fora da curva

300 anos de humor e crítica

Por que Sérgio Porto, Millôr Fernandes e Fernando Sabino ainda se mantêm tão atuais

Imagine a cena: agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) comparecendo ao Teatro Municipal de São Paulo para prender nada mais, nada menos do que o autor da peça Electra: Sófocles. O inusitado fato está na primeira edição do Festival de Besteiras que Assola o País, mais conhecido como Febeapá, livro de Stanislaw Ponte Preta – talvez mais conhecido como Sérgio Porto ou vice-versa.

Era a partir de fatos do cotidiano do Brasil pós 64, ou na fase “redentora” como ele chamava, que Stanislaw trazia para o leitor em suas crônicas o absurdo da vida como ela é. E não apenas ele, Porto ou Stanislaw, se ocupava disso.

Ao seu lado estavam, entre outros, Millôr Fernandes, com seu Vão Gogo, e Fernando Sabino. Três personagens do Brasil, em especial do Rio de Janeiro (apesar de um mineiro), que não deixavam de lado o olhar crítico, a ironia e o chiste criados a partir da vida comum.

E por que esses autores? Todos nasceram há 100 anos [nota: a matéria foi publicada na revista Esfera Brasil em 2023]: Sérgio, em janeiro (e falecido em 30 de setembro de 1968); Millôr, em agosto (falecido em 27 de março de 2012); e Sabino em outubro (falecido em 11 de outubro de 2004). Somadas as idades, são três séculos de humor e crítica, tempo que não terminou com a morte de cada um, pois suas obras se mantêm ainda vigorosas e atuais. Ainda mais em tempos de fake news e muitas bobagens escritas por aí. A atualidade seria um prato cheio para eles.

Na abertura do livro (Febeapá), Stanislaw dá um exemplo e conta como notou o alastramento do festival de besteira: foi logo depois de conhecer a história de uma inspetora de ensino no interior de São Paulo que, ao saber que seu filho havia zerado em um teste de matemática, resolveu “descontar” seu descontentamento sobre o professor, apontando-o às autoridades como um perigoso agente comunista. “Foi um pega-pra-capar e o professor quase penetra pelo cano. Foi preciso que vários pedagogos da região – todos de passado ilibado – se movimentassem em defesa do caluniado, para que ele se livrasse de um IPM”, escreveu.

Para usted tambien!

O humor da dupla Porto e Stanislaw já vinha desde antes o segundo existir. O cartunista e um dos criadores do jornal O Pasquim, Jaguar, conta um episódio (também na mesma edição do livro, ao falar sobre o autor) ocorrido em uma agência do Banco do Brasil, instituição que os abrigou por alguns anos. Havia um caixa muito ranzinza e ranheta que não entendia bem o valor de tratar o cliente de forma fina e educada. Como, naquela agência, os caixas ficavam atrás de grades como medida de proteção, eis que um dia aparece, do lado de fora para qualquer cliente ler, um papelzinho escrito “é proibido alimentar os animais”. Obra de Porto para divertir os clientes e pilhar o caixa.  

Outra história vem do escritor mineiro Paulo Mendes Campos contada em seu livro O anjo bêbado: a vez que ele e Porto foram para a capital argentina para acompanhar uma partida de futebol. “Na chegada a Buenos Aires, houve uma dessas súbitas situações cômicas criadas por aquele homem carregado de conflitos”, escreveu. Avião estacionado, entra nele um médico da saúde pública pedindo aos passageiros que exibissem o atestado de vacina. Foi quando o médico estendeu a mão para Sérgio, dizendo “Vacunacion, señor”. “Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw (aí era ele), muito grave, apertou a mão do médico, falou claro e efusivo: ‘Vacunacion para usted tambien!’. O médico, indignadíssimo, expulsou-nos do avião, sem mais exigir o documento sanitário e, enquanto eu explodia de rir, ele sussurrava-me entre dos dentes: ‘Aguenta a mão, se não a gente acaba em cana’”.

