham remotamente, é fácil perceber que essas microagressões diminuem. Contudo, há uma preocupação no que se refere a aumento de salário e promoção. Como? De forma geral, há uma preferência maior da parte das mulheres por mais flexibilidade e trabalho remoto. Mas o fato de elas não estarem na empresa, sob o olhar do chefe, pode fazer com que esse sujeito imagine que elas não estão trabalhando – ao contrário dos homens que estão com ele no escritório. Clube do Bolinha?

Em quase estado de choque, Thaeobaldvs apenas comentou:

– Isso parece uma tortura da inquisição. Esse tal de CIO é o responsável?

– CIO?

– É Chief Inquisition Officer.

– …

Esse é o Ulrich. Mas não o Dave Ulrich, guru de RH. Ou melhor: esse é o William Tatcher!

Coração mole de cavaleiro

Para descontrair um pouco, passamos mais tempo vistando estandes na EXPO ABRH. Foi quase um parto tirar Thaeobaldvs de uma piscina de bolinhas azuis, da WePeople. Nosso amigo não escondia estar intrigado pelo fato de as teorias de Arquimedes não terem efeito ali.

Em outro ponto, ficou curioso ao ver pessoas tirando fotos tendo como fundo um par de asas e uma auréola. Para ele, seria um sacrilégio, motivo possível para algum Torquemada da vida colocar as manguinhas de fora e mandar para a empresa da pessoa um ofício, convocando-a a se explicar.

Mas por um momento, percebi um certo ar de tristeza ou de melancolia em seu semblante. Uma lágrima furtiva escorreu por aquela face que trazia em si muito conhecimento logo depois de ganhar uma sacola de cor aberrante e um saquinho de pipoca.

Thaeobaldvs lembrou das festas populares das quais participava. Eram uma maravilha, com palhaços, javalis assados e outras iguarias de caça, vinho (de reputação discutível) e as justas. Ah, as justas!

Ver aqueles cavaleiros e seus ajudantes, em duas equipes, cada uma de um lado, acirrando o clima de disputa. Depois, os nobres montados em seus esbeltos cavalos, devidamente ornados e protegidos com armaduras (o animal homem também), seguindo em desabalada carreira um contra o outro, empunhando uma lança com o singelo objetivo de derrubar o oponente.

Ele se lembra, como se fosse hoje, de um festival que pode acompanhar na antiga Britânia. Um jovem e arrojado cavaleiro chamava a atenção não apenas pelos seus louros cabelos ou pela sua armeira, uma mulher – a única em meio a tantos homens. Seu nome? Ulrich von Lichtenstein. Mas que, na realidade era William Thatcher, um jovem que lutava contra o malvado conde Adhemar.

– Por que não realizam umas justas por aqui?

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