Campos lembra, ainda, que o humorista Sérgio Porto começou a surgir no semanário Comício, dirigido por Rubem Braga e Joel Silveira, onde escreviam ainda Clarice Lispector, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, entre outros. “Digo o humorista profissional, porque o da convivência com os amigos vinha do tempo das peladas em Copacabana”, acrescentou no texto.

O livro O anjo bêbado foi lançado em 1969, pela Editora Sabiá que, aliás, também fora por onde Sergio Porto e Stanislaw publicaram seus livros. E quem estava por trás dessa editora?

Entre o grego e o DOPS

A Sabiá foi comprada em 1972 pela José Olympio editora. Ela fora uma das iniciativas mais importantes para colocar a crônica no seu devido lugar: a de destaque em nossa literatura, uma vez que, por serem muitas publicadas nos jornais, eram geralmente encaradas como textos “menores”. A editora era dos sócios Fernando Sabino e Rubem Braga, sendo responsáveis por publicar, já na época da “redentora”, os diários de Che Guevara; Furacão sobre Cuba, de Jean-Paul Sartre; Revolução dentro da paz, de Dom Hélder Câmara; e Roda Viva, de Chico Buarque.

Isso sem contar a primeira edição brasileira de Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, e a edição de obras de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Pedro Nava, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz. Todos amigos? Sim.

“A gente viver de literatura é impossível. Então, tem que viver fazendo assim coisas assim para-literárias, comercializando a nossa literatura, e cada vez mais”, disse Sabino em uma roda de conversa com, entre outros, Vinícius de Moraes, Sérgio Porto e Rubem Braga e publicada na edição de janeiro de 1968 da revista Realidade. “Então resolvemos fundar uma editora nossa: sacrificando um pouco do que ganharíamos como editores, nós ganharíamos como escritores e editaríamos nossos livros. Fundamentalmente os nossos e, por extensão, dos nossos amigos.”

Em um primeiro momento, foi a Editora do Autor, em 1960, e, depois, a Sabiá. E por que esse nome? Havia quem dissesse que era uma sigla, de Sociedade dos Autores Brasileiros Independentes e Autônomos ou Independentes e Anônimos. Para Sabino, a razão era simples: porque era um passarinho brasileiro, simpático, cantador, preferido por Gonçalves Dias. “O Rubem Braga é também chamado o Sabiá da Crônica”, emendou logo Porto na conversa em Realidade.

Até aquela data da publicação da conversa, o balanço era bom para a editora: o 1º Festival de besteiras que assola o país, ainda lançado pela Editora do Autor, vendera mais de 40 mil exemplares. O 2º Febeapá esgotara duas edições em dez dias. “Acho que é um livro que tem sucesso porque é um livro de sátira. Sérgio não escreve nada. Aproveita a besteira dos outros”, disse Braga.

Sim, ele transcrevia muito do que lia e recortava nos jornais para montar o Febeapá, mas gostava de olhar para o cotidiano. Para Porto, a tarefa de todo cronista era observar as pessoas comuns, no dia a dia da cidade, fosse andando a pé ou de ônibus. No caso dos jornais, era a arte refletindo a vida. No caso do episódio que abre este artigo, não foi possível encontrar o fato em si. Talvez alguém tenha lhe dito e os jornais não deram a notícia. Mas havia outra que envolvia os mesmos atores: Sófocles e os agentes do DOPS.

Porto: saber e gosto elevados pelo jazz

No 10 de maio de 1965, o jornal Última Hora noticia como fora a prisão da atriz Isolda Cresta no DOPS da, então, Guanabara por quase seis horas e meia depois de ter lido um manifesto contra o envio de solados brasileiros para a República Dominicana antes de a peça Electra começar – e da qual ela fazia parte do elenco.

De acordo com a reportagem, ela estava “espantada com o ‘triste interrogatório’ a que foi submetida (…), afirmando que os ‘inquisidores perguntaram-lhe se Sófocles era soviético e comunista”. Ela ficou presa em uma pequena cela, na qual disse ter sido obrigada “a matar mais de 40 baratas enquanto esteve detida”. O comissário que a interrogou, continua a reportagem, tinha, segundo a atriz, “muitas suspeitas sobre Sófocles e ficou surpreendido quando ela disse que o autor era grego e que vivera antes de Cristo”. Ele nasceu e morreu em Atenas, entre os anos 496 a.C. e 406 a.C.

Ódio ao burguês

Ainda nos palcos. A peça O burguês fidalgo teve uma versão no teatro brasileiro em 1968, com a direção de Ademar Guerra. Uma das principais missões dele era afastar a montagem daquele ano das tradicionais que vinham sendo feitas desde a primeira que fora apresentada em 1670. Ele queria que a obra escrita por Molière fosse um espetáculo modernizado e mais afeito à realidade dom público brasileiro.

Para ajudá-lo nesse intento, o produtor e ator Paulo Autran resolveu escolher a dedo que traduziria o clássico texto que conta a história em tom de sátira de um rico comerciante, o Sr. Jourdain (interpretado por ele), que quer se tornar um nobre. Ele gasta muito dinheiro com professores que o enganam, se apaixona por uma marquesa que é amante de um conde, e impede sua filha de se casar com seu amado. No final, ele é enganado por um falso príncipe turco que lhe dá um título de nobreza e casa sua filha com o jovem disfarçado. A peça mostra como o Sr. Jourdain se ilude com as aparências e ignora a realidade.

Autran queria um texto que tocasse a plateia da forma mais direta possível, “desprezando o esteticismo e o purismo em benefício da clareza e da transmissão da crítica aguda que Molière sempre fez aos defeitos humanos”, como disse em entrevista ao Correio da Manhã, da edição de 13 junho de 1968. E para conseguir isso pedira a Sérgio Porto uma tradução de Stanislaw Ponte Preta, “para que transpusesse para uma linguagem brasileira de hoje, o brilho e a graça do século 17”.

E por que O burguês fidalgo? Uma das razões que levaram Autran a escolher a peça foi a atualidade da crítica de Molière. “Basta nos lembrarmos da hipertrofia do colunismo social para termos a prova de que o Brasil está cheio de ‘burgueses fidalgos’, novos ricos do dinheiro, da arte, da política e do poder, que pululam em nosso país. Por uma estranha coincidência, as cores preferidas por Molière para o traje do burguês fidalgo, quando interpretava o papel, eram o verde e amarelo”, disse à reportagem.

Mas a peça não caiu muito no gosto de um determinado público, como foi possível perceber cerca de um mês depois, quando um grupo armado com paus e tochas incendiou, na madrugada do dia 20 de julho, o painel da Maison de France (Embaixada da França) com a publicidade da peça, que estava em cartaz no teatro daquela representação estrangeira.

De acordo com a notícia publicada no jornal O Dia, do Rio de Janeiro, Autran e Guerra disseram que os agressores, “além de causar danos ao prédio, picharam as paredes com dizeres tais como ‘morte aos comunistas’ e ‘viva o MAC’ [Movimento Anticomunista].” A peça era patrocinada pelo governo do estado do Paraná e um mendigo vira os pichadores em ação.

Este trecho acaba em uísque

Anos antes, Autran tivera outros desentendimentos com grupos semelhantes, mas, naquela época, em função de outra peça: Liberdade, liberdade, que estreou em 21 de abril de 1965 no Rio de Janeiro, numa produção do Grupo Opinião e do Teatro de Arena de São Paulo. Além dele também participavam da encenação (escrita por Millôr Fernandes) Nara Leão e Oduvaldo Vianna Filho.

Para Millôr, a ideia era fazer um espetáculo que servisse àquela época, dominada, no Brasil, “por uma mentalidade que, [fossem] quais [fossem] as suas qualidades ou boas intenções, é nitidamente borocochô”, escreveu ele sobre a peça, acrescentando: “E cuja palavra de ordem parece ser retroagir, retroagir, retroagir. E como não queremos retroagir senão para a frente, mandamos aqui a nossa modesta brasa, numa forma que, para ser válida e atingir seus objetivos espetaculares, tinha que ser teatralmente atraente. Se conseguimos ou não o nosso objetivo, deverão dizê-lo as poltronas cheias (ou vazias) do teatro”.

O problema era a censura. Vale lembrar que o humor de Millôr ultrapassava a crítica social que era feita na época, beirando a algo além do cotidiano, buscando traduzir o que seria uma filosofia de vida que imperava. Depois de 64, seu foco era a liberdade da existência humana. Daí o título.

Autodidata, Millôr escreveu para revistas como Cruzeiro, onde tinha a liberdade de publicar o Pif-Paf, um jornal dentro da revista, e que depois se tornou uma das primeiras publicações independentes de humor no início da ditadura. Tornou-se “independente” porque ele acabou demitido da revista após fazer um texto satirizando a origem bíblica do homem (A verdadeira história do Paraíso). Isso foi em outubro de 1963, depois de ele passar 25 anos na revista.

Era também reconhecido nas artes plásticas. Teve exposição de seus desenhos, ou melhor, de Vão Gogo, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1957. No ano anterior, ganhara o principal prêmio da Exposição Internacional do Museu de Caricatura de Buenos Aires (mas embarcara sem Sérgio Porto). Fez traduções de obras como O prodígio do mundo ocidental, peça de John Syuge, A fábula do Brooklin, de Irwin Shaw, e A megera domada, de Shakespeare. Aliás, muitas obras do Bardo inglês passaram pelas mãos de Millôr.

Mas foi ao teatro que dedicou uma boa parte de seu trabalho. Sua primeira peça estreou em 1953, Uma mulher em três atos, no Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo. Dois anos depois, foi a vez de Do tamanho de um defunto e Diálogo da mais perfeita compreensão conjugal.

A revista independente Pif-Paf foi lançada em 1964, mais precisamente no dia 21 de maio, e tinha entre os colaboradores Reginaldo Fortuna, Ziraldo, Jaguar, Leon Eliachar e Stanislaw Ponte Preta. Humor e irreverência eram o que não faltava, como nesse exemplo: em uma das edições da revista, uma página continha o desenho de um círculo. E qual o motivo? A legenda explicava: “Espaço reservado especialmente para o leitor descansar seu copo de uísque enquanto se delicia também com nossas páginas”. O uísque!

Pensando no conforto de quem lê. E bebe

Como todo bom pirata…

“Bebíamos crepuscularmente nosso uísque escocês no Pardellas da rua Mexico, dançávamos no Vogue, andávamos de táxi. Já que o dinheiro era pouco, o jeito era gastá-lo no essencial: o apartamento próprio que esperasse”, escreveu Mendes Campos em O anjo bêbado.

A lista de bares e boites frequentados pela classe artística e intelectual do Rio de Janeiro dos anos 1950 e 1960 era extensa. Bem como a de quem passava por suas mesas. Além do Pardellas havia o Villarino, o Bar Rhenania (depois Bar Jangadeiro), o Calypso, o Bar Berlim, o Bar Veloso, o Bar Zeppelin, entre outros.

Na lista de presença desses estabelecimentos situados entre Copacabana, Ipanema e Leblon podiam ser encontrados: Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Lucio Rangel, Carlos Drummond de Andrade (às vezes), Carlos Lacerda, Tônia Carrero, Jaguar, Fernando Sabino, Jânio de Freitas, Millôr Fernandes, Dorival Caymmi, Antônio Maria, Ferreira Gullar, Ary Barroso…

Um seleto grupo desses bares, mais conhecido como “Zepelin’s Boys” certa noite tiveram uma briga inédita. Quem anunciava era o colunista Jacinto de Thormes: “Os brigões serão piratas e além disso serão os Srs. Vinícius de Morais, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Tom Jobim.” Estariam todos vestidos a caráter para um confronto a ser encenado e gravado nos estúdios da CineCastro para o filme Pluft o Fantasminha (lançado em 1961). “Será uma colaboração gratuita, para o qual eles fizeram apenas uma exigência: que lhes fossem servidos em vez de coca-cola, guaraná ou mate (na cena eles aparecem bebendo) um autêntico uísque escocês”, terminava a nota.

Fernando Sabino não foi, mas deve ter sido apresentado ao uísque desses bares por meio do ciceroneamento de Mendes Campos, que, anos depois, lançou pela editora Ática o livro Os bares morrem numa quarta-feira

Dom Quixote de Minas

O primeiro livro de Sabino foi lançado em 1941, Os grilos não cantam mais. Na época, o então jovem autor com cerca de 17 anos não teve dúvidas e mandou um exemplar para Mário de Andrade. A opinião do modernista de São Paulo chegou por carta para Sabino e dizia que se ele tivesse mais de 35 anos era um caso perdido, ele seria mais um dos muitos literatos que andavam por aí. Mas se, por acaso, ele tivesse de 25 a 35 anos, era um caso bem interessante, pelas possibilidades fartas que a sua literatura mostrava. E como ele era bem mais novo que isso… E muitas outras cartas foram trocadas entre eles durante anos. Diga-se de passagem, Mário mantinha correspondência com tantas pessoas que fica até difícil entender como ele encontrava tempo para escrever seus romances, poesias e estudos sobre música brasileira.

Sabino não ficava atrás. Durante anos manteve contato via carta com Clarice Lispector. Dessas conversas em papel foi lançado o livro Cartas perto do coração, que reúne parte da correspondência deles entre 1946 e 1969.

O primeiro contato entre Sabino e Clarice se deu em 1944, quando ele recebeu Perto do coração selvagem, livro de estreia da jovem autora, lançado ano anterior, com direito à dedicatória. Gostou e fez um texto sobre ele. Estava ele com 20 anos. Mas foi conhecê-la pessoalmente anos depois, quando ela voltou da Europa, e por intermédio do “Sabiá da crônica”, Rubem Braga, que seria seu sócio anos depois na editora.

Em 1956, Sabino lança Encontro marcado, uma das suas obras mais conhecidas que traz a aventuras e desventuras de um grupo de amigos de infância. Mas foi dez anos antes que ele começou outra que também ganharia muito destaque, inclusive no cinema: O grande mentecapto.

Esse livro só saiu em 1979, mas vinha sendo acalentado pelo autor desde os seus 23 anos de idade. Era uma espécie de distração para ele, mas quando resolveu pegar para valer, terminou a obra em apenas 18 dias. ˜A impressão que eu tinha era a de que o livro já estava escrito, bastava colocar no papel. Trabalhava durante horas sem conseguir parar. Houve uma semana terrível. Eu me lembro que sentei na máquina quarta-feira, às sete horas da manhã, e só fui parar na sexta”, disse em uma entrevista para o jornal Folha de S. Paulo na época do lançamento.

Entre o encontro e o mentecapto, Sabino mudou-se para o Rio de Janeiro e sua vida foi dedicada à crônica e alguns outros trabalhos como escrever para a TV (a “máquina de fazer doido”, como descrevia Stanislaw) e algumas traduções, como um livro sobre frases feitas.

As aventuras e desventuras de José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva, ou ainda Geraldo Boaventura, ou também Geraldo Viramundo, conquistaram os leitores. A saga desse Dom Quixote mineiro em O grande mentecapto rendeu a Sabino um prêmio Jabuti.

Dentre as andanças de Viramundo pelas Minas Gerais, há o episódio narrado no capítulo 4: de como Viramundo colheu rosas e espinhos em Barbacena, indo parar num hospício de onde logrou fugir, graças a uma treta bem-sucedida, e acabou candidato a prefeito da cidade.

Conhecida como cidade das Rosas, Barbacena era o lugar ideal para ele comprar rosas para sua amada Marília Ladisbão, que conhecera em Ouro Preto. No entanto, ele se desentende com o alemão, dono da granja e do roseiral, Herr Bosmann. Destratado, Viramundo resolve se vingar dele e, com a ajuda do amigo Barbeca, rouba todas as rosas. Mas são presos enquanto caminham pela cidade, espalhando as pétalas pelas ruas. Ainda na cidade, pergunta ao amigo qual sua tendência política e a resposta veio como uma boa crítica válida até hoje: se o amigo estiver em uma rua com nome Andrada, seria daquela corrente. Mas se estive em uma rua com nome dos Bias Fortes (as duas principais famílias políticas da cidade), ele era desta outra.

Talentos precoces, mas um desconhecido

Sabino, aos 15 anos de idade, já escrevia para periódicos e, em 1941, trabalhava como redator na Folha de Minas, em Belo Horizonte. Millôr, aos 10 anos, ganhou um concurso de desenhos promovido por um jornal. Como prêmio, além da publicação da obra de arte, havia 10 mil réis. Aos 14 anos, Millôr entrou no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, dividindo o estudo e o contato com o trabalho de grandes mestres da pintura com o trabalho de office-boy na revista O Cruzeiro, emprego que seu tio conseguira para ele um ano antes.

Mas foi aos 18 anos que Millôr teve uma grande descoberta em sua vida: quem ele realmente era. Até 1941, era chamado de Milton. No entanto, numa ida até o cartório para pedir uma certidão de nascimento, descobriu que por um erro, pela letra ruim do escrivão ou pela caneta que falhava quando seu avô escrevera seu nome, seu nome era outro: Millôr. Rubem Braga conta essa história em uma de suas colunas na revista Manchete, na edição de 12 de dezembro de 1953: “Já se contou e aqui se repete a história desse nome esquisito (Millôr). Vão Gogo se chamava Milton Fernandes (..) Seu avô, ao registrar-lhe o nascimento, escreveu o T, de Milton, muito aberto; em vez de traçar em cima desse T, traçou em cima do O, encerrando essa série de azares caligráficos fazendo um N capenga. E para os efeitos civis, Millôr ficou sendo o nome do menino. Sem dinheiro na época, não requereu a retificação”, escreveu. Mas o jovem sentiu naquele momento que era muito mais Millôr do que Milton.

Quando instado a escrever sua biografia, Millôr dizia ter adotado o pseudônimo Emmanuel (de Kant) Vão Gogo como uma paronímia de Van Gogh, pintor expressionista holandês. “O nome serve ainda para supor, no autor, vaniloquência e doença glótica própria das galinhas, forma de truque clássico com que o humorista, atribuindo-se inicialmente os piores defeitos, obtém licença para criticar os alheios”, escreveu certa vez.

E o jovem Sérgio? Este gostava de escrever desde criança para sua mãe, em especial bilhetes muitas vezes rimados e já engraçados. Além disso, curtia algumas paixões. Uma era jogar futebol de botão. A outra era ler, em especial Eça de Queiroz e Machado de Assis, autores que faziam o pequeno desatar a rir em meio à leitura. O mesmo Machado que criara o personagem professor Rubião (de Quincas Borba), morador de Barbacena (terra em que Viramundo fora internado) que escrevera Relíquias de casa velha, de 1906.

Talvez não por acaso Sérgio tenha escrito (sob inspiração?) A casa demolida, um exemplo das mais belas e profundas crônicas de sua infância e das mudanças pelas quais o Rio de Janeiro, leia Copacabana, passava, com a construção dos grandes edifícios que alteravam drasticamente a cena e a alma do bairro – e olha que sua família era majoritariamente de engenheiros.

De fazer inveja a Franz Kafla

A historiadora Cláudia Mesquita, e autora do livro De Copacabana à Boca do Mato: o Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta, conta que a dupla Stanislaw-Porto foi responsável pela tradução de uma nova realidade que se apresentava para o Rio de Janeiro e os seus habitantes. “Suas crônicas diárias representaram um esforço verdadeiramente pedagógico, de interpretação, classificação, seleção, correção, organização e atualização do léxico, tipos urbanos, tradições e as novas bossas de um Rio que deixava de ser a capital federal para se consolidar como capital cultural do país”, escreveu no artigo A cidade ‘ao rés do chão’: os cariocas e as cariocas por Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta.

E quem eram os cariocas? “Essa particular cidadania foi definida por ‘códigos de pertença cultural entre os de casa e os que adotaram a cidade como sua’”, escreveu Andréa Cristina de Barros Queiroz no artigo A construção da “República de Ipanema” no Rio de Janeiro dos anos 1960, publicado na revista Maracanan. Ou seja, tinham essa cidadania os cariocas de nascença ou não, uma vez que estes tivessem acolhido a cidade e por ela fossem acolhidos. Entre os principais representantes dessa “cultura do carioquismo” estavam, segundo a autora: Millôr Fernandes, Vinícius de Moraes, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Fernando Sabino, entre outros,

Stanislaw decifrava e ajudou a criar o que era o jeito de ser carioca, levando isso para todo o país, com suas expressões e palavras que muitos desconheciam que vão de “redentora”, “mais por fora do que umbigo de vedete”, “voltaram para o quarto numa fossa de fazer inveja a Franz Kafka”, “um sutiã tão mixuruca que mais parecia uma gravatinha borboleta pregada ao busto” e “bossa nova”. Isso: muitos atribuem a ele o batismo do movimento que projetou com força a música brasileira para além de nossas fronteiras. Diz a lenda que ele ouviu essa expressão de um engraxate que, enquanto dava um lustre nos sapatos de Porto, batucava na caixa com a escova um ritmo esquisito. Porto então perguntou que batida era aquele e ele teria respondido ser bossa nova. Há outra lenda que diz que o jovem engraxate teria perguntado se ter os sapatos sujos era “bossa nova”. Seja qual for, as lendas têm o comum o fato de Porto ter gostado, passando a usar esse termo.

Groucho-marxistas?

No fundo, Sérgio não era muito fã da Bossa Nova. Uma de suas paixões era o jazz, sobre o qual chegou a escrever um livro contando sua história a pedido do Ministério da Educação. Também era compositor e um de seus sucessos foi O samba do crioulo doido, no qual fazia uma enorme confusão com datas e personagens da história do Brasil. A música virou um enorme sucesso pelo grupo Quarteto em Cy e chegou a ser transformado em Show do crioulo doido, apresentado em teatros. Nos dias de hoje, esse título poderia causar muita discussão.

E mais uma vez houve quem não gostasse naquela época: em julho de 1968, durante um intervalo do show, ao tomar uma dose “cavalar” de café, Porto sentiu um gosto amargo e passou mal, indo para casa. Lá tomou um calmante e, em vez de dormir, passou 30 horas ligadão. Acabou sendo internado no Instituto Brasileiro de Cardiologia e a suspeita de que alguém tentara envenená-lo era grande. Pouco depois, em 30 de setembro, sofreu um infarte, que levou Porto e Stanislaw.

Além de Eça e Machado, outra inspiração dele era Groucho Marx. Um artista que tinha nos diálogos rápidos e nos jogos de palavras o cerne de seu humor – para desespero dos tradutores. E como falamos de três autores-tradutores, vale lembrar de um artigo publicado no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, de janeiro de 1979.

O texto traz alguns exemplos de adaptações razoáveis para os diálogos groucho-marxistas, como no filme A Night at the Opera (Uma noite na ópera). Nele, Groucho e seu irmão Chico discutem sobre um contrato, cuja última cláusula é chamada “cláusula de sanidade” (em inglês, sanity clause). Algo facilmente confundido com Santa Clauss (ou Papai Noel, cá entre nós). E é o que acontece com Chico que retruca: “Você não me engana! Não existe Papai Noel!” Qual a saída para o encarregado de fazer essa tradução, S. da Rocha Spiegel? Foi adaptar para “cláusula sanitária” (de “saúde”). E a resposta, em português, ficou: “Você não me engana! Não há nenhum sanitário aí!”

Ainda no artigo havia a saída possível que Millôr Fernandes teria para uma cena de A Day at the Races (Um dia nas corridas). Groucho está no guichê de apostas jogando no cavalo Sun-Up (“Dopa-dão”, segundo Millôr). Chico se aproxima, tentando vender-lhe um palpite. Groucho compra, mas no papel está escrito ZVBXRPL como o nome do cavalo. Groucho diz, em versão milloriana: “Com esse nome, deve estar correndo agora na Polônia”. “Não está no filme, mas se estivesse seria Irmãos Marx puro”, diz o artigo. Groucho, Harpo e Chico. Ou seriam Sérgio, Millôr e Sabino?

Groucho, Chico e Harpo: “marxistas” de destaque

